Articulistas

Taxa de desemprego: é preciso ir além dos números

Reinaldo Cafeo
| Tempo de leitura: 3 min

Em um cenário de alta inflação e baixo crescimento econômico, o mais plausível é que o desemprego se acentue. Os índices divulgados nem sempre retratam esta realidade. Afinal, o que pode explicar esta, diríamos, "contradição"? Vale esclarecer inicialmente que o IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, trabalha atualmente com dois indicadores para apontar o nível de desemprego no Brasil. Um deles, que tem dias contados, é a Pesquisa Mensal de Emprego - PME. Esta pesquisa é mais limitada, com abrangência somente nas regiões metropolitanas de Recife, Salvador, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre. Atinge 44 mil domicílios.

O outro indicador, trimestral, é denominado de Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua ou simplesmente Pnad Contínua. Uma primeira mudança é que a pesquisa salta de 44 mil domicílios e 7 regiões metropolitanas (PME) para 211 mil domicílios em 3.500 municípios. Vejam a abrangência. Evidentemente que somente por isso o retrato do Pnad Contínua é mais real. O índice de desemprego apurado pela Pesquisa Mensal de Emprego (PME) apontou em dezembro do ano passado taxa de 4,3% da população economicamente ativa (PEA). Já a Pnad Contínua fechou o ano com uma taxa de desocupação de 6,8%. Ambos os índices apresentaram queda, mas observem a diferença nos resultados: 4,3% x 6,8%.

A Pnad Contínua tem maior precisão em seus resultados. Mesmo assim os índices continuam baixos considerando o atual estágio da economia brasileira, isto é, como colocado acima, deveriam ser mais elevados em ambiente de inflação elevada e baixo crescimento econômico. O que mais explica estes resultados? Uma explicação vem do ritmo do crescimento populacional. Na década de 1980 o crescimento anual no Brasil era de 3%, atingindo agora menos de 2%. A tendência é de queda ainda maior. Menos gente, menor pressão no mercado de trabalho. Convivemos atualmente com queda no número absoluto de jovens, indicando o que podemos chamar de taxa negativa de crescimento nesta segmentação da população. A explicação vem da queda da taxa de fecundação: na década de 1960 eram 6 filhos por mulher, atualmente, 3 filhos.

Os jovens impactam de maneira expressiva o mercado de trabalho. O desemprego é sempre mais elevado para aqueles que têm até 25 anos de idade. Por estarem testando os empregos e suas habilidades, portanto, a maior parte não sabe ainda o que quer profissionalmente, é nesta faixa etária que há maior mudança de emprego. Com menor número de jovens, cai proporcionalmente o número de pessoas que procura emprego. Temos ainda que considerar que a força de trabalho no país diminuiu nos últimos anos. De um lado menos fecundação de outro lado as pessoas menos escolarizadas. Os menos escolarizados ingressaram nos programas de transferência de renda, como Bolsa Família e de Erradicação do Trabalho Infantil. Também os programas de incentivo ao estudo e sua universalização, retiram jovens com menos idade do mercado de trabalho.

Recentemente, outros fatores justificam o retardamento no ingresso no mercado de trabalho por parte dos jovens. O FIES - Financiamento Estudantil - tem permitido cursar universidades adiando o pagamento da mensalidade escolar, e a expansão do ProUni oferecendo bolsas de estudos ao menos favorecidos.

De um lado temos este comportamento, que no longo prazo poderá ajudar muito o país a elevar a produtividade, por outro lado tem os "nem, nem" - nem estudam, nem trabalham. O ócio não permitirá avanços ao país. Mas seguram os índices de desemprego por falta de disposição em trabalhar. Agregaria à análise a "indústria" do seguro-desemprego. Alguém dispensado permanece "na geladeira" ou na "informalidade" ou fraudam o sistema, garantindo vários meses de bancagem do salário pelo governo. Simplesmente saem das pesquisas, distorcendo os resultados.

O futuro não é nada animador. Distorções estatísticas não se sustentam, o próprio governo está revendo procedimentos nos projetos sociais. Há uma desindustrialização em curso e pífio crescimento da economia se encarregará de mudar as estatísticas. É preciso um olhar mais aprofundado na questão do emprego e desemprego. Por enquanto, "engana" quem analisa somente os números, mas é alarmante quando o olhar é mais técnico e não superficial. Fica o alerta.

O autor é economista e articulista do JC

Comentários

Comentários