O País vive uma ruína moral. Até do Judiciário, de onde deveria vir o bom exemplo, o noticiário das últimas semanas escancarou o caso do juiz da 3ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro Flávio Roberto de Souza por ter guardado no estacionamento do prédio da sua residência bens apreendidos do empresário Eike Batista. Em si só, é a desmoralização total da instituição. E, claro, a punição ao magistrado deve ser branda, ou talvez uma aposentadoria compulsória com salário integral. É um acinte à lisura de um processo penal.
O desmando é uma prática comum em todas as áreas. O que assusta é que o episódio não foi nos grotões, ocorreu à luz do dia na região mais desenvolvida do Brasil, especificamente no Rio de Janeiro. Há antecedentes por lá, o juiz da "carteirada" ganhou em duas instâncias a ação por danos morais movida contra a fiscal de trânsito ao se recusar de ser fiscalizado numa blitz da lei seca. A "insubordinada" servidora, ao notar a arrogância da autoridade, soltou a pérola: "O senhor não é Deus". Mas ele era, sim, conforme seus pares depois referendaram em duas sentenças. Espírito da classe é forte, às favas a credibilidade do sistema. O país é do faz-de-conta.
O uso de carro oficial em câmaras e prefeituras é uma prática institucionalizada. No caso do Legislativo Municipal, o parlamentar tem direito a subsídio, quantia essa justamente para cobrir gastos com combustível e outras despesas. No Brasil, virou salário e profissão. Os "amados" políticos compram reluzentes carros pretos para levá-los a compromisso nitidamente políticos, à visita de gabinete de apaniguados, na busca de verbas para o município (o que não é sua atribuição) em atividade que destoa como representante do Legislativo. A atividade parlamentar é uma derrama que atinge todas as cidades. Já parou para calcular o custo dessa "esbórnia", enquanto falta dinheiro em áreas essenciais? Porque na essência ele virou um despachante do Executivo por troca de cargos ou quando na oposição uma espécie de denuncista mor com intenção politiqueira longe do interesse do bem comum, até que seu grupo chegue ao poder e ele repita os mesmos erros que condenava. Há exceções, mas é bem isso na grande parte.
As prefeituras cedem ônibus escolares e até ambulância para transporte de caravanas para eventos religiosos e outros tipos de uso indevido do bem público. É feito descaradamente e com certa complacência. Nem falar do mau exemplo que vem de presidente, governadores e deputados (agora eles têm direito no Congresso até a verba para pagar viagens de cônjuges).
Na cultura nacional as ditas autoridades têm a "dádiva dos Deuses" para se locupletarem dos bens públicos. Até quando será assim?
O autor é editor regional do Jornal da Cidade