O maestro, músico, cantor e compositor Jaime Alem reúne suas memórias afetivas em uma versátil combinação de arranjos prosaicos ao lançar o disco “Meu Relicário”, ao lado, não por acaso, da esposa e parceira Nair Candia (voz).
Abrir a tampa da caixinha musical produzida por Alem é convidar a lua a conversar sobre a forma como o autor vê o mundo, ao entardecer, em provérbios, como na canção “Lua e vento”. Na passagem por Bauru, o próprio Alem deixou suas emoções fluírem naturalmente em olhos marejados. Bastou, ao mostrar a canção ao violão, trocar fixamente olhares com Candia.
A citação, talvez, traduza, o ingrediente emocional que o disco vincula pelas harmonias musicais de seu relicário. “A gente pensou ao fazer esse disco: Gravar o que? Porque tenho muita música guardada. A definição como Meu Relicário é algo simplesmente minha, são coisinhas da qual eu e Nair fazemos parte, sendo sete cantadas e algumas instrumentais, com releituras de arranjos meus a obras como de Luiz Gonzaga’, descreve.
“Meu Relicário” costura, sem preocupação com temporalidade, gêneros ou estilos, um medley com seus dissonantes e o vigor de leituras para clássicos como “Baião (Luiz Gonzaga/Humberto Teixeira) e “Baião da Penha” (Davi Nasser / Guio de Moraes). Por isso, o disco traz baiões, modas de viola, chula, baladas e linhas sonoras que parecem percorrer o trilho de universos como de Villa Lobos e do Clube da Esquina, influências da varanda ou da sombra ao colo da mãe.
No trabalho, ele contou com a cumplicidade da companheira Nair Cândia e com o quarteto formado pelos músicos João Carlos Coutinho (piano e acordeon), Reginaldo Vargas (percussão), Bruno Aguilar (contrabaixo acústico), João Bustamante (violoncelo), além das baquetas de Jurim Moreira.
A música, apesar de matemática, é uma escolha, como a vida. E Alem preferiu o caminho da delicadeza em seus arranjos!
Cantigas de mãe
Em apresentação em Botucatu, em programa da Secretaria Municipal a convite do secretário Osni Ribeiro, o compositor, arranjador, maestro e músico traz em seu relicário as lembranças que não podem ser esquecidas, como o encontro, pela primeira vez, com sua parceira e esposa, Nair Candia.
Nascido em Franca (SP), ele mesmo conta que foi no Colégio Silva Prado. Nair tinha 13 anos. “Eu era um garoto que já tocava em uma banda de rock e éramos colegas de classe”, conta Jaime. “Até que um dia eu fui a uma festa e tinha um menino cabeludo tocando na banda. E eu vi que era ele, o menino da minha sala. Ai eu já fiquei mais interessada”, diz Nair.
Nas casas de Candia e Jaime, as respectivas mães sempre cantarolaram. O irmão mais velho também era músico. “Mas eu era ainda mais tímida que hoje e cantava, com a janela fechada, em casa Milton e outros. E fui convidado para cantar em um quarteto vocal”.
Disso, Nair se encontrou musicalmente com a esposa com a junção do quarteto com o grupo que Jaime já comandava, ainda moço. Seu avô era arquiteto, músico, maestro e avô, Guilherme Gambeta. Na capa do disco “Meu Relicário”, a imagem traz uma partitura de 1906 do avô. “Minha mãe cantava muito, o dia todo. Uma das coisas que ela mais gostava dos filhos era ouvi-la cantar”.
Referências
Não raro, arranjadores como Alem terem em suas referências o empréstimo saudável dos ouvidos para grandes da MPB. “Tive o privilégio de ter o rádio aos pés do ouvido com sons de Antonio Carlos Jobim, Dolores Duran e muitos outros. Meu pai também me obrigava a tocar músicas que o Nélson Gonçalves interpretava.” Só depois vieram os festivais, os Beatles. “A gente tinha um conjunto meio maluco, porque tocava ‘Canto Triste’ de Edu Lobo, Vinicius de Moraes.” No mesmo tom, Nair Candia ouvia música clássica, Angela Maria, Celi Campelo, “de tudo um pouco, mas de uma variedade que estava no mesmo patamar da qualificação sonora”.