Li um dos volumes da trilogia Cinquenta Tons de Cinza, da escritora inglesa E.L. James, atraído pelo seu megassucesso: mais de cem milhões de exemplares vendidos. O filme, lançado mundialmente no Dia dos Namorados (Valentine´s Day, 14 de fevereiro), rendeu 4,5 milhões de ingressos antecipados. Pensei em ir ao cinema disfarçado de bigode e barba postiços para não ser reconhecido. Minhas apreensões se revelaram desnecessárias. A sala estava quase vazia na sessão da tarde, como a confirmar o que diziam os antigos: "Muita expectativa é a antessala da decepção".
Alertavam os filósofos de Frankfurt que a cultura do erotismo, produzida industrialmente, já nos anos 1930 tinha essa dimensão opressiva de sadismo e masoquismo. A indústria da erotização feminina, segundo aqueles sábios, procura exaurir da mulher a feminilidade e a capacidade de troca, seu caráter humano, deixando-lhe apenas o signo de objeto. Naquela época as mulheres mostravam apenas o calcanhar. O erotismo era a arte de mostrar alguma coisa e deixar o resto para a imaginação. Hoje, a mulher esconde apenas um pequeno território institucionalizado como "de prazer". Diziam os críticos da indústria cultural que, se a mulher aparecesse totalmente nua, a mística cairia, pois o plano da imaginação (que é povoado de desejos mistificados) desapareceria e ter-se-ia de volta a mulher inteira. Nessa linha, digo que Cinquenta Tons... não é um filme erótico, mas de prática da sexualidade. O que não lhe tira certos méritos.
Há certos momentos notáveis na adaptação do livro, conseguidos pela diretora Sam Taylor-Johnson. O melhor deles é a interpretação de Dakota Johnson, filha (Melanie Griffith) e neta de atores. Está magnífica, tensa e intensa. Sem precisar fazer ares de donzela estuprada. Ela interpreta Anastasia Steele, a jovem ingênua e submissa, virgem, que se entusiasma como é natural, com as qualidades masculinas de Christian Grey e suas sombras cinzentas. O "mocinho" da tela deixa claro que não curte romance, não faz amor e tem gostos muito singulares. Um deles é levar as suas conquistas para o "quarto vermelho da dor". Lembra um pouco Woody Allen, que se perguntava: "O sexo tem que ser sujo?" E ele mesmo respondia: "Só quando se quer fazer bem feito". Completa o raciocínio o conhecido aforismo de Nelson Rodrigues: "Se todos soubessem o que cada um faz entre quatro paredes, ninguém olhava mais na cara do outro". No filme em cartaz, nada de sexo explícito. Seu sadomasoquismo resume-se a umas palmadas no bumbum da Cinderela (ou seria a Gata Borralheira?). Notável no garanhão, a habilidade em abrir o invólucro da camisinha só com dois dedos da mão esquerda, no momento exato da penetração. No Brasil, só se consegue com as duas mãos e ainda a ajuda do dente incisivo. Em Último Tango em Paris, Marlon Brando precisa até a ajuda dos dedos do pé para alcançar o pote de manteiga. Mais recentemente, vimos o filme francês O Azul é a Cor Mais Quente dar uma magnífica lição de inteligência semiológica, com sete minutos de amor ardente entre duas mulheres. O erotismo não morreu desde Nove e Meia Semanas de Amor. A indústria cultural é que perdeu seus parâmetros, engolfada pelo pornô fácil da internet.
Tudo isso é importante para entender que Cinquenta Tons de Cinza é um negócio que jamais quis ser arte. O livro apresentou a primeira experiência do que na língua inglesa chamam de "bondage", ou amarras, disciplina, dominação, submissão, sadismo e masoquismo. A trilogia foi chamada de "pornografia para mamães", pelo seu caráter light, se comparada com os precursores literários, como a obra do Marquês de Sade. A própria diretora confessa que não viu muito sentido em fazer as coisas muito explícitas. "Quando assisto a filmes, o erotismo acaba com a penetração". Não há genitália masculina à vista. Da vertente feminina, apenas os pelos pubianos. E para quê mais? Desaparece do filme a cena mais ousada do livro, quando Grey e Anastasia, com o desejo a flor da pele durante um jantar, vão para o banheiro, ele puxa o absorvente interno da amada, atira-o no cesto de lixo.
O filme termina inconcluso, com o casal meio brigado, para que se reconcilie no próximo filme e tudo continue faturando alto. A partir de julho começam as filmagens do segundo livro. Depois virá o terceiro. A diretora Taylor-Johnson terá que se esforçar muito para não cair no mecanicismo da trilogia. Escrita por uma senhora britânica de 60 anos, mãe de dois filhos, ela se divertia na rede social inventando essas histórias. Sexo é ainda a grande desculpa para a falta de ideias.
O autor é jornalista e articulista do JC