Tristeza profunda e falta de expectativas na mudança de uma vida que se apresenta de forma bastante dolorosa podem levar muitas pessoas a uma decisão extrema: o suicídio. Quase sempre associada a transtornos psiquiátricos, esta percepção de mundo levou cinco pessoas a tirarem a própria vida somente nos primeiros 24 dias de fevereiro, em Bauru.
No período, outros três moradores da cidade também tentaram se matar, mas sobreviveram, levando em conta apenas as ocorrências registradas na Central de Polícia Judiciária (CPJ). No ano passado, um suicídio e três tentativas chegaram ao conhecimento das autoridades no mesmo intervalo de tempo.
Costumeiramente, suicidas emitem sinais, que podem e devem ser percebidos para tentar evitar o fim trágico. E vale destacar: a crença de que “quem quer se matar não ameaça, simplesmente se mata” é completamente infundada.
“Na verdade, a pessoa que pensa em se matar tem sentimentos ambivalentes e pode, um dia, realmente concretizar. Não se deve subestimar o que a pessoa diz, porque o suicídio, geralmente, é cometido por impulso”, afirma o psicólogo Ulisses Herrera Chaves.
Segundo ele, dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) apontam para a alta incidência de suicídios entre jovens – principalmente do sexo masculino - de 15 a 35 anos, bem como pessoas com mais de 75 anos. “As que possuem algum tipo de transtorno mental, usuários de álcool ou drogas ou que possuem histórico de tentativas anteriores também são mais suscetíveis”.
Não há uma explicação precisa para o fato de uma série de suicídios ter sido registrada na cidade neste mês, mas as tragédias recentes deixaram o alerta sobre a importância de se desvincular do tabu que ainda cerca o tema e começar a lidar com ele abertamente. Esta mudança de atitude pode, segundo especialistas, contribuir para que os potenciais suicidas percam a culpa e a vergonha e, assim, falem sobre o assunto.
Observação
Chaves destaca que, dentro da área de saúde, há um entendimento consolidado sobre a eficácia que a prevenção pode ter para reduzir os índices. E as medidas devem começar a ser adotadas já dentro de casa, a partir da observação dos sinais de quem pode estar mentalmente adoecido.
“Merecem atenção mudanças bruscas de comportamento, como ficar retraído ou muito irritado, deprimido ou apático. Pessoas que passam a evitar o contato com família e amigos, têm picos de ansiedade, pânico ou impulsividade, ou apresentam alteração da rotina alimentar ou de sono também podem estar enfrentando problemas”, enumera.
Em um mundo extremamente virtual, o alerta também pode surgir das redes sociais, por meio de mensagens pessimistas ou melancólicas, que questionam a validade da vida e a dificuldade de se encaixar nela. “O tratamento, dependendo do grau de sofrimento, poderá ser feito até mesmo a partir do aconselhamento de pessoas próximas. Mas há casos que só serão solucionados com ajuda profissional e, muitas vezes, medicamentosa”.
Na rede pública, o socorro pode ser buscado na rede básica de saúde, que poderá encaminhar o caso, dependendo da necessidade, aos Centros de Atenção Psicossocial (Caps).
Inexplicável
O elevado número de suicídios registrado em fevereiro pode não configurar uma tendência, já que, em janeiro, os índices foram menores dos que os do primeiro mês de 2014. Não é possível associá-los, portanto, a qualquer mudança de cenário de um ano para outro, como, por exemplo, o momento ruim da conjuntura econômica.
“Pela experiência que temos, este tipo de ocorrência é mais comum em finais de ano, que pessoas tendem a ficar mais deprimidas. O que sabemos é que, quando um caso se torna público e ganha projeção, outras pessoas que já tem alguma pré-disposição podem se sentir encorajadas”, comenta o coordenador da Central de Polícia Judiciária, o delegado Luiz Roberto Saúd Bertozzo.
Assim como o psicólogo Ulisses Herrera Chaves, ele analisa que o estigma que ainda cerca o tema atrapalha a prevenção e que famílias e amigos precisam estar sempre atentos aos sinais. “Os meios de tratamento estão todos disponíveis. A pessoa só precisa receber apoio para conseguir reencontrar o equilíbrio”, frisa.
Vida interrompida
No domingo, mais um caso com desfecho trágico. Alexandre Furquim, 24 anos, foi encontrado caído embaixo do viaduto inacabado em Bauru, nas imediações da Vila Falcão. O caso foi registrado como suicídio consumado após a polícia ouvir a família da vítima e descobrir que o jovem sofria depressão e falava que iria se matar.
O perfil da vítima chamou atenção. Bastante conhecido na cidade, Alexandre trabalhava como modelo e barman. Além de ouvir os depoimentos da família, a polícia também apurou que o jovem enviou uma mensagem de texto ao irmão. O conteúdo apresentava fortes indícios de que ele cometeria suicídio.
A confirmação do registro foi dada após exames no IML, que apontaram lesões causadas por uma grande queda.
Além do suicídio consumado, ocorreram mais três tentativas durante o último fim de semana. De acordo com o delegado Luiz Cláudio Massa, na manhã de sábado, por volta das 9h30, uma mulher de 50 anos, que mora no Jardim Silvestre, tomou um coquetel de medicamentos, mas foi socorrida a tempo pelo Samu. Ela foi encaminhada ao Pronto-Socorro Central (PSC).
À tarde, foram registrados outros dois casos. No primeiro deles, um rapaz de 21 anos, que mora na mesma quadra que a mulher que tentou suicídio pela manhã, também tomou um coquetel de medicamentos. Na segunda ocorrência, um jovem de 19 anos, residente no Jardim Chapadão, fez o mesmo. Eles foram socorridos a tempo e encaminhados ao PSC por uma viatura do Samu. Segundo o delegado Luiz Cláudio Massa, nenhum deles se conhecia. (Cinthia Milanez)
CVV mudo
Entidade reconhecida pelo Ministério da Saúde e considerada o maior centro de prevenção de suicídio da América Latina, o Centro de Valorização da Vida (CVV) continua “mudo” em Bauru. Desde o início de janeiro, o telefone (14) 3222-4111, que ajuda a trazer conforto e aconselhamento, está desligado.
Segundo o coordenador de divulgação do CVV de Bauru, Antonio Alves da Silva, a operadora de telefonia responsável informou que não poderia mudar o endereço do número do bairro Higienópolis, onde a instituição atendia, para o Centro, onde está instalada atualmente. “Os atendentes informam que teríamos de mudar nosso número, mas ele já é muito conhecido. Teríamos de começar a divulgação do zero”, lamenta.
De acordo com Silva, mais de 20 protocolos de atendimento já foram registrados e as tentativas de negociação junto à operadora continuam. Ainda não há, contudo, prazo para a retomada das atividades do CVV na cidade.