Os últimos 15 anos foram palco de inúmeras ações populistas de combate à pobreza, visando conquistar votos oriundos das populações de baixa renda. Quase todas redundaram em fracassos retumbantes, esmagando o empresariado e as classes média e alta, com um grau de intervencionismo estatal estonteante. A "mão desastrada" dos Estados deixou poucos segmentos da sociedade incólumes. A diplomacia brasileira esmerou-se em fomentar relações comerciais com países que só ajudaram a enfraquecer ainda mais a nossa economia. E o aparato de marketing político dos governos tem pregado, à exaustão, algumas informações relativas à melhora do bem-estar das populações carentes que não correspondem à realidade.
O recém-publicado (26/1/15) relatório da CEPAL "Panorama Social da América Latina" elucida melhor a questão: "A leve recuperação econômica no mundo não foi suficiente para a América Latina e Caribe reduzirem a pobreza na região. (...) O número de pobres estancou, sendo de 28,1% da população em 2012/13 e 28% na projeção para 2014. Esse número era de 43,9% em 2002 e caiu paulatinamente até 2012. (...) Não aproveitou-se o boom de preços nem as medidas para conter a crise financeira. (...) O número dos extremamente pobres cresceu desde 2012. O percentual da população em situação de indigência subiu para 11,7% em 2013 e chegou a 12% em 2014. Em números absolutos, isso significa que em 2014 167 milhões de pessoas viviam em situação de pobreza na A. Latina e Caribe, sendo 71 milhões em extrema pobreza ou indigência. (...) Na separação por país, há 3 grupos distintos em relação à dinâmica da pobreza. O primeiro grupo engloba Paraguai, Colômbia, Perú e Chile, entre outros, e reduziu a pobreza e a indigência entre 2012/13. Em grupo intermediário estão o Brasil e o Panamá, entre outros, com queda na pobreza, mas com um aumento na extrema pobreza, no mesmo período. Já no último conjunto de países houve aumento tanto entre os pobres quanto entre os extremamente pobres, e é composto somente pela Venezuela".
São indicadores decepcionantes que levam a algumas questões: será que a balbúrdia macroeconômica provocada na A. Latina (principalmente no Brasil, Argentina, Venezuela e Equador) justifica-se sob algum critério de análise? Será que aumentou ou diminuiu o grau de dependência das populações carentes em relação às "benesses governamentais"? Milton Friedman, economista, ganhador do Prêmio Nobel de Economia (1976) e professor emérito da Universidade de Chicago, notória pelo combate ao intervencionismo estatal, traz uma importante contribuição à compreensão do assunto, no livro de sua autoria "Liberdade de Escolher", Ed. Record, 1979, pág. 125, que continua atualíssimo: "A maioria dos atuais programas de bem-estar jamais deveria ter sido lançada. Se não houvessem sido, numerosas pessoas hoje deles dependentes ter-se-iam transformado em indivíduos autoconfiantes, em vez de tutelados do Estado. A curto prazo, isso poderia ter parecido cruel para alguns deles, não lhes deixando outra opção senão o trabalho sem atrações, mal remunerado. A longo prazo, no entanto, teria sido muito mais humano. Contudo, uma vez que esses programas existem, não podem ser simplesmente abolidos na noite para o dia. Precisam de alguma maneira aliviar a transição, do lugar onde estamos para o lugar onde gostaríamos de estar, de propiciar assistência a pessoas hoje dependentes destes programas, mas, ao mesmo tempo, encorajar uma transferência ordenada de indivíduos, das listas dos assistidos para as folhas de pagamento".
O autor é economista e colaborador de Opinião