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Há meio século em defesa da inclusão

Cinthia Milanez
| Tempo de leitura: 9 min

Em 25 de janeiro de 1965, nascia a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) de Bauru, a mais antiga entidade voltada aos deficientes do município. Hoje, a instituição comemora 50 anos de luta em prol da defesa dos direitos das pessoas com necessidades especiais. Em média, nos últimos 5 anos, a Apae realiza 200 mil atendimentos anuais.

 

 

Tudo começou em uma das salas da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (Fafil), hoje Universidade Sagrado Coração (USC). Lá, reuniram-se pais e amigos de crianças portadoras de deficiência intelectual, que elegeram a 1.ª diretoria da instituição. Contudo, a entidade só começou a funcionar dois anos depois, ou seja, em 1967.

 

“Em março de 1967, a irmã Rosalva Motter convidou uma aluna de pedagogia, a professora Marisa Bersani Gorla, para ser a 1.ª professora de 18 crianças deficientes intelectuais. Aceito o desafio, finalmente começa a funcionar uma classe em laboratório da Fafil, na rua Antonio Alves, no Centro”, diz a atual presidente da Apae, Olga Bicudo Tognozzi, há 33 anos no cargo.

 

Porém, a professora Marisa não enfrentou tudo sozinha, não. Ela contou com o apoio de Isabel Ricci da Silva, merendeira da instituição. Até então, a Apae era vinculada ao Instituto Psicopedagógico Motter. No ano seguinte, todavia, a entidade ganhou independência e, enfim, começou a ser chamada de Apae de Bauru. 

 

A sede também mudou, passou a ser na rua Cussy Junior, no Centro, e a ter o reforço de mais duas professoras: Maria Aparecida Prelianchi e Neide Trassi Pereira. Na época, ninguém tinha formação em educação especial. As pedagogas trabalhavam apenas com a ideia de amor ao próximo. 

 

Foi aí que surgiu a necessidade de profissionalização. Diante disso, a professora Marisa, a 1.ª a lecionar na instituição, fez um curso na Apae da Capital e trouxe a Bauru o que havia de mais moderno na área. “Só o amor não bastava e a 1.ª semente lançada já começou a dar bons frutos”, diz Olga.

 

Depois do pontapé inicial, outras diretorias existiram e todas elas contaram com a presença de Fernando Penna de Carvalho, pai de Ana Célia, que possui deficiência intelectual e, até hoje, frequenta a instituição. “O senhor Fernando sempre esteve à frente nos anos mais difíceis da Apae de Bauru”, reconhece dona Olga.

 

Da rua Cussy Junior, a Apae passou a funcionar na rua Célio Daibem, no Altos da Cidade, mas ficou por pouco tempo, já que o prédio oferecia riscos. Depois, a rua Virgílio Malta abrigou a sede da entidade, momento em que  a instituição começou a adquirir um aspecto de escola. “Era um prédio amplo, fato que possibilitou o aumento de 18 para 78 alunos”, conta dona Olga.

 

Outro ponto positivo é que a Apae diversificou os atendimentos. Já começaram a funcionar os setores de serviço social, psicologia e fonoaudiologia. A partir daí, a instituição começou a crescer. “Mudou-se para um prédio concedido pela Prefeitura Municipal de Bauru, na rua Antonio Gasparini, lá na Vila Popular Ipiranga”, pontua dona Olga. Além disso, o sonho de ter uma sede própria estava prestes a ser realizado, graças à iniciativa de Alberto Segalla, que assumiu a presidência da Apae, em 1972.

 

Dois anos depois, mais especificamente no dia 6 de maio de 1974, a prefeitura concedeu um terreno à entidade, situado na quadra 20 da avenida José Henrique Ferraz, na região do Jardim Ouro Verde. Graças a uma verba de Cr$ 100 mil do Ministério da Educação (MEC), as obras começaram, em 1977, mas o dinheiro não era suficiente. Foi aí que dona Olga, que era vice-presidente da Apae, entrou em ação. “Formei um grupo de 40 voluntárias. Nós trabalhávamos em eventos para arrecadar dinheiro.”

 

Em 1983, a sede foi inaugurada e contou com Gilberto Barros (apresentador de televisão e, na época, voluntário da Apae) como cerimonialista. Havia quatro pavilhões e 15 técnicos (psicólogos, assistentes sociais, neurologista, dentista, fonoaudióloga, fisioterapeuta, terapeuta ocupacional, coordenadora pedagógica e diretora).

 

Uma entidade, incontáveis histórias

 

Hoje, a Apae de Bauru comemora meio século de uma história que foi construída graças à iniciativa de diretores, pais, voluntários, usuários e de toda a comunidade bauruense. Em entrevista ao JC, os pioneiros da entidade reviveram as dificuldades e o sentimento de amor ao próximo, ponto de partida para que a ideia de auxiliar os deficientes saísse do papel.

 

Esse é o caso do ortopedista aposentado João Farah Netto, que foi presidente da instituição entre 1970 e 1972. Hoje, aos 77 anos, ele não se lembra de muitos detalhes da época em que comandava a Apae. “Naquela década, a sede da Apae era na rua Célio Daibem, no Altos da Cidade, um prédio com condições muitos precárias”, descreve.

 

O aposentado acrescenta ainda que o serviço não era profissionalizado. “Conseguimos sair da Célio Daibem e fomos para a Virgílio Malta. Comecei a colocar a casa em ordem”, brinca o ex-presidente. Inclusive, como ortopedista, ele prestava serviço para a entidade e também organizou toda a parte médica da Apae.

 

Além disso, João Farah Netto foi o primeiro a assumir o cargo ainda jovem, ou seja, no auge dos seus 33 anos. O aposentado conta que a motivação pelo trabalho na instituição era o fato de ele ter um irmão com necessidades especiais e vê a entidade como uma importante defensora dos direitos dos deficientes. “Pena que o governo não banque o trabalho”, critica.

