Em meio às toneladas diárias de metal e todo tipo de sucata que os ferros-velhos recebem diariamente, algumas peças chamam a atenção pela idade, por remeter ao passado e, muitas vezes, por sua raridade. São itens antigos de decoração e iluminação, como candelabros, pendentes e lustres; utensílios domésticos, como panelas e moedores; máquinas usadas por profissionais do passado, como balanças; além de uma infinidade de objetos dignos de colecionadores.
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Malavolta Jr. |
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Adilson e José de Oliveira mostram uma balança de varão colonial (usada para pesar sacos de café e grãos)
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No família de Delton dos Santos, ferro-velho é negócio passado de geração a geração. Localizado na quadra 3 da rua Floriano Peixoto, Centro, a empresa da família data do início da década de 1960, uma das mais antigas em Bauru, e foi fundada pelo avô de Delton, Emílio dos Santos, que deixou para o filho, Benildo dos Santos, que deixou para Delton, há quatro anos à frente do galpão.
Entre as toneladas de sucata que chegam ao endereço, ao menos 100 por mês, algumas centenas de peças despertam o interesse dos visitantes. Isso porque, assim como o ferro-velho, o gosto por objetos antigos também passou pelas três gerações.
Ao entrar no escritório do galpão, é possível notar essa paixão. “Nós temos encontrado verdadeiras relíquias ao logo de todas essas décadas, e a maioria delas ficou na família. Vendemos uma coisa ou outra, mas gostamos mesmo é de restaurar, na medida do possível, e transformar em objetos de decoração. Muitos deles vão para a casa dos parentes”, diz Delton.
De acordo com o comerciante, muitos colecionadores o procuram para comprar as relíquias, inclusive moradores de outras cidades. “Mas o meu desejo é montar, quem sabe, um pequeno museu com tudo isso. Mas é preciso tempo e dinheiro para restaurar as centenas de peças que ainda chegam, embora em menor quantidade, com a sucata”.
Sem preço
Entre as raridades da família Santos está uma bússola retirada, há mais de três décadas, de um navio naufragado no Rio Paraguai, em Porto Esperança. Segundo Delton, possivelmente esta é uma de suas peças mais raras.
Ainda há um capacete usado por soldados na Guerra do Paraguai, um sino de máquina a vapor, um dos primeiros telefones já fabricados, tacho de cobre trabalhado à mão, candelabros de bronze, além de inúmeros objetos antigos como: extintores, panelas, lampiões, lustres, moedores, bicicletas até da década de 1950... O teto é repleto deles.
“Também tenho uma engenhoca usada por escravos para fazer comida. É uma corrente com anéis e ganchos usados por eles para regular a altura das panelas em relação ao fogo. Tudo isso veio com a sucata há muitos anos. Hoje ainda vem, mas em menor quantidade, porque os objetos antigos encontraram mercado, hoje. Não são colocados tão facilmente no lixo, como acontecia há alguns anos”, finaliza.
Objetos do passado são fontes de renda extra para os donos dessas empresas
Na quadra 11 da avenida Pinheiro Machado, no Parque Parque Santa Edwirges, Dênis Oliveira de Alvarenga tem um ponto de descarte voluntário de eletrônicos há 14 anos. Entretanto, há quatro anos ele descobriu na sucata outra fonte rentável. E com a sucata vieram as surpresas.
“A população vem descartar sua velharia, sabe, até mesmo para se livrar do que não serve mais em casa, abrir espaço para coisas novas. E eu fico surpreso com a quantidade de coisas antigas e ainda funcionando que vêm junto. Muitas delas raras e que podem ser vendidas por um bom preço”, ressalta Dênis.
E ele conta que muita gente garimpa os ferros-velhos em buscas de tais objetos. “Eu vendo, mas confesso que prefiro ficar com eles. Algumas pessoas compram para presentear parentes e amigos que colecionam antiguidades, outros compram para restaurar e revender... Tem de tudo. Na verdade, esses objetos fazem sonhar, lembram a infância”, diz, enquanto aponta exemplares de rádios antigos.
O pequeno relicário de Dênis realmente abriga objetos preciosos. Para os amantes da música, há um violino que, segundo ele, data de 1800 e foi avaliado em torno de R$ 8 mil. Ainda há um projetor com filmes. “E funciona”, garante.
Ferros-velhos são ‘garimpos’ para colecionadores de antiguidades e belas raridades
Colecionadores, restauradores e revendedores de antiguidades são atraídos diariamente pelos ferros-velhos, verdadeiros campos de garimpo para esse público, segundo garantem os comerciantes do ramo.
De olho nessa procura, Adilson de Oliveira, mais conhecido como Piter, não deixa faltar objetos antigos em seu galpão, localizado na quadra 9 da avenida Cruzeiro do Sul. “Constantemente recebemos a visita de pessoas à procura de objetos específicos ou mesmo de gente que gosta de garimpar, ver tudo e depois levar essa ou aquela coisa. Vem gente de toda a região, inclusive da capital do Estado”, conta.
Para atender essa demanda, entre a sucata que chega ao seu ferro-velho, Piter também faz questão de adquirir peças em condições de restauração e revenda. Seu pequeno acervo abriga peças comuns e conhecidas: torradores de café, relógios de ponto, antigos modelos de máquina de costura, balanças de varão colonial (usadas para pesar sacos de café e grãos), balanças comuns nas vendas do passado quando os alimentos, principalmente os grãos, eram vendidos à granel, entre muitos outros objetos.
E ainda há os itens mais raros e, claro, mais caros, como uma furadeira manual fabricada nos Estados Unidos. “Mas nosso xodó é uma sanfona muito antiga e original. Compramos até com a caixa de madeira. Uma riqueza”, mostra.
A procura é grande por comerciantes da Feira do Rolo
Do outro lado da cidade, na quadra 19 da rua São Sebastião, na Vila Industrial, Dirceu de Souza Silveira também garante o sustento da família com um ferro-velho, há 20 anos, e diz conseguir um dinheiro extra com a procura de “raridades”.
De acordo com ele, há quem o procure toda semana em busca de objetos para vender, aos domingos, na Feira do Rolo, onde peças antigas têm bastante saída. O pessoal leva panelas de ferro, lampiões, relógio de parede cuco...
“Alguns em bom estado, outros precisando de alguns reparos. E tenho clientes até em São Paulo. Um camarada, outro dia mesmo, veio passear na casa da sogra e deu uma passada por aqui. Ele tem uma loja de restauração por lá”, acrescenta.
Entretanto, nem tudo está à venda, garante. “Algumas coisas eu gosto, sabe. Então fico com elas. Tenho uma máquina pulverizadora, por exemplo, muito antiga. Ela não está à venda”, diz.
