O título não está errado. Apesar de as moedas terem duas faces, a política econômica brasileira passou a ter três faces, no mínimo. A primeira face foi o discurso durante a campanha eleitoral. O governo reeleito praticamente desmoralizou a possível política econômica de seus opositores, notadamente, em segundo turno, do candidato Aécio Neves, colocando em rede nacional, por sinal de forma distorcida, o que seria o pensamento econômico do anunciado membro da equipe econômica (se Aécio fosse eleito) Armínio Fraga. Durante a campanha e nos debates a então candidata Dilma Rousseff disse que não faria política econômica a custa de recessão, com redução dos ganhos sociais e que os trabalhadores não teriam perdas. Passou a ideia de que a política econômica até então implementada tinha problemas muito mais por questões alheias ao governo, externas, do que sua própria condução. O que, todos sabemos, não é verdade.
A segunda face veio do fato (mesmo com o discurso acima descrito, ainda durante a campanha, nos bastidores) de a equipe de apoio da candidata Dilma estar preparando o que de denominou de pacote de maldades. Enquanto os debates corriam e a propaganda eleitoral indicava um caminho, os técnicos já tinham convicções que este discurso não se sustentaria. A terceira face veio, após ser eleita, da escolha da equipe econômica. Joaquim Levy é discípulo de Armínio Fraga, aquele execrado em rede nacional. Segue sua linha de pensamento e anunciou medidas que confirmam as duas faces anteriores. É evidente que quem analisa a economia nacional sabe que algo estruturante teria que ser feito. Por isso tantos questionamentos durante a campanha em relação à eventual continuidade da prática econômica até então. Eram esperadas mudanças.
Posto que as medidas estão em curso, indaga-se: e os agentes econômicos, como ficam? E os trabalhadores e grosso da população que acreditaram que as mudanças não afetariam direitos sociais e que os empregos estariam garantidos? Com tudo que já foi anunciado e até confirmado pelo próprio ministro da Fazenda, o país poderá sim entrar em recessão técnica. Isso em última instância afetará o emprego e as coisas ficarão difíceis para todos. O resgate da credibilidade do governo passa também pela coerência entre o discurso e a prática. Se a constatação é de que o atual governo pratica no mínimo três faces de uma moeda que somente possui duas, é muito difícil esperar, ao menos no curto prazo, que a confiança de quem gera riqueza neste país seja a tônica. Vivemos um momento de muita reflexão.
O autor é economista e articulista do JC