No dia em que os termômetros marcaram 37,8 graus, a temperatura máxima mais alta em 19 anos para janeiro, moradores das regiões Norte e Leste de Bauru protestaram por estarem com as torneiras secas por três dias. Pela manhã, cerca de 20 moradores do Jardim Helena se revezaram em vigília para evitar que funcionários do Departamento de Água e Esgoto (DAE) deixassem o poço do Jardim Gasparini que, desde sexta-feira, passava por reparos depois de ser atingido por uma descarga elétrica na madrugada de sexta-feira e ter a bomba queimada.
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João Rosan |
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Bombeiros só foram autorizados a acabar com o fogo quando caminhão-pipa chegou ao bairro
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Além de abastecer o Jardim Helena, o poço ainda contempla a Vila Garcia, onde simultaneamente, moradores entraram na Escola Municipal de Educação Infantil (Emei) Etelvina de Araújo Almeida para pegar água. O caso foi registrado como furto e duas pessoas flagradas dentro da instituição em férias foram levadas à Central de Polícia Judiciária (CPJ).
Cerca de uma hora e meia depois, aproximadamente 40 moradores cercaram e pararam um circular que fazia a linha Vila Maria/Jardim Marília, no cruzamento da rua Júlio Simões com a rua Brasilino de Carvalho, na Vila Garcia. Enquanto “seguravam” o veículo, estacionado sob a sombra por uma hora, reivindicavam que o problema fosse solucionado ou que caminhões-pipa os atendessem com urgência.
Barricada
Simultaneamente, outros cinquenta moradores fechavam a rua Joaquim Marciano, interrompida na quadra 1 com galhos de árvores em chamas, no Jardim TV. Aos gritos de ‘queremos água’, se revoltaram quando o Corpo de Bombeiros chegou para apagar o fogo. Muitos queriam aproveitar o líquido do próprio caminhão da corporação, que só foi autorizada a fazer o seu trabalho quando o caminhão-pipa do DAE despontou na via.
Famílias inteiras permaneciam nas ruas para acompanhar o trajeto do veículo que, obviamente, não seria capaz de atender a todos. Neste momento, o caminhão-pipa foi escoltado pela Polícia Militar, que enviou para o local seis viaturas, duas motocicletas e 14 homens. Foi o sargento Aldo Cesar Teixeira, comandante do Grupo de Patrulha da 4ª Companhia, quem negociou com a população e conseguiu liberar o circular e a via interrompida.
Ele também soube conduzir a discussão provocada entre moradores, quando a água do caminhão-pipa começou a ser distribuída. Vários veículos do DAE foram enviados à região desabastecida, onde vivem aproximadamente 12 mil pessoas. No entanto, em qualquer ponto das regiões Norte e Leste em que moradores eram ouvidos, informavam que o socorro da autarquia chegava apenas em outro ponto, não no seu.
Queixas
As queixas e cobranças dirigidas à prefeitura e à Câmara eram feitas indistintamente pela região, cuja distribuição de água foi normalizada no final da tarde de ontem. No entanto, como o líquido leva tempo para chegar, perto das 20h, outro protesto teve início no Jardim Marília, onde a população queimou galhos de árvores, na rua Brasilino de Carvalho.
DAE troca bomba e aumenta vazão
Quando a equipe de reportagem chegou ao poço do Jardim Gasparini, cerca de 15 funcionários do DAE trabalhavam no local. Finalizaram o trabalho no início da tarde, momento em que a vazão de água passou dos 210 metros cúbicos por hora (antes da queima da bomba) para os 225 metros cúbicos por hora, após o serviço concluído ontem.
Mas até que a situação se normalizasse, 74 pessoas ligaram para o 0800 para reclamar e solicitar caminhão-pipa, apenas no domingo. Enquanto isso, com o intuito de fazer melhoramentos no sistema, a equipe instalou uma bomba mais potente, explicou Heber Soares Vieira, diretor de Divisão de Produção e Reservação do DAE. De acordo com ele, antes do trabalho, uma bomba enviava água para uma caixa de passagem, onde outra bombeava para o reservatório de distribuição.
A partir do trabalho realizado, a água passou a ser bombeada diretamente para o reservatório de distribuição. “Estamos trabalhando com a mesma equipe. Não dá para virar 24 horas”, comentou Heber, ao admitir que faltam funcionários na autarquia para que uma segunda equipe estivesse à disposição e rendesse a primeira.
