João Rosan |
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Tenente-coronel Flávio Kitazume avalia a ação que ocorreu no último domingo |
Tudo será devidamente apurado, mas não dá para dizer que houve excesso. Havia uma situação de perigo não só para os policiais, mas para todos os presentes, os tiros foram necessários para que o suspeito abaixasse a arma e se rendesse. A afirmação é do comandante do 4º Batalhão de Polícia Militar do Interior (4º BPM-I), tenente-coronel Flávio Jun Kitazume, após o episódio envolvendo policiais militares que terminou com um suspeito de roubo baleado.
Vale lembrar que, em 18 dias, esta é a 3.ª pessoa baleada em Bauru em confronto com a Polícia Militar (PM) – no último caso, pai e filho morreram após resistirem a uma abordagem e entrarem em confronto com a Polícia Militar, na Vila Santista.
Conforme o JC antecipou na edição desta segunda-feira (10), o fato mais recente ocorreu ao final da noite de domingo (8), durante o ensaio realizado pelo bloco Império da Lagoa do Sapo – da comunidade da Vila Falcão, em um galpão na região do Jardim Marise.
O suspeito, Edson Jackson de Almeida Junior, de 18 anos, foi atingido por quatro disparos, que acertaram seu abdome, bacia, tórax e axila. Até o final da tarde de ontem ele havia passado por duas cirurgias e permanecia internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital de Base, sob escolta da PM, já que ele foi preso em flagrante por porte ilegal de arma de fogo.
O caso será investigado pela Polícia Civil. A Polícia Militar também abrirá inquérito para apurar a atitude dos PMs, que também serão submetidos à avaliação psicológica.
Versões
Em conversa com a reportagem, duas testemunhas que estavam no local na hora dos fatos, por volta das 23h15, contaram que cerca de 300 pessoas frequentavam o estabelecimento, que fica na quadra um da avenida Daniel Pacífico, quando policiais militares entraram no local.
“Eu estava de camiseta vermelha. Eles me chamaram e disseram que procuravam por um rapaz que vestia algo parecido, mas nem chegaram a abordar e não foram agressivos. Só olharam e me disseram pra ficar tranquilo e que não era nada comigo”, afirma um jovem de 19 anos - pediu para não ser identificado-, que atua na bateria do bloco.
Ele conta ainda que, no mesmo momento, ao virar-se, observou um rapaz que parecia desesperado em cima da laje dos banheiros, no quintal do imóvel, tentando pular para um terreno baldio.
“Logo depois, a bateria parou, eu ouvi os tiros e uma multidão correndo pra fora”, completa.
Outra integrante do bloco, uma mulher de 35 anos, narrou ter visto o rapaz que perambulava pela laje sacar um revolver da cintura.
“O revólver era prateado. O pessoal estava afinando os instrumentos quando isso aconteceu. Depois dos tiros houve tumulto, todos correram, crianças caíram e se machucaram, uma confusão”, comenta a mulher.
Foi quando um grupo teria começado a hostilizar os policiais por conta dos tiros deflagrados.
”Para dispersar e para que ninguém mais entrasse na quadra, eles jogaram spray de pimenta no povo. Até eu fui atingida e fiquei com os olhos ardendo”, diz a mulher.
“Mas entendi que foi tudo por causa da situação, não acho que os PMs agiram em excesso”, ameniza.
Por meio de uma rede social, pessoas que disseram estar no local reclamavam ao JC da atitude da polícia, de ter reagido mesmo com o público no local.
Reação
Kitazume pontua que ao reagirem os policiais agiram na intenção de preservar também a integridade das pessoas que estavam no local, já que os dois PMs que atiraram no suspeito estavam do lado em que havia o público na quadra.
“O fato de apontar uma arma ou mencionar que vai atirar são situações que geram perigo e consequentemente a reação dos policiais. O policial não tem que esperar o bandido atirar para reagir. Treinamos para evitar que esse tipo de coisa aconteça, mas não dá para garantir”, enfatiza o comandante.
“Ninguém chegou atirando, eles tiveram toda cautela e cercaram o suspeito. Se ele tivesse se entregue ou se desfeito da arma isso não teria acontecido”, pontua o tenente-coronel.
Kitazume também avalia que a contenção da população com spray de pimenta também se fez necessária.
“Houve necessidade para que os ânimos fossem acalmados. A intervenção da população nessas horas coloca em risco todo o trabalho de apuração da PM”, fecha questão.
Ambos os policiais que atiraram no suspeito, um cabo de 35 anos e um soldado de 33, possuem mais de dez anos de experiência na corporação.
Professor: ‘Vivemos na cultura da violência’
Arquivo JC |
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O professor Clodoaldo Meneguello Cardoso: ‘desigualdades’ |
Os casos registrados pela polícia entre segunda (9) e domingo (8) fizeram o coordenador do Observatório de Direitos Humanos da Unesp de Bauru, Clodoaldo Meneguello Cardoso, chegar à conclusão de existe um cultivo da violência, principalmente em países em que a desigualdade social é mais evidente.
“Estamos legalmente em um regime democrático, mas as leis não são efetivadas, porque a sociedade não tem acesso a algumas condições básicas, como a distribuição de renda e um processo de educação que trabalhe efetivamente na formação ética e política dos cidadãos”, pontua Cardoso.
Diante disso, aqueles que vivem em situações extremas, ou seja, privados do básico, já são alvo de violência. “A miséria, associada à cultura da violência por parte dos meios de comunicação, que dão preferência às notícias ruins em detrimento das boas, perpetua o problema”, acrescenta.
Outros fatores, apontados pelo coordenador do Observatório de Direitos Humanos, que contribuem para a disseminação da cultura da violência são a ausência de uma Justiça mais ágil e a comunicação global. Com a Internet, uma pessoa que passe a mensagem de solução pela violência consegue atingir e influenciar muitas outras.

