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Valor do dólar reflete nervosismo do mercado

Reinaldo Cafeo
| Tempo de leitura: 3 min

A combinação de ingredientes econômicos com políticos tem gerado muita desconfiança no mercado. Os agentes econômicos ficam sem base para tomada de decisões e na dúvida fogem dos mercados de risco. Um termômetro deste comportamento é o mercado cambial. Em tese, o valor da moeda estrangeira, ou seja, a taxa de câmbio, deveria refletir o resultado da oferta e procura pelas moedas, mas nem sempre é isso que se observa (lembrando que o Brasil adota o regime de taxas flutuantes). Primeiramente porque o governo, através do Banco Central (Bacen), pode intervir a qualquer momento. É a chamada flutuação suja. Dólar subiu? O Bacen entra vendendo dólares ou aplica outro instrumento que contenha a alta. Dólar caiu? O Bacen pode entrar comprando dólares. Quando isso ocorre, as cotações não seguem a lógica natural da oferta e procura definida pelo mercado.

Além da intervenção do governo federal, a oferta e a procura nem sempre estão ligadas à necessidade de dólar para fazer face aos compromissos com o resto do mundo. Em ambiente de tranquilidade os exportadores e prestadores de serviços ao Exterior seriam vendedores de moeda estrangeira, enquanto os importadores e contratantes de serviços estrangeiros seriam demandantes de moeda estrangeira. Em ambiente de incertezas, este mercado é o abrigo de quem não quer correr riscos.

O comportamento atual, de nervosismo, tem justificativas plausíveis. Corrupção na Petrobras e lista de nomes ligados à Operação Lava Jato, descontrole nas contas públicas, braço de ferro entre governo e Congresso para aprovar as medidas de ajustes fiscais, inflação elevada, base aliada descontente, produto interno bruto baixo, queda dos preços das commodities metálicas em nível internacional, redução do nível de atividade econômica no Brasil e o comportamento econômico e político de inúmeros parceiros internacionais são permanentemente considerados, levando aqueles que operam no mercado a concluir: "Na dúvida, quero proteção" e a moeda estrangeira serve para este propósito.

Os leigos e parte da sociedade estão mesmo interessados se poderão comprar dólar a um preço que permita pequenos luxos, como viajar ao Exterior, ou seja, querem saber se a cotação cairá, subirá ou ficará neste patamar. Objetivamente não há por que imaginar uma cotação do dólar na casa dos R$ 3,00, contudo, considerando todo o ambiente acima descrito, é compreensível que o mercado jogue o preço para cima, mesmo porque o próprio governo diminuiu o nível de intervenção para conter a escalada do dólar. Isso implica em avaliar que enquanto o horizonte econômico e político não for mais claro, o mercado cambial refletirá o nervosismo diário, e o dólar ficará no patamar atual, com viés de alta.

Considerando que não há por que imaginar que este ambiente conturbado permanecerá por longo período, e que o jogo político é dinâmico (encontrarão caminhos para se acertarem), podemos esperar uma acomodação das coisas e o dólar voltar à casa dos R$ 2,75 e R$ 2,80, valores estimados como aceitáveis para a economia nacional. Evidentemente que são leituras considerando variáveis controláveis. Mas sabemos que em ambiente de incertezas o que menos se tem é controle destas variáveis, pelo menos fica o indicativo de como, dentro da normalidade, as coisas podem acontecer neste termômetro diário que é o mercado cambial.

O autor é economista e articulista do JC

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