Articulistas

O poeta e a mariposa

João Pedro Feza
| Tempo de leitura: 2 min

Para uns, o destino não envia arautos. Outros tantos acreditam em sinais: ajudariam a compreender rumos. Início de tarde de 30 de dezembro: mesmo com outras opções, paro no ponto da Rodrigues, quadra 20, perto do Cemitério da Saudade. Vazio de pensamento, só desejo logo voltar onde deixara minha mãe na noite anterior, quieta na cama e no oxigênio.
Um senhor de chapéu antigo e roupa pesada chega a pé da subida da avenida e senta ao lado. Puxa papo. Fala um pouco de sua vida de pedreiro e dos 60 anos de tabagismo, que abandonou - hábito que levou minha mãe ao imobilismo.
Conto que minha mãe deve ser internada. Ele, então, abre uma pasta de plástico e tira aleatoriamente duas das muitas folhas com seus escritos. Começou há dez anos. Aos 84, escreve a mão, entrega à irmã "que tem letra melhor" que, por sua vez, passa a limpo e manda digitar. Os poemas/"filosofias de fé" também chegam às mãos da minha mãe, e ela lê tudo com apressado interesse. "Bonito, bonito". Devolve as folhas, que dobro e guardo no bolso da calça.
Noite de 14 de janeiro. No momento em que, em Ourinhos, o sétimo dia de morte de minha mãe é lembrado em missa, uma borboleta entra em casa, em Bauru, e assusta minha filha de 5 anos. "Era mariposa", corrigiria depois meu filho. Na madrugada, no escuro, quase piso nela pelo corredor, e ela desaparece quase tocando meus cabelos.
No outro dia logo cedo, ao computador, pesquiso para rever as múltiplas interpretações de borboleta/mariposa: significa, para alguns povos, a alma dos mortos, o espírito a vagar. Olho ao lado e lá está ela: agora imóvel, num cantinho de sol, em descanso sem volta. Talvez tenha sido uma boa visita.
Só então, por telefone, consigo avisar o pedreiro-poeta que um de seus escritos tinha sido publicado no jornal de 11-1, página 30. Falo do falecimento. Ele me consola: "Não fique nervoso. Sua mãe está num lugar muito melhor. Isso é a certeza absoluta".
O segundo texto dele, publicado hoje na seção cultural "Ao Pé da Letra" e lido por minha mãe numa enfermaria, chama-se "Chegarei". Termina assim: "Jesus, Jesus, Jesus, chegarei a ti". Que seu Alcindo Salles, o autor, esteja certo. E que dona Lourdes tenha chegado nesse lugar melhor onde, agora, respira bem, lê poesias e admira seres com asas.

O autor é editor executivo do JC

Comentários

Comentários