 

Eventos

 

Na época em que João Farah Netto era presidente da Apae, ele conseguiu trazer o show da Vila Sésamo (série de televisão, cuja versão brasileira foi baseada no programa infantil americano Sesame Street) a Bauru. “Tinha tanta gente, que a equipe teve de fazer dois espetáculos de 30 minutos, ao invés de apenas um de 45 minutos”, relembra o aposentado.

 

E de promoção de eventos, Adélia Levorato Prado também entende muito bem. Voluntária desde 1976, ela participou da organização do 1.º Bazar da Pechincha da entidade. Para ajudar a angariar fundos, Adélia já fez artesanato e doces caseiros. Ela relembra com saudosismo das feiras na Praça Rui Barbosa, que eram promovidas duas vezes por ano.

 

“Os jovens também ajudavam muito. Inclusive, Gilberto Barros (apresentador de televisão), que era voluntário da Apae. Nas feiras, ele participava da barraca do cachorro loko, com ‘k’ mesmo, era um cachorro quente com linguiça”, narra. Na função até hoje, Adélia diz ter orgulho do que faz. “Todos os dias, agradeço a Deus por ser apaiana”, desabafa, com os olhos marejados.

 

Educação

 

Na Apae há 39 anos, a professora Hideco Minei Bigheti, que é diretora pedagógica da entidade, afirma que o lema das pedagogas é que os alunos vêm sempre em primeiro lugar. “Não pensamos em salário, pensamos no amor de trabalhar com a educação especial”, pontua. Emocionada, ela diz que o preconceito ainda existe, mas em menor escala do que era antes.

 

“As pessoas olhavam para a Kombi da Apae, que buscava os alunos em casa, e não viam com bons olhos o trabalho da entidade. Pensavam até que as crianças ficavam largadas em um canto. Hoje, a comunidade entende que o trabalho que a Apae realiza é sério”, argumenta a professora.

 

Já uma das primeiras professoras da instituição, Neide Trassi Pereira, que começou a lecionar na Apae em 1969, afirma que se descobriu por lá. “Me dediquei ao bem-estar da humanidade, fato que está contido nas pequenas ações e cuidados diários. Lá, aprendi a desenvolver atitudes de amor, respeito e carinho ao próximo”, conclui Neide.

 

Hoje, entidade promove ‘culto de aniversário’ 

 

Para comemorar os 50 anos da Apae, haverá um culto ecumênico, hoje, às 9h, na sede da entidade, localizada na avenida José Henrique Ferraz, 20-20, na região do Jardim Ouro Verde, em Bauru. Quem quiser mais informações ou, até mesmo, ajudar a instituição com donativos, basta entrar em contato por meio do telefone (14) 3104-2834.

 

Para festejar, a entidade também lançou uma logomarca. O número 50 em cor dourada representa o Jubileu de Ouro da Apae. O coração é a missão realizada com fé e altruísmo pela associação. As flores representam os frutos da Apae, ou seja, os alunos e usuários. 

 

Já o número cinco representa os cinco dedos das mãos das pessoas que fizeram a história da entidade: diretoria, voluntários, comunidade bauruense, colaboradores, alunos, usuários, funcionários, pais e amigos. Por fim, o círculo da cor verde significa a esperança da Apae, que sempre se renova e nunca acaba.

 

Pioneiro

 

José Antônio Vieira Cunha Castro tem 53 anos e uma deficiência mental leve. Desde os 7 anos, ele frequenta a Apae. A partir de 1969, o motorista da entidade, conhecido como seu Gil, ia buscá-lo de Kombi na porta de casa todos os dias. Ele, portanto, é um dos primeiros alunos da associação. “A Apae é minha segunda casa”, comenta. Foi lá que José Antônio aprendeu a fazer pulseiras, que são vendidas até hoje nas feiras da entidade. Por ele mesmo, inclusive. “Ele era muito rebelde. No início, ia forçado para a Apae. Depois, nunca mais quis sair. Hoje, a qualidade de vida que ele tem é por conta da Apae”, finaliza a mãe dele, Osmarina Vieira da Cunha Castro.

 

Olga: amor ao próximo

 

Olga Bicudo Tognozzi é uma senhora que tem 86 anos e muita história para contar. Com brilho nos olhos, essa jovem de espírito está há 33 anos no cargo de presidente da Apae e há 39 anos na instituição. “O amor ao próximo me fez começar e me faz continuar. Enquanto eu estiver com saúde, não sairei da entidade”, declara.

 

Na época, dona Olga, como é chamada com carinho por todos aqueles que têm algum envolvimento com a Apae, foi convidada por Fernando Penna de Carvalho e Alberto Segalla para fazer parte da entidade. Prestes a se aposentar, ela pensou em aproveitar o tempo livre para si. Contudo, o desejo de ajudar o próximo falou mais alto.

 

Em 1976, a aposentada assumiu o cargo de vice-presidente da entidade. Na ocasião, ela disse que ficaria por apenas dois anos. Mas dona Olga foi se envolvendo mais a cada dia que passava. Em 1982, quando o então presidente, Alberto Segalla, morreu, a aposentada foi escolhida para ocupar o cargo. “Só tenho a dizer que é gratificante”, conclui.

 

Evolução

 

Hoje, a Apae possui 262 colaboradores que prestam serviço nas áreas de saúde, assistência social e educação. Em 2013, foram 234.362 atendimentos em todas as vertentes e 4.907 pessoas atendidas. Só na escola de educação especial foram 502 assistidos. O relatório mais recente, de 2014, ainda não foi divulgado pela entidade.

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