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Dólar enfraquece a indústria de Bauru e encarece até o pão

Paola Patriarca
| Tempo de leitura: 5 min

O preço do dólar fechou R$ 3,057 ontem e atingiu o maior valor desde julho de 2004, segundo dados do Banco Central. Um dos setores que já começou a sentir o impacto dessa alta, em Bauru, foi o da indústria. Além dele, o comércio de produtos internacionais, agências de turismo, comércio de eletroeletrônicos, roupas e, principalmente, as padarias já estão cientes que também sofrerão impactos nos próximos dias.

Arquivo/JC

Segundo o Ciesp, a grande maioria das indústrias de Bauru e região precisa de insumos importados

Para o diretor regional do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) em Bauru, Domingos Malandrino, a alta do dólar pode até apresentar um lado positivo para indústrias que exportam, pois aumenta a defesa dos produtos nacionais frente aos importados.

Porém, há o lado negativo que, segundo ele, é o que mais atinge o setor em Bauru e região. A grande maioria das indústrias precisa de insumos ou parte dos seus componentes vindos de fora, além de possuírem equipamentos importados e financiados em dólar.

“Acredito que o dólar nesse preço não será bom para a região de Bauru. Por exemplo, a indústria de baterias precisa importar o chumbo em dólar. Indústria de farinha de trigo também. Apesar de termos indústrias que exportam, a grande maioria possui insumos e equipamentos importados para aumentar a produção. Não dá para apresentar dados concretos, mas a maioria já sente essa alta como maléfica”, disse.

Segundo Malandrino, o que prejudica é que há contratos que as indústrias têm de cumprir em 30, 60 ou 90 dias vigorando os produtos finais ainda com o preço do dólar antigo. De acordo com ele, elas não conseguem, em sua maioria, repassar de imediato no produto final o aumento da moeda nos valores dos insumos comprados agora.

“O mercado não permite que tenha esse ajuste do preço imediatamente e 90% não conseguem repassar o impacto que essa alteração no dólar causa no produto. Assim, a indústria vai ter que absorver mais esse custo por meses até que possa alterar os valores. É o golpe do dólar nas indústrias”, enfatizou.

Para ele, o preço ideal do dólar seria em torno de R$ 2,85. “Se o dólar ficar nessa faixa, não prejudicará as indústrias que exportam e as que têm insumos e componentes que dependem dele”, completou Domingos Malandrino.

Arquivo/JC

Como o Brasil ainda não é autossuficiente na produção de trigo, preço do pão deverá subir

Pãozinho

O universo do mercado financeiro parece distante para a maioria dos brasileiros. Porém, tem ligação direta com o bolso da população mesmo para aqueles que não têm dinheiro investido. E um dos impactos que o consumidor irá sentir nos próximos dias em relação à alta do dólar será no preço do pão francês, um dos alimentos mais consumidos no País.

O Brasil ainda não é autossuficiente nessa matéria-prima e importa o trigo da Argentina e de outros países. Para o economista Reinaldo Cafeo, o aumento no preço do pão e de derivados do trigo pode chegar até 15% se o dólar continuar em alta.

“O trigo está chegando mais caro e há sintomas de aumentos de 10% a 15% no valor dos pães e nos derivados do trigo, como macarrão e a farinha. Eles terão o impacto negativo, certamente”, disse.

Para o proprietário de uma padaria de Bauru, o impacto já é sentido. Ele planeja aumentar o preço do pão para os próximos dias. “As vendas diminuíram um pouco e, por conta da alta do dólar, vamos ter que subir o preço 5%. O quilo agora será R$ 10,71. O impacto está sendo grande já. Sentimos um pouco nas vendas e sei que padarias de outras cidades já aumentaram os preços”, contou Antony Módulo.

Agências de turismo

O economista Reinaldo Cafeo também apