Tribuna do Leitor

Carroças e o futuro da nação


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Certa vez, numa das ladeiras do Parque Vista Alegre, presenciei um carroceiro espancando um pobre burrinho, manquitola, cabeça baixa, esquálido, subnutrido, com seu couro recortado de hematomas, pedaços de borracha pregados em seu casco todo rachado, com pregos salientes e enferrujados e sendo forçado a puxar morro acima uma carroça carregada até as tampas de restos de concreto e entulho de construção.
O carroceiro vociferava, xingando o pobre animal de nomes os quais por respeito aos leitores me permito omiti-los, tudo isso regado a uma saraivada de chicotadas que doíam na alma. Não me contive, abordei o tal elemento (é esse termo que os policiais usam quando se referem a marginais, afinal maus tratos a animais é crime). Foi extremamente ríspido, e me disse que ele estava ganhando o pão de cada dia para sustento de sua família e que o burrinho era dele e ele fazia o que ele quisesse com o sofrido animal e que ninguém tinha nada com isso.
Ora, não é bem assim, o pão de cada dia deve ser ganho com hombridade, deve ser ganho de modo lícito, com nobreza de alma, sem causar dano a ninguém. Se essa justificativa do tal carroceiro fosse aceita, então teríamos que admitir o traficante de drogas que também trabalha, comercializando drogas: o traficante também tem sua família, também tem filhos, e por mais incrível que possa parecer também os ama, mas que em contra partida com esse tal "trabalho" acaba destruindo inúmeros outros lares.
Não é bem assim, afinal os animais são tutelados do Estado, ou seja o Estado é responsável por todos os animais e seu bem estar. Veio o "clic" e ligamos para o CCZ (Centro de Controle de Zoonoses). Disseram (na época do ocorrido) que só tinham um caminhão e o mesmo estava quebrado... que ligasse para a Polícia Ambiental. Liguei, fui bem atendida, mas nada resolvido: me disseram que não era atribuição deles. Liguei para a polícia, também fui bem atendida, mas nada resolvido... Nesse interim o burrinho, a carroça e o seu malévolo dono haviam sumido, me restava apenas reclamar ao bispo.
Alguns meses depois o burrinho foi encontrado doente, pele e osso agonizando sangrando pela boca em um monturo de lixo, num dos inúmeros terrenos abandonados daquela região, deixado como um traste velho, para morrer ao Deus dará.

Fátima Schroeder,

presidente da ONG Naturae Vitae

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