Cultura

"Última Ceia": renasce uma obra

Paulo Virgilio
| Tempo de leitura: 2 min

Fernando Frazão/Agência Brasil

O mural gigante “Última Ceia”, pintado em 1967 por Ziraldo, estava encoberto; ele será restaurado e liberado para visitação

Abandonado, escondido, maltratado, mal cuidado. É assim que está a gigantesca pintura “Última Ceia”, criada em 1967 por Ziraldo.

Mas esse estado de abandono está com os dias contatos. A Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) lançou o Laboratório Público de Restauro – Mural Última Ceia. O objetivo é restaurar o gigantesco mural, na então casa de shows Canecão, que funcionava em terreno da universidade, no bairro de Botafogo, zona sul do Rio. A ação integra o projeto UFRJ Carioca, criado pela instituição para comemorar os 450 anos da cidade do Rio de Janeiro.

Considerada uma das maiores obras murais do País, com 32 metros por 6 metros, o painel encontrava-se há anos emparedado, escondido da apreciação do público. A medida foi tomada pela direção da casa de shows com o objetivo de aumentar o número de cadeiras da plateia.

Inspirado nos traços de pintores como Pablo Picasso e Cândido Portinari, Ziraldo criou, ao longo de seis meses de trabalho, uma Santa Ceia regada a cerveja, em um cenário carioca no qual não faltavam uma pequena favela e os Arcos da Lapa. Na época, em pleno regime militar, a obra foi alvo de críticas e considerada transgressora.

A partir deste mês, o Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ, que vai coordenador o laboratório, e a Escola de Belas Artes (EBA) da universidade iniciarão um trabalho minucioso para analisar as condições gerais do painel, que hoje tem apenas algumas partes visíveis. Em abril, o trabalho liderado pelos professores da EBA, com a participação dos alunos dos cursos de restauração, desenho e pintura, será aberto à visitação do público, que poderá acompanhar a recuperação em tempo real. 

“Não sabemos o que vamos encontrar. Pode ser que seja necessária uma intervenção mais drástica ou alguma coisa que nos facilite, somente a limpeza e a recuperação do próprio desenho do Ziraldo”, disse o diretor da Escola de Belas Artes, professor Carlos Terra. O trabalho será acompanhado de perto pelo próprio Ziraldo, que esteve presente ao lançamento da iniciativa.

“Isso é a melhor coisa que me aconteceu nesta fase da vida. É um renascimento”, comemorou o desenhista. Segundo ele, o fato de o painel ter sido fotografado na íntegra, em grande dimensão – a foto está no Museu do Humor, em Piracicaba [SP] – vai ajudar na restauração. “E também tenho muita anotação, lembro-me bem, e será fácil redesenhar o que estiver destruído”, disse.

De acordo com o reitor da UFRJ, Carlos Levi, a inauguração do laboratório de restauro é mais uma das iniciativas da universidade para recuperar e devolver à cidade o espaço de arte do antigo Canecão. Em 2010, após uma longa batalha judicial, a universidade recuperou a posse do terreno ocupado pela casa de shows, que não vinha pagando o aluguel pelo uso do espaço. No local, a universidade pretende implantar um centro cultural, o Espaço UFRJ.

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