Tribuna do Leitor

Sobre projeto para tirar carroceiros da rua


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Caros leitores, confesso que pensei em não oferecer uma réplica às respostas recebidas em relação à minha carta sobre o projeto de lei que pretende extinguir a utilização das carroças na cidade de Bauru. Opiniões diferentes são válidas, e quando vêm acompanhadas da troca de ideias, melhor. No entanto, a carta publicada no dia 26/02 (Carroças e Animais) assinada pela ONG União Internacional Protetora dos Animais(UIPA) não só apresentou uma visão um tanto deturpada dos meus dizeres, quanto ironizou o quanto pôde a minha formação (cientista social). Ao mesmo tempo, enalteceu, de forma exagerada e estranha, o relator do projeto, o vereador Renato Purini.
Não desejo entrar em polêmicas, mas diante de tais palavras gostaria de deixar algumas ideias bastante claras. Primeiramente: sou contrário a qualquer forma de maus-tratos a animais. Obviamente, todo indivíduo que presenciar um animal sofrendo maus-tratos deve imediatamente denunciar quem está cometendo tal crime, inclusive abrindo boletim de ocorrência, se o caso. Tenho compaixão, sim, pelos animais. Mas tenho, na mesma medida, pelos carroceiros, que muitas das vezes não possuem outra opção a não ser utilizar os animais para o sustento de uma família inteira.

É genérico demais afirmar, como foi o caso, que alguns trafegam alcoolizados pelas vias urbanas, ocasionando acidentes. Em rápida pesquisa, observei que o último acidente ocasionado por uma carroça em Bauru data de 2012, quando o carroceiro acabou por perder o controle do cavalo, que (talvez assustado) colidiu com um veículo. Não houve feridos. O que contrasta com a realidade do trânsito de Bauru, onde dezenas de motoristas e pedestres perdem a vida, anualmente.
Preocupante são, também, os seguintes chavões utilizados pela ONG em sua resposta, como "é para frente que se anda", "o que há de mais evoluído no mundo". Tal perspectiva, utilizando a palavra "evolução", é um tanto complicada, utilizada (por exemplo) pelo partido Nacional-Socialista alemão na Segunda Grande Guerra como motivo para dizimar seis milhões de Judeus, sob o pretexto de que a raça ariana era a mais evoluída da humanidade. Quanto ao projeto em si, seria interessante que o relator do mesmo se pronunciasse a respeito, sobretudo explicando a questão da capacitação dos carroceiros. Como será realizada? As atividades a serem exercidas serão escolhidas pelos carroceiros? Algum carroceiro foi ouvido, na elaboração do projeto?
Até o momento, não estou convencido. Por enquanto, a alegação de extirpar as carroças da cidade parece mais uma atitude higienista e de gentrificação do espaço público, doa a quem doer ? e dando conta de que, acima da compaixão pelos cavalos, homens, ciclistas e carroceiros, está o interesse dos motoristas transitarem sem qualquer perturbação pelas vias públicas com seus possantes veículos automotores. Falha mais uma vez o Poder Público em fiscalizar, orientar e cadastrar, ou seja, cumprir minimamente o seu papel.

Bruno E. Sanches

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