A manifestação do senhor Tião Camargo (Tribuna do Leitor - 18/1) relata sua insatisfação em relação à Polícia Militar de São Paulo, insatisfação que é também minha e, certamente, de grande parte da população. Infelizmente, parece que, aos poucos, vem se consolidando o estigma de pouca eficácia em relação às demandas da comunidade, em que pese meu profundo respeito aos policiais militares que diariamente colocam a própria vida em risco, diante da crescente violência que nos assola.
No final da rua Rio Branco, já há alguns anos, foi construída uma praça que deveria destinar-se ao lazer e bem-estar da comunidade. Mas o abandono, a negligência e o descaso a transformaram em palco dos mais absurdos espetáculos de desrespeito às leis. Há anos, em todos os dias, começando ao final da tarde/início da noite, prolongando-se até o clarear do dia seguinte, principalmente nos finais de semana, com shows de "pancadão" por vários veículos ao mesmo tempo, estacionados em local proibido, carros e motos disputando rachas ou em exibicionismo de manobras perigosas, grande parte dos motoristas, possivelmente embriagados, a julgar pela quantidade de garrafas vazias de bebidas alcoólicas espalhadas pelas calçadas - além da praga de pichadores emporcalhando tudo em volta, principalmente os muros e portões das residências.
Não foi diferente nesta madrugada. Às 2h30, todas as famílias próximas - e famílias têm idosos, crianças, bebês, acamados e gente que, simplesmente, têm direito ao descanso em sua própria casa - acordaram com o som em volume absurdo propagado por um delinquente em seu veículo, acompanhado por motos nas ruas da vizinhança acelerando com escapamento aberto; carros disputando rachas e em manobras perigosas, arrancando e cantando pneus em alta velocidade.
Por descrédito, a maioria sequer telefona para o 190, até porque, quem reclama, se identificado, acaba sofrendo retaliações dessa cambada. Mas ontem alguém acionou a PM, que mandou uma viatura, o "espantalho", como o senhor Tião bem definiu, previamente visível ao longe, com as luzes vermelhas piscando, fazendo repetir o deboche. O som foi desligado e todo mundo se mandou da cena do crime. Muitos, é claro, voltaram minutos depois que a viatura foi embora. Isso se repete há anos, desde a inauguração dessa maldita praça, e sempre com os mesmos delinquentes que seguem impunes e rolando de rir. Talvez falte efetivo maior na PM, talvez faltem equipamentos, viaturas, bafômetros, decibelímetros.
Talvez faltem gestão, inteligência, estratégia e vontade de resolver. Fica em nossa comunidade o sentimento de que nossas autoridades sofrem de letargia generalizada. Desde o Executivo que engaveta proposta de lei aprovada na Câmara e que poderia impor maior rigor à essa delinquência, passando pela corresponsável na fiscalização de trânsito na cidade, a capenga Emdurb e seu convênio fajuto com a PM, pelo Ministério Público, até a própria PM, com suas atividades delegadas e seus espantalhos de luzes vermelhas piscando. Novo presidente da Câmara, novo secretariado municipal, novo Copom, novo comandante, números e dados estatísticos que tentam demonstrar eficiência e queda nos índices de criminalidade, são apenas mais do mesmo para aquelas famílias que, há anos, sofrem na pele a ausência do Estado nessa questão.
Rubens Araújo