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Psiquiatra diz que Corpo metaboliza 1 dose por hora

Tisa Moraes Marcele Tonelli
| Tempo de leitura: 8 min

Divulgação

Florence Kerr-Corrêa explica os efeitos danosos do álcool

O estudante universitário Humberto Moura Fonseca, morto no último sábado (28), ingeriu um volume de álcool 50 vezes maior do que o organismo de um homem é capaz de suportar. Segundo uma das maiores especialistas em álcool e droga do País, o fígado humano possui capacidade para metabolizar somente uma dose de vodca a cada hora. Humberto consumiu cerca de 25 em apenas 30 minutos.

“Ele sofreu uma intoxicação aguda por álcool, ou envenenamento por álcool, como os teóricos de língua inglesa chamam”, aponta a especialista Florence Kerr-Corrêa, psiquiatra e professora da Faculdade de Medicina da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Botucatu.


Ela explica que o álcool age como um depressor do sistema nervoso central. Quando bebidas destiladas (que possuem maior graduação alcoólica) são tomadas em grande quantidade e em um curto espaço de tempo, as chances de levar o organismo ao colapso são grandes.


“O álcool é rapidamente absorvido pelo aparelho digestivo, chega ao intestino e segue para a corrente sanguínea. Como a concentração é muito alta, o fígado dá conta de metabolizá-lo (e expeli-lo pela transpiração, respiração ou urina) e o organismo fica intoxicado”, relata.


Nestas condições, o sistema nervoso central e afetado e pode ocorrer a interrupção do funcionamento de funções vitais, como a que controla a respiração e o coração. “O socorro tem de ser imediato. Se a pessoa conseguir superar as primeiras 24 horas, as chances de conseguir sobreviver sem sequelas são bastante altas”, frisa a psiquiatra.


Florence comenta que, embora não seja tão comum as pessoas morrerem intoxicadas por álcool, os óbitos pelo consumo pontual são mais comuns do que os provocados por doenças decorrentes do uso crônico da substância. “Estão incluídas nesta conta, por exemplo, as pessoas que se acidentam de carro, as que sofrem quedas e as que se envolvem em situações de violência”, enumera.


Ela diz, contudo, que mortes por aspiração de vômito por pessoas embriagadas são tão frequentes quando a de pessoas que bebem em excesso e, sonolentas, decidem dormir. “Intoxicadas, elas falecem durante a noite. Só que estes casos mais dificilmente chegam ao conhecimento da imprensa”, pondera.


Ainda de acordo com a especialista, o chá de boldo - servido durante a festa realizada no último sábado - não tem efeito medicamentoso e, no máximo, contribui para induzir os indivíduos ao vômito, que poderia ser aspirado, agravando ainda mais os riscos de morte. “O que ajuda a retardar os efeitos é estar previamente bem alimentado e ingerir líquido e alimentos gordurosos ao longo do processo. Mas a realização de competição de bebida alcoólica não é recomendada sob qualquer hipótese. É algo absurdo, que denota a completa ignorância sobre a potência da substância com a qual as pessoas estavam lidando”, completa.


Mulheres


Segundo Florence, mulheres possuem metade da tolerância que os homens têm em relação ao álcool por conterem mais gordura no corpo (que não absorvem a substância, ao contrário dos músculos). Outro motivo é o fato de o organismo feminino ter a enzima álcool desidrogenase,, responsável por metabolizar o álcool, em quantidade quatro vezes menor.


“Mas vemos que elas também abusam muito. Por conta da conquista histórica que tiveram de espaços antes ocupados somente por homens, elas passaram a querer fazer as mesmas coisas que os homens, inclusive ingerir álcool em excesso”, pontua.


10% dos universitários da Unesp de Bauru têm risco de alcoolismo

João Rosan

Clima na segunda-feira (2) na Unesp era de tristeza e reflexão sobre o fato

O ingresso na faculdade é apenas a primeira das comemorações regadas a álcool na vida dos universitários, que costumam estabelecer uma relação “íntima” com a bebida ao longo do curso. Segundo pesquisa realizada pela Unesp de Bauru, estudantes que não bebem são exceção à regra.


De maneira geral, a esmagadora maioria dos universitários consome álcool periodicamente, sendo que, em ao menos 10% deles, o risco de dependência já está presente. Os dados integram levantamento realizado entre 2008 e 2013 pelo Movimento Saúde, promovido pela Pró-reitoria de Extensão Universitária.


Uma vez ao ano, cerca de 350 a 500 pessoas, quase todas estudantes, foram submetidas ao Teste de Identificação de Desordem Devido ao Uso de Álcool (Audit), um questionário que buscava investigar o risco de dependência alcoólica dos estudantes. “O índice era alto, principalmente entre os alunos dos primeiros anos. Prestávamos orientação sobre os riscos, mas trata-se de uma questão cultural muito forte, difícil de combater”, aponta Sandra Leal Calais, doutora em psicologia e supervisora do Centro de Psicologia Aplicada (CPA) da Unesp de Bauru.


Segundo a psicóloga, relacionar o álcool a comemorações e à diversão é uma associação apreendida culturalmente. Ao sedimentar a ideia de que a bebida tem caráter benigno e faz parte do lazer da vida adulta, os jovens passam a abusar da substância quando conquistam relativa independência – o momento em que ingressam na faculdade.


“Muitos vêm de outras cidades e estão, pela primeira vez, longe da vigilância dos pais. Há uma euforia por experimentar esta nova liberdade e, ao mesmo tempo, a necessidade de se sentirem aceitos no novo grupo. Quem não bebe, inclusive, tende a se sentir excluído”, comenta.


Ainda de acordo com a supervisora do CPA, disputas como a realizada no último sábado servem, principalmente, para garantir não apenas diversão, mas também status. “Eles querem se autoafirmar, provar - e poder contar depois – o quão resistentes são ao álcool. Isso o torna populares, vitoriosos. Mas é evidente que todos que participaram da competição subdimensionaram os riscos”.


Sandra destaca que o Movimento Saúde foi substituído pela Rede Viva Melhor, que, atualmente, também promove iniciativas para orientar e oferecer atividades esportivas e de lazer aos alunos, como forma de afastá-los do consumo de álcool.


Preocupados, estudantes não creem em mudanças sobre abuso de álcool 


O clima no primeiro dia de aulas na Unesp após a morte do estudante era de preocupação e tristeza. Na tarde de ontem, alunos comentavam sobre os efeitos imediatos da ocorrência, mas foram unânimes em afirmar que, dificilmente, a conduta dos jovens nas festas irá sofrer mudança significativa no longo prazo.


“Há um clima meio tenso. Pode ser que um ou outro, principalmente os mais próximos dele (Humberto), decidam parar de beber ou beber menos. Mas, daqui um mês, acredito que tudo voltará ao normal, até porque as festas são muito frequentes”, afirma um aluno de engenharia mecânica de 21 anos, que preferiu não se identificar.


Estudante de arquitetura, Renata Carvalho, 22 anos, reconhece que o abuso de álcool é comum no meio universitário e que, por este motivo, diversos estudantes refletiram sobre a possibilidade de estarem no lugar de Humberto. “Muitas pessoas não conhecem os próprios limites e o que aconteceu poderia ter ocorrido em qualquer outra festa”, diz.


O estudante de ciências biológicas Raul Barrera, 21 anos, conta que não costuma frequentar festas em Bauru, mas sabe que existe pressão para que os estudantes consumam bebidas alcoólicas. “Na minha turma é até tranquilo, mas a gente vê isso, principalmente por parte dos veteranos em relação aos calouros”.


A estudante de engenharia civil Andréa de Souza Almeida, 22 anos, também afirma integrar uma turma mais “tranquila” e que esta diferença gera preconceito. “A gente se sente meio excluído. Parece que só presta quem bebe. O que aconteceu no fim de semana chocou muita gente, mas não sei se será suficiente para mudar esse tipo de pensamento”, analisa.


Após morte, 60 festas estudantis foram canceladas

Reprodução/Facebook

Humberto Moura Fonseca, 23 anos, morreu no sábado

Intitulada Inter Reps, a festa universitária “open bar”, que reuniu cerca de 2 mil pessoas, na tarde do último sábado, em uma chácara no Jardim Ouro Verde, resultou na morte do aluno do 4.º ano de engenharia elétrica da Unesp de Bauru Humberto Moura Fonseca, 23 anos. Após coma alcóolico, ele acabou morrendo em decorrência de um infarto, apontado como a causa preliminar da morte – os laudos dos exames toxicológicos devem ficar prontos em 30 dias. A festa não possuía nenhum tipo de alvará. Desde o caso, mais de 60 eventos estudantis na cidade foram cancelados nas redes sociais.


Outros três alunos foram socorridos em estado grave, provocados também por coma alcoólico, e ficaram na UTI. Na mesma ocasião, uma dezena de estudantes, que frequentava a mesma festa, chegou a ser atendida pela UPA do Ipiranga e pelo Pronto-Socorro Central (PSC).


A Polícia Civil acredita que Humberto tenha ingerido ao menos 25 copinhos de vodca (cerca de 1,2 litros), em 30 minutos, durante a competição nomeada como “Revezamento do Circuito Alcoólico”, conforme consta em um regulamento do projeto da festa, apresentado por testemunhas na delegacia, e que previa outras competições do tipo.


Investigações apontaram ainda como precária a estrutura do evento, que possuía apenas uma ambulância com uma maca, uma auxiliar de enfermagem e um motorista. Os embriagados recebiam chá de boldo e refrigerante.


Luís Henrique Scafi Mengatti, 22 anos, e Gabriel Juncal Prudente, 25 anos, apontados como responsáveis pelo evento, foram presos em flagrante, no domingo (1), por homicídio com dolo eventual. Logo na sequência, ambos foram liberados pela Justiça.


A defesa dos garotos alega que eles não foram os únicos a organizar o evento, que as competições com bebidas teriam sido realizadas por um grupo de frequentadores e tenta desqualificar a acusação.


Silêncio e tristeza


Abalados, amigos de Humberto e integrantes de uma república localizada na quadra 20 da rua Joaquim de Silva Martha, que era frequentada pela vítima - o jovem morava em um apartamento -, não quiseram conversar com a reportagem. Um dos universitários, de 23 anos, morador do local, apenas confirmou que foi ele quem acompanhou o amigo durante os últimos minutos de vida dentro da ambulância da festa. Cabisbaixo, ele e outros cinco estudantes decidiram não se pronunciar sobre nenhum detalhe, nem mesmo sobre a vida do amigo, em respeito à família de Humberto.


Nas imagens gravadas da competição, os estudantes aparecem com coletes da Skol, que patrocinou a Inter Reps. Em nota, a Ambev afirma “lamenta o ocorrido e reforça que o consumo responsável é um dos seus principais compromissos.”



 

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