O preço do dólar fechou R$ 3,057 ontem e atingiu o maior valor desde julho de 2004, segundo dados do Banco Central. Um dos setores que já começou a sentir o impacto dessa alta, em Bauru, foi o da indústria. Além dele, o comércio de produtos internacionais, agências de turismo, comércio de eletroeletrônicos, roupas e, principalmente, as padarias já estão cientes que também sofrerão impactos nos próximos dias.
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Arquivo/JC |
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Segundo o Ciesp, a grande maioria das indústrias de Bauru e região precisa de insumos importados |
Para o diretor regional do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) em Bauru, Domingos Malandrino, a alta do dólar pode até apresentar um lado positivo para indústrias que exportam, pois aumenta a defesa dos produtos nacionais frente aos importados.
Porém, há o lado negativo que, segundo ele, é o que mais atinge o setor em Bauru e região. A grande maioria das indústrias precisa de insumos ou parte dos seus componentes vindos de fora, além de possuírem equipamentos importados e financiados em dólar.
“Acredito que o dólar nesse preço não será bom para a região de Bauru. Por exemplo, a indústria de baterias precisa importar o chumbo em dólar. Indústria de farinha de trigo também. Apesar de termos indústrias que exportam, a grande maioria possui insumos e equipamentos importados para aumentar a produção. Não dá para apresentar dados concretos, mas a maioria já sente essa alta como maléfica”, disse.
Segundo Malandrino, o que prejudica é que há contratos que as indústrias têm de cumprir em 30, 60 ou 90 dias vigorando os produtos finais ainda com o preço do dólar antigo. De acordo com ele, elas não conseguem, em sua maioria, repassar de imediato no produto final o aumento da moeda nos valores dos insumos comprados agora.
“O mercado não permite que tenha esse ajuste do preço imediatamente e 90% não conseguem repassar o impacto que essa alteração no dólar causa no produto. Assim, a indústria vai ter que absorver mais esse custo por meses até que possa alterar os valores. É o golpe do dólar nas indústrias”, enfatizou.
Para ele, o preço ideal do dólar seria em torno de R$ 2,85. “Se o dólar ficar nessa faixa, não prejudicará as indústrias que exportam e as que têm insumos e componentes que dependem dele”, completou Domingos Malandrino.
Arquivo/JC |
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Como o Brasil ainda não é autossuficiente na produção de trigo, preço do pão deverá subir |
Pãozinho
O universo do mercado financeiro parece distante para a maioria dos brasileiros. Porém, tem ligação direta com o bolso da população mesmo para aqueles que não têm dinheiro investido. E um dos impactos que o consumidor irá sentir nos próximos dias em relação à alta do dólar será no preço do pão francês, um dos alimentos mais consumidos no País.
O Brasil ainda não é autossuficiente nessa matéria-prima e importa o trigo da Argentina e de outros países. Para o economista Reinaldo Cafeo, o aumento no preço do pão e de derivados do trigo pode chegar até 15% se o dólar continuar em alta.
“O trigo está chegando mais caro e há sintomas de aumentos de 10% a 15% no valor dos pães e nos derivados do trigo, como macarrão e a farinha. Eles terão o impacto negativo, certamente”, disse.
Para o proprietário de uma padaria de Bauru, o impacto já é sentido. Ele planeja aumentar o preço do pão para os próximos dias. “As vendas diminuíram um pouco e, por conta da alta do dólar, vamos ter que subir o preço 5%. O quilo agora será R$ 10,71. O impacto está sendo grande já. Sentimos um pouco nas vendas e sei que padarias de outras cidades já aumentaram os preços”, contou Antony Módulo.
Agências de turismo
O economista Reinaldo Cafeo também apontou que as agências de turismo terão impacto nas viagens internacionais com o dólar acima de R$ 3,00. “De um lado, esse valor favoreceu o turismo interno, mas o dólar alto é um fator inibidor e as viagens internacionais sofrerão também”, apontou.
Entretanto, Renan Tech, que é proprietário de uma agência de turismo de Bauru, aponta que as vendas diminuíram pouco. “O pessoal tem comprado ainda e não teve uma diminuição expressiva. Como sabemos dessa alta, vamos investir em viagens internacionais em grupos, pois o custo é menor e também poderemos evitar prejuízos. Por exemplo, com um grupo de 45 pessoas indo para Europa, conseguimos tarifas mais em conta”, disse Renan Tech.
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Comerciantes tentam se precaver
Para quem vende produtos importados, o impacto será mais forte no comércio. “Eles poderão se utilizar dos seus estoques para não se reajustar nessa magnitude. Mas, em um determinado momento, terá uma reposição e vão ter que ajustar os preços”, informou Reinaldo Cafeo.
O proprietário de um estabelecimento de importados Carlos Prando disse que se precaveu e o impacto não será sentido tão forte agora. “Meu estoque já está com produtos que comprei antes da alta e não terei que aumentar os preços agora. Depois, acredito que terei que modificar alguns preços se o dólar e o euro continuarem em alta. Por enquanto, não estamos sentindo muito o impacto”, contou.
A revenda de automóvel também terá dificuldades. “A indústria automotiva monta o carro no Brasil, mas está importando uma série de componentes. Certamente os custos ficarão mais altos. Não há venda de carro, mas há aumento no custo”, afirma Cafeo.
Momento delicado
O economista Reinaldo Cafeo ressalta que o consumidor brasileiro precisa ter consciência de que o preço alto do dólar terá reflexo no aumento geral dos produtos. “Vivemos em um mercado globalizado”, disse.
O momento, de acordo com o economista, é delicado. “Essa situação faz com se torne o que chamamos de economia de inflação importada pelos produtos. Com o aumento dos tributos, o controle da inflação fica mais difícil. É um momento muito delicado e esse fato câmbio é preocupante. O comércio já está com muita dificuldade em desovar os seus estoques. Com o aumento de custo, mais difícil ainda. Na minha opinião, o dólar em alta é mais maléfico para a economia em um todo do que benéfico para alguns exportadores”, concluiu.