Articulistas

O fenômeno e o livrinho

João Pedro Feza
| Tempo de leitura: 2 min

Quando eu era pequeno lá em Barbacena (digo, Ourinhos), encomendava livros da Ediouro pelos Correios. Era um barato (digo, show) escolher publicações pelo catálogo colorido, escrever para a editora e esperar uma semana pela chegada das obras em caixas de papelão. Não lembro como era feito o pagamento, mas ocorria em dia.
Além de "O Segredo das Mágicas", "A Montanha Encantada" e "A Ilha Perdida", também recebi certa vez um livro sobre ilusões de ótica. Não sei mais o nome, mas era sen-sa-cio-nal. Isso lá por 1985, 86. As ilusões exibidas, novidades para a minha curiosa geração, já eram difundidas desde o século 18!
Durante a semana que acaba de terminar, em 24 horas, um vestido que "trocava" de cor intrigou internautas do mundo todo. É a Internet, assim como eu adolescente e meu livrinho da Ediouro, descobrindo efeitos já fenomenais há tempos.
Não deixa de ser curioso ver a Internet, toda esperta e ligeira, render-se a coisas antigas ? de roupagem nova. Adoro Internet e suas descobertas, mas, às vezes, dependendo do uso que fazemos dela, vira apenas um museu de grandes novidades, como cantaria (com ironia) Cazuza. O futuro a repetir o passado.
O que defendo é que, a partir de um fenômeno como o do vestido dourado/branco (digo, preto/azul), façamos uso de recursos que a própria Internet oferece para sair um pouco do raso e pesquisar a respeito. Isso vale para qualquer coisa. As redes sociais são a ponta do iceberg. A partir do que cai na rede devemos separar o que nos interessa e ir um pouco mais a fundo para ganhar algo belo: conhecimento.
O problema é que a gente quer ver tudo ao mesmo tempo agora, como na música dos Titãs, e acaba não aprofundando nada. É necessário, de vez em quando: parar, observar, pausar de novo, respirar, escolher, pesquisar, aprender, difundir. E, só então, repercutir.
Os jornais, sem querer puxar a sardinha para o nosso lado, buscam fazer isso para o leitor. Há método, técnica e empenho. Nas redes sociais, impera o impulso. Dá para aprender com elas. Mas cada um precisa completar a sua parte com uma pesquisa adicional diante de algo que gere interesse. Caso contrário, assim como na histeria sobre o vestido, todo o conhecimento não passará de ilusão.

O autor é editor executivo do JC

Comentários

Comentários