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Os sinos de Notre Dame

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

Depois do atentado terrorista à redação da revista de humor Charlie-Hebdo, milhares de análises foram dadas a conhecer sobre a liberdade de expressão. Discutem os seus limites - ou a falta de - no ambiente democrático. Como em toda polêmica, sobram contradições. O papa Francisco deixou claro que "ninguém pode insultar a fé das outras pessoas". Disse também que consideraria "normal" reagir com um soco ao autor de uma ofensa a sua mãe. Milhões de pessoas foram às ruas de Paris para hipotecar solidariedade aos cartunistas assassinados. Foi um absurdo ver, na primeira fila da passeata e sob a bandeira "Je suis Charlie", presidentes da Hungria e da Turquia, entre outros, países onde a liberdade de expressão é uma miragem.
A liberdade de expressão não protege o pensamento dos que concordam conosco, mas sim o pensamento que odiamos. Aí que mora a dificuldade. O humorista francês de origem argelina Dieudonné, ainda no calor das manifestações pela liberdade de expressão, foi preso por causa de uma frase postada no seu Face: "Sinto-me Charlie Coulbaly". Juntou o nome do jornal com o sobrenome do assassino de quatro pessoas no supermercado judeu.
Muito daquilo que se escrevia e desenhava no Charlie Hebdo era de um profundo mau gosto, por vezes abjeto. Seus humoristas não respeitavam ninguém, testando os limites admissíveis da liberdade de expressão. Faziam a apologia de uma humanidade despida de tabus e preconceitos, de moralismos e hierarquias. Enfim, do mundo aonde ainda não chegamos. Nada teve de necrológio a edição de 5 milhões de exemplares da revista post-mortem destinada a celebrar o humor dos colegas assassinados. Gozaram eles próprios e fizeram questão de criticar os palermas que culparam os chargistas; os neoconservadores dos EUA; os sionistas e os próprios serviços secretos franceses. Declararam que vão continuar ateus e laicistas. Segundo eles, o repúdio a todas as religiões é o fundamento da liberdade republicana: é a garantia dogmática, a liberdade de gozar todos os preconceitos. O editorial diz que o maior motivo de riso na redação foi o fato de os sinos da Catedral de Notre Dame terem repicado em honra ao jornal. "Na última semana, o Charlie, um jornal ateu, fez mais milagres do que todos os santos e profetas juntos" - sublinhou o artigo. Enviaram uma mensagem ao Papa Francisco dizendo que só aceitariam "que os sinos de Notre Dame repiquem em nossa honra" se forem tocados pelas ativistas da Femem - grupo de mulheres que costumam protestar com os seios à mostra.
O mundo árabe reponde, também, com manifestações de rua. Multidões levam cartazes "Eu sou Maomé". A Al-Qaeda da Península Arábica já reivindicou a autoria do atentado, nomeadamente a escolha do alvo e o financiamento da operação. Segundo um dirigente, foi "uma mensagem forte a todos aqueles que se atrevem a meter-se com o que é sagrado para os muçulmanos".
O que se pode deduzir de tudo é que a liberdade é azul, mas custa caro. Se a garantia do livre pensamento deve incluir o direito à blasfêmia, isto é, às injúrias e desrespeito às divindades e às religiões, não é essa a realidade legal em todos os Estados democráticos. Mas seja um direito, ou seja um crime, a blasfêmia não é seguramente justificação ou atenuante sequer para a morte dos seus autores.
O terrorismo sempre foi uma realidade extremamente minoritária e nunca conseguiu atingir grandes objetivos ou provocar modificações sociais. Consome-se em atos que, embora de grande visibilidade e impacto emocional, são isolados e estéreis. Haverá ainda muitas explicações para o que sucedeu em Paris, além do fanatismo dos seus autores. Como também haverá para as crianças transformadas em bomba para mandar pelos ares dezenas de pessoas num mercado da Nigéria. Aqui no Brasil, os black-blocks estão de volta. Para eles, a liberdade de expressão consiste em atacar os símbolos do capital e do Estado, como forma de obter visibilidade e de alcançar as mudanças que pretendem.

É preciso entender "Por quem os sinos dobram". Não só os de Notre Dame. No poema de John Donne (1764), "eles dobram por nós". Inspirou o romance de Hemingway e a música de Raul Seixas. O roqueiro brasileiro, sob o mesmo título dizia que "É sempre mais fácil colocar a culpa nos outros (...)/ Convence as paredes do quarto e dorme tranquilo/ Sabendo no fundo do peito que não era nada daquilo".

O autor é jornalista e articulista do JC

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