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Preso deve trabalhar?

Wellington Balbo
| Tempo de leitura: 2 min

No metrô de São Paulo, vejo um rapaz entrando e distribuindo balas aos ocupantes do vagão. Diz ele: ?Balas saborosas, sabores morango, framboesa e hortelã embaladas e vendidas por apenas R$ 1,00. Adoce seu dia e o meu também me dando uma chance para recomeçar...? Observo que apenas uma pessoa do vagão retira R$ 1,00 do bolso e adquire o produto do rapaz. Fiquei a pensar: o que o levou a ganhar a vida desta forma? Ele disse recomeçar, certo? Teria perdido o emprego e buscado nessa iniciativa uma forma de ganhar a vida? Ou seria ele um ex-detento lutando para não voltar à marginalidade?

Não sei, todavia meu raciocínio seguiu em torno de passagens do livro ?Carcereiros?, de Dráuzio Varella, em que o médico diz que a sociedade fecha as portas às pessoas. Concordo e, aliás, algumas pessoas soltam obviedades do tipo: ?Preso tem que trabalhar! Não podem ficar sendo sustentados por nós sem fazer nada!? Quem faz comentários deste nível nada fala além do óbvio. Nunca vi, em milhares de conversas, alguém ser contra preso trabalhar. Entretanto, poucos sabem que são raríssimas as empresas que disponibilizam vagas de trabalho para detentos, e quando o fazem são apenas tarefas manuais como costurar bolas ou grampear sacolas de doces, o que não os habilita a voltar ao competitivo mercado de trabalho.

Sem emprego na penitenciária, sem emprego fora da penitenciária, resta àqueles que querem deixar de delinquir buscar criatividade para livrar o "pão com mortadela diário", como pode ser o caso do jovem que vi no metrô paulistano. Infelizmente, ainda olhamos para o micro sem cogitar do macro. Pedimos punição, julgamos, damos sempre nossa sentença sem, contudo, refletirmos se podemos melhorar a vida de alguém abrindo-lhe as portas ou pequenas janelas para o recomeço. A realidade é que mesa escassa é porta aberta para a criminalidade. Portanto, caro leitor, reflitamos neste ponto, pois este problema é nosso, da sociedade, e enquanto vivermos imersos em nosso casulo, ou melhor dizendo, em nossa casa, sem nos atermos a questões importantes, teremos delinquentes pelas ruas, assaltos e tantos outros absurdos que queremos nos livrar. Porém, tenho dúvidas se fazemos força para isso.

O autor é colaborador de Opinião

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