Osistema elétrico brasileiro opera no limite
como resultado da falta de previsibilidade
do governo federal: apostou em Deus, apostou
que ia chover apesar dos fortes indícios de que
2014 seria mais um ano de escassez hídrica. A matriz
energética brasileira é, em grande parte, hídrica
e nos últimos anos houve um processo de demonização
das usinas com reservatórios. O reservatório
permite o acúmulo de enorme quantidade de água,
que funciona como estoque a ser utilizado no período
mais seco. Neste caso, há necessidade de maior
área alagada e isto esbarra na questão ambiental.
Em decorrência, nos últimos anos, o governo tem
priorizado as usinas a fi o d?água, que geram energia
com o fl uxo de água do rio. Com quase nenhum acú-
mulo, a área alagada será menor, diminuindo o impacto
ambiental. De acordo com o Operador Nacional do
Sistema Elétrico (ONS), de toda capacidade hídrica
prevista para entrar em operação no sistema, apenas
1% será proveniente de usinas com reservatórios.
O aumento da infl uência das questões ambientais
nas decisões relacionadas ao setor elétrico tem
um preço. Além da possibilidade de não poder suprir
a demanda no período seco do ano, as exigências
ambientais têm contribuído para o atraso na
entrega dessas usinas. Há nisso tudo uma grande
ironia: sem reserva hídrica, há necessidade do uso,
cada vez mais intensivo, das usinas térmicas para
suprir e garantir o funcionamento do sistema. Queimando
carvão mineral, gás e sobretudo Diesel para
gerar eletricidade, estas usinas são grandes poluidoras
além de fornecer uma energia mais cara.
Quando a oferta não atende a demanda o sistema
de geração começa a "subir a ladeira", as turbinas começam
a girar mais devagar e com isso, a frequência
cai de 60 para 59 ciclos por segundo (Hertz). Razão
pela qual, um dispositivo de proteção desativa o gerador
e a oferta de energia diminui ou seja a "ladeira
fi ca mais íngreme" e a frequência tende a cair ainda
mais. A partir daí acontece uma reação em cadeia
com desligamentos sucessivos que levam a um blecaute
total. Para evitar o pior, a solução imediata é
reduzir a demanda promovendo cortes de energia:
é o blecaute seletivo. Detectado o problema, não há
tempo para qualquer aviso aos consumidores.
Esse blecaute parcial, ocorrido nesta última
segunda-feira (19), é decorrente de vários fatores:
da falta de investimento no setor, da redução na capacidade
de geração por conta do baixo nível dos
reservatórios, dos problemas de distribuição, do aumento
da demanda por conta do calor excessivo,
da ausência da biomassa e, consequentemente, da
cogeração nas usinas de açúcar e álcool neste período
do ano. Portanto, causa perplexidade a postura do
governo ao falar em falha humana, da linha de transmissão
norte sul ou de dispositivos. O governo precisa
encarar esta situação com mais sinceridade, transparência
e realismo: investir no sistema, esclarecer
a população como racionalizar o uso da energia; incentivar
a geração distribuída e a micro geração, que
engloba a geração simultânea de eletricidade, calor e
frio em edifícios, hotéis, hospitais, etc.
Em relação aos países europeus, com menor índice
de insolação, percebe-se aqui o pouco uso da
climatização passiva ou da arquitetura bioclimática;
percebe-se a ausência da obrigação do uso da
energia limpa para suprir parte da demanda requerida
por qualquer imóvel. A legislação da Comunidade
Europeia estabeleceu também que a climatização
de área comum ou aberta só poderá ser feita
mediante o uso de energia alternativa ou residual.
A energia solar térmica, além de produzir água
quente e aquecer piscinas, aqui deveria servir para
apoiar sistemas de refrigeração com máquinas frigorífi
cas de absorção ? mais comuns ? ou de adsorção
? menos comuns, mas com aplicação crescente. Em
nosso País, a energia solar deve estar mais voltada
para a produção de frio do que de calor. Infelizmente,
esse desgoverno no setor é o resultado da colocação
de políticos em ministérios estratégicos em detrimento
dos excelentes especialistas que temos.
O autor é professor titular aposentado do
Departamento de Engenharia Mecânica da
Faculdade de Engenharia da Unesp -
câmpus de Bauru SP