Um pesquisador que morou boa parte da sua vida em Bauru integrou um estudo nos Estados Unidos que foi publicado neste mês na revista científica internacionalmente reconhecida PLOS (Public Library of Science, ou Biblioteca Pública de Ciência).
Doutor pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Botucatu, Pedro Paulo Diniz, 38 anos, é um dos dois únicos pesquisadores brasileiros que encabeçam o estudo, iniciado há cinco anos.
Elaborada com a participação de oito institutos no Brasil e nos Estados Unidos, a pesquisa descobriu que a bactéria Bartonella – que provoca, entre outras zoonoses, a chamada doença da arranhadura do gato – está mais presente na população brasileira do que se imaginava.
A partir de 500 amostras coletadas do hemocentro da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), ela foi detectada em um a cada 31 indivíduos, ou 3,2% da população analisada.
“É um número bastante significativo, visto que pode provocar doenças graves, que podem levar até à morte”, observa Diniz, que vive nos Estados Unidos há dez anos e é professor doutor da faculdade de medicina veterinária da Westnern University of Health Sciences, em Pomona, na Califórnia.
De acordo com ele, até então, os cientistas só haviam tido contato com pessoas contaminadas que já estavam em tratamento em hospitais, porque manifestavam sintomas da doença. Agora, sabem que seres humanos saudáveis podem portar a bactéria sem sequer desconfiar que tenham sido infectados.
“A nossa preocupação maior é que essas pessoas podem transmitir a bactéria a outras, inclusive por transfusões de sangue, já que nenhum banco de sangue no mundo, hoje, faz teste para este tipo de doença. E quem recebe este sangue contaminado é quem já está com a saúde fragilizada”, alerta.
Arranhadura do gato
A doença da arranhadura do gato, contudo, é apenas a forma mais comum de manifestação da bartonelose. Transmitida pelas unhas dos gatos contaminados ou mesmo pela picada de pulgas infectadas, ela causa, entre outros sintomas, febre, ínguas doloridas no pescoço, axilas e outras regiões do corpo.
“Geralmente, a doença se resolve sozinha, não é letal”, acrescenta Diniz, destacando que esta enfermidade é conhecida desde a década de 1950. O que preocupa os cientistas é que, mais recentemente, novas doenças provocadas pela mesma bactéria, mas com sintomas muito mais graves, começaram a ser identificadas.
“Hoje, sabe-se que, embora de modo mais raro, a Bartonella pode provocar perda de visão, dor de cabeça crônica, depressão, problemas cognitivos, infecção nos ossos e em órgãos internos, como fígado e baço, podendo levar à morte se atingirem as válvulas do coração”, detalha.
Vida em Bauru
Pedro Paulo Diniz nasceu em São Paulo, mas viveu sua infância e parte da adolescência em Bauru, onde sua família ainda mora. “Por este motivo, pelo menos uma vez por ano volto à cidade. Aí, aproveito para realizar palestras em universidades, conferências e simpósios dentro da minha área, seja em São Paulo ou em outros estados”, comenta.
Formado em medicina veterinária pela Unesp de Jaboticabal, fez doutorado na Unesp de Botucatu e, desde 2005, vive nos Estados Unidos.
Transmissão da doença pode ocorrer em casa
A presença da Bartonella não foi detectada apenas em gatos, mas também cães, ratos, cavalos e até mamíferos marinhos. Acredita-se que 15 espécies deste tipo de bactéria possam ser transmitidas ao homem, seja por meio das unhas dos felinos e ainda pela picada de pulgas, carrapatos e até do mosquito palha (responsável por transmitir a leishmaniose).
“As fezes da pulga contaminada também têm uma concentração muito alta da bactéria. A pessoa corre risco de se infectar só de matar uma pulga com as mãos, sem proteção”, explica o pesquisador Pedro Paulo Diniz.
Ainda de acordo com ele, a lambida de animais domésticos sobre feridas de humanos também são um meio fácil de transmissão. “E a gente considera ferimento qualquer pequeno corte no canto da unha, que a pessoa pode nem mesmo perceber”, completa, salientando, mais uma vez, que a grande preocupação é que até mesmo nos bichos a Bartonella pode ser assintomática.
“E ela é capaz de permanecer viva no organismo por um longo período. Por isso, é fundamental o controle de parasitas, realizando o tratamento com os medicamentos adequados e evitando que os animais domésticos tenham acesso à rua”, cita.
Segundo Diniz, são mais vulneráveis à contaminação por Bartonella pessoas imunodeprimidas, como portadores de HIV, crianças e idosos. Veterinários e pessoas envolvidas com organizações de proteção animal, que mantêm contato direto com bichos diversos e de origem desconhecida, também são mais suscetíveis.
Para se ter uma ideia, pesquisas apontam, segundo ele, que 42% dos gatos de vida livre no Estado do Rio de Janeiro estejam contaminados pela bactéria.
Pouco pesquisada
Segundo Pedro Paulo Diniz, a Bartonella ainda é pouco estudada, embora já tenha sido identificada em todos os continentes do globo, com exceção da Antártida. Há cinco anos, por meio de uma parceria envolvendo cientistas da área médica e veterinária do Brasil e dos Estados Unidos, elaboraram o estudo concluído recentemente. O resultado foi publicado na PLOS Neglected Tropical Diseases (Doenças Tropicais Negligenciadas).
O trabalho envolveu 12 professores cientistas, além de alunos. No Brasil, os pesquisadores-chefes foram Diniz e o médico Paulo Eduardo Neves Ferreira Velho, professor da Unicamp.
A universidade contribuiu por meio da faculdade de medicina, hemocentro e Centro Multidisciplinar para Investigação Biológica (Cemib). O Instituto Adolfo Lutz também integrou o grupo.
Nos Estados Unidos, participaram a faculdade de medicina da Johns Hopkins University, faculdade de medicina veterinária da Carolina do Norte, faculdade de medicina veterinária da Westnern University e Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), vinculado ao Ministério da Saúde.