Segundo a assessoria de imprensa do DAE, os servidores trabalharam no sábado das 7h às 20h ininterruptamente. No domingo, passava das 13h e ninguém tinha parado para almoçar, por exemplo, acrescentou. O departamento de comunicação ainda informou que três caminhões-pipas circularam pela região durante todo o dia para atender a demanda. No sábado, os três circularam até as 23h, finalizou.
Moradores do Jd Helena faz vigília
Cerca de 20 moradores do Jardim Helena chamaram, ontem pela manhã, a Polícia Militar por conta da falta d’água, provocada pela queima do poço Gasparini, bairro situado um pouco acima. Depois do efetivo ter informado que nada poderia fazer por eles, decidiram fazer uma vigília para evitar que funcionários do DAE deixassem o local sem resolver o problema.
Reunidos na rua Osvaldo Minarelli, disseram que os servidores não teriam trabalhado no sábado, informação refutada pela autarquia. “Esse bairro é sempre esquecido”, comentava a administradora Rafaela Piccoli, segundo quem os caminhões-pipa não chegavam até lá, pois paravam no Gasparini.
“Estamos pegando água de uma vizinha porque não tenho nem para fazer comida. São cinco pessoas em casa. Cada um toma banho com uma garrafa de água de dois litros”, comenta Norma da Silva Tobias. Em situação muito mais difícil estava Aparecida Mathias, 65 anos. Sem ter a quem pedir o líquido, não tinha como preparar a refeição para a mãe de 97 anos, Ermelinda Bordim, e para o filho acamado de 28 anos, Fernando Mathias.
Com os olhos marejados, explicava que o filete de água que saia da torneira da casa situada na quadra 1 da rua Manoel Gomes de Souza, usaria para matar a sede da família.
Caso de ‘invasão’ vai parar na polícia
As torneiras secas levaram vários moradores da Vila Garcia a entrarem na Escola Municipal de Educação Infantil (Emei) Etelvina de Araújo Almeida, que está em férias, para pegar água. O caso foi registrado na Polícia Civil como furto. O chapa Adriel Nogueira, 29 anos, e seu vizinho Teófilo Gomes foram levados à Central de Polícia Judiciária (CPJ). Mas vários outros moradores estavam no local, quando a PM chegou.
No local, obtiveram a informação de que uma vizinha abriu o portão da escola, que não tinha sinais de arrombamento. “Eu tinha de dar banho na minha filha de 1 ano e 5 meses, por isso entrei”, comenta Suelen Julião Nascimento. No entanto, como água tem valor econômico e seu gasto tem custo para a municipalidade, o delegado Mário Henrique Ramos registrou a ocorrência e liberou os dois homens levados à delegacia.
“A conduta trata-se de furto, sendo que o mesmo pode estar submetido a uma das excludentes de tipicidade em razão da peculiaridade do caso”, registrou no boletim de ocorrência. Com isso, o delegado deixou claro que a necessidade daquelas famílias pode fazer com que o crime seja desconsiderado.
Os policiais tentaram em vão localizar alguém da prefeitura. O caso inflou um protesto realizado pouco tempo depois, já que as famílias estavam indignadas porque Adriel e Teófilo, pais de família, tentavam apenas minimizar a situação em que se encontravam seus filhos.
Dois protestos acontecem quase simultaneamente e PM é acionada
Levou quase uma hora para que um circular cercado e impedido de seguir no cruzamento das ruas Júlio Simões com Brasilino de Carvalho fosse liberado pelos manifestantes, ontem à tarde, na Vila Garcia. Depois de chegar ao local, em aproximadamente 20 minutos, a PM conseguiu que ele deixasse o local, ao informar que o problema no poço do Gasparini havia sido sanado e que a partir das 18h a água chegaria nas casas.
Com a promessa de retomar o protesto caso a afirmação não se concretizasse, moradores liberaram o motorista seguiu viagem, enquanto comentavam das inúmeras dificuldades para enfrentar as torneiras secas. Muitos estavam sem almoçar por conta do problema.
A situação, porém, era ainda mais complicada na casa de Rogéria Lozano. O filho dela Rafael, 26 anos, fez uma cirurgia recente e colocou uma bolsa de colostomia. Sem água, ela não conseguia higienizá-lo.
Enquanto contavam seu drama, moradores fechavam a ria Joaquim Marciano com fogo em galhos aos gritos de ‘Queremos água”. Ficaram ainda mais revoltados quando o Corpo de Bombeiros chegou para apagar as chamas. Reivindicavam a água do caminhão, quando o pipa do DAE chegou e a passagem foi liberada.
Quando o veículo do DAE parou, moradores das mais diversas idades se aglomeravam para garantir um pouco de água em casa.
