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A lenda urbana e o boato

Aurélio Alonso
| Tempo de leitura: 2 min

Está no inconsciente coletivo da população o perigo do homem do saco e o medo de estranhos. Qualquer comunidade pequena já viveu isso ao confundir pessoas de fora com algo perigoso ou de ação de golpista. Há também o preconceito com religião, algo bem latente, seja com evangélico, cultos afros e outras minorias. Diria também uma versão distorcida de nossos vizinhos latino-americanos, como paraguaios, bolivianos e peruanos.

Ao juntar tudo isso às novas ferramentas de tecnologia da informação, surge o desafio cada vez mais difícil de se produzir e editar jornalismo de qualidade. As redes sociais repassam fatos numa velocidade rápida demais. Não se retém mais informação, não se reflete, age-se por estímulo a uma frase ou foto postada. A realidade está nas nossas mãos: basta clicar e digitar algumas breves palavras no celular para emitir informação. Sem filtragem.

É por isso que a produção de notícias ficou mais complicada. Bastou o alerta falso sair na rede social que em segundos a inverdade ganha repercussão.

Os fatos da internet se fundem com repasse de conversa atravessada, notícia em rádio e outros meios de comunicação.


Foi assim na favela Morrinhos, no Guarujá (litoral de São Paulo), quando a população matou a dona de casa Fabiane Maria de Jesus, de 33 anos, acusada de ser sequestradora de crianças após boatos difundidos em página na rede social. Tudo não passou de confusão. A turba, no entanto, já tinha sido alimentada pelo boato "legitimado" da verdade inconteste pela rede social.

No período eleitoral esse fenômeno da boataria cria falsas verdades, induz o voto e vende mentiras.

No caso de Bauru, bastou um grupo de "estranhos" visitar as casas para detonar o coquetel da discórdia. Pior ainda, chegou a alguns meios de comunicação que aumentaram a propagação sem a checagem, algo cada vez mais essencial. Sob o argumento da agilidade, já não se apura todos os lados da notícia. A internet encurralou o jornalismo.

Está na hora de tirar do incidente a lição de que comunicação é coisa séria. A velha checagem tem que ocorrer com mais rigor. Rede social não é só mero entretenimento. Prova disso é que, além dos boatos, a internet tem revelado condutas das piores das pessoas que abusam de crimes de difamação, injúria e calúnia. O outro lado perverso dessa falta de reflexão como cidadão. Ainda somos primitivos para expressarmos opiniões e discordarmos, mas gostamos das falsas verdades e desse império apartidário neutro, mentiroso. Se não fosse assim, não estavam reeleitos tantos políticos malversadores e especializados nessa indústria da mentira.

O autor é editor regional do JC

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