Cultura

Brasil perde sua "garganta de ouro": morre o cantor sertanejo José Rico

Thiago Vendrami com João Pedro Feza
| Tempo de leitura: 4 min

Reprodução/Internet

José Rico tinha 68 anos e morreu em Americana

A "garganta de ouro" José Alves dos Santos, o José Rico, morreu na tarde de terça-feira (3), em um hospital particular na cidade de Americana (230 quilômetros de Bauru). Ele estava com problemas cardíacos e internado desde o início da manhã.

O cantor estava na estrada ao lado de Romeu Januário, o Milionário, levando a música sertaneja há 45 anos.

José Rico nasceu em São José do Belmonte, Pernambuco, e criado em Terra Rica, Paraná. Daí veio seu apelido, oficializado em cartório.

Ele tinha 68 anos e deixa esposa e dois filhos. Foi candidato a deputado federal pelo PMDB nas últimas eleições, obtendo cerca de 26 mil votos, que o deixaram fora da Câmara.

Morreu Zé Rico. Não morre a vida em suas músicas. Literalmente. “Vida”, a palavra, é título de várias canções que ele compôs e/ou interpretou com Milionário ao longo de 45 anos – de vida e de longa estrada.


É em “Viva a Vida” que Zé Rico solta o vozeirão no verso que se tornou título dessa matéria: “Gritei bem alto / Viva a Viiiii-daaaa!” – prolongando fonemas no gogó potente.

“Jornada da Vida”, “Levando a Vida”, “Eu levo a Vida Sonhando...” são outras com similar inspiração.  


José/Zé se eternizou Rico. Às 14h28 de terça-feira (3), o coração parou. Tinha passado mal entre um show e outro. Ele estava internado desde cedo em hospital de Americana. Velório ocorre na Câmara Municipal. Enterro será hoje  na cidade.


“Paixão da Minha Vida”, “Vida Cor de Rosa” e “Rotina da Vida” também integraram o amplo e popularíssimo repertório da dupla.


E assim a exaltação se repetiu e ecoou por décadas em outras gravações e muitas apresentações – foram dezenas delas em cidades da região de Bauru.


Em Marília, chegaram a gravar o primeiro DVD ao vivo, em 1999.


Como se sabe (excêntrico?), Zé Rico teve até casa no formato da Taça Jules Rimet (aquela entregue aos primeiros campeões de copas do mundo). Também construiu um castelo em Limeira, que nunca ficou pronto.


De fato, Zé Rico gostava de um certo exagero. Tranquilamente, exibia anéis imensos, cordões de ouro e unhas pintadas. Com cabeleira, costeletas, óculos escuros e mãos no ouvido ao cantar ao vivo, também virou sensação na China, em 1985, graças ao filme “Estrada da Vida” – lançado originalmente em 1980, vencedor de prêmios e distribuído a mais de 15 países.


De novo, vida. “Estrada da Vida”, a música de 1978, composta apenas por Zé Rico, é o maior sucesso da dupla e vendeu mais de dois milhões de cópias.


O final chegou. Mas, pensando bem, a estrada fica. E cheia de vida.

Repercute em Bauru

Quem é que nunca ouviu falar nele? O “garganta de ouro” da música sertaneja romântica: José Rico. Em Bauru, onde deixou colegas de profissão e amigos, a saudade também é grande, como em todo o País. Confira depoimentos à repórter do JC, Bruna Dias.

‘Estou sem palavras’

Divulgação e Arquivo JC

João Mulato

Respeitado nacionalmente, o violeiro e compositor João Mulato emocionou-se ao saber da notícia pela reportagem. “Estou sem palavras. A gente era muito amigo. Um para lá, outro para cá, sabe como é a correria da vida da gente... Mas sempre nos encontrávamos. José Rico era muito tranquilo, muito educado. Fui na casa dele uma vez que tinha em Nova Odessa. Estou chateadíssimo”.

 

‘Quebrou paradigmas’


O radialista e presidente do Clube da Viola em Bauru, Tião Camargo, chegou a encontrar com José Rico em restaurante há

Divulgação e Arquivo JC

Tião Camargo

três meses, próximo a Guaianás, distrito de Pederneiras. “Até almoçamos juntos. Senti que ele estava bem abatido, com dificuldades para andar, diferente do cara vigoroso que eu conhecia. Era um homem muito ético, que quebrou paradigmas na música sertaneja, trazendo todo o seu romantismo”.

 

 

‘Era conselheiro’

Divulgação e Arquivo JC

Jotha Luiz

O compositor Jotha Luiz rememorou ainda fases da década de 80, quando os “sertanejos” costumavam a se hospedar no Hotel Jandaia, em São Paulo. “Ficamos amigos. Ele costumava nos chamar de ‘Zum’ [sua frase de efeito]. Ele era um pouco produtor também, gostava de dar conselhos aos músicos. É referência da música sertaneja como o Roberto Carlos para a música popular brasileira”.

 

 

 

Repercute nacional

“Zé Rico era uma pessoa muito simples e tinha um dom que Deus lhe deu, aquela voz maravilhosa, que chegava aos agudos na nota certa, nunca errava”, diz o músico Sérgio Reis.


“Ele modificou os arranjos da música sertaneja, colocando os sons de metais.”


Para o crítico musical Zuza Homem de Mello,  Zé Rico fazia parte do grupo que ficou injustamente com a “fama”de música sem qualidade. “Sua obra é natural, é verdadeira. Ele não compunha para agradar o público, ele fazia o que lhe ia bem na alma”.


‘Cinco shows ano passado’


O empresário Emílio Brumati tinha contato próximo com a dupla. Ajudou a trazê-los a Bauru em maio do ano passado em casa de shows e recentemente contribuiu para a apresentação da dupla em Santa Cruz do Rio Pardo. “Estive em janeiro com eles. Fizemos cinco shows deles em 2014”.

Foto: movimentocountry.com

 

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