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Centenário Cinema de Chaplin - Tempos Modernos

Guido Bilharinho
| Tempo de leitura: 2 min

Os filmes de Chaplin costumam agradar. Aí mora o perigo. Aí reside a fraqueza. Tempos Modernos, de 1936, mas ainda propositadamente mudo, não foge à regra, já que é estruturado no mesmo esquema ficcional (e funcional) dos demais. Convencional e linear, calcado e submetido à narrativa da história caracterizada por romantização da realidade, mesmo que, como é notoriamente o caso, marcada por laivos sociais e políticos. Nada original, visto que a ambientação, controle interno e a desumanidade capitalista mais ou menos naqueles termos já se encontram em Metropolis, de Fritz Lang.

O drama das órfãs, com semelhante conotação romântica, já se acha em Órfãs da Tempestade, de Griffith. É bem verdade que Chaplin infunde a tais temas características próprias. Nem seria para menos, tratando-se dele. Tanto esse quanto seus demais filmes longos padecem de iguais limitações. Neles destacam-se, porém, para além de toda influência e restrições, a personagem Carlitos e diversos episódios memoráveis. Em Tempos Modernos salientam-se as cenas da linha de montagem e as circunvoluções de Carlitos dentro da estrutura da instalação industrial. Tudo o mais no recinto da fábrica é anódino e dispensável. Na prisão, quando no refeitório, sobressai a alteração comportamental provocada pela ingestão de droga. No mais, esplêndida sua performance como cantor no restaurante. Um dos pontos altos de sua atuação artística, já que normalmente apresenta-se como ator.

Outra sequência notável transcorre na "casa" encontrada pela protagonista. Tudo aí, desde gestos e atitudes das personagens e até as situações e o décor, perfaz um dos grandes instantes ficcionais já formulados e executados. Além disso, entre outros rápidos momentos relevantes, a cena de Carlitos empunhando a bandeira vermelha e acidentalmente postando-se à frente de passeata sindical, para refletir a situação social do país na época, é acentuadamente crítica. Num filme marcado pela preocupação social, as cenas que enfocam as dificuldades operárias, suas passeatas e greves, são bem arquitetadas política e artisticamente. Fruto da dureza dos tempos, até a protagonista (Paulette Goddard) apresenta-se destituída da melosidade romântica que tisna suas congêneres dos filmes anteriores. É dura, decidida, "sem perda, no entanto, da ternura". E também da beleza, uma das características mais perceptíveis das heroínas chaplinianas.

Sua extrema valorização imagética, por força da (falta de) maquiagem e dos enquadramentos visuais, realça-se no filme. Mesmo não se distinguindo Tempos Modernos como cinema, seus melhores momentos o colocam na ápice das construções ficcionais, como aliás, malgrado tudo, muitos outros lances da obra de Chaplin. Não se deve, no entanto, confundir cinema propriamente dito com ideação, elaboração e condução do enredo e suas particularidades, mesmo qualificadas. Conquanto o cinema as veicule, essa circunstância não constitui sua prerrogativa nem lhe exige especificidade, já que podem expressar-se por outros meios, como o teatro. O cinema apenas lhes dá mais espaço e mais recursos e possibilidades, ampliando-lhes os efeitos e a importância.

O autor é advogado, editor da revista de poesia Dimensão de 1980 a 2000 e autor de livros história do Brasil e regional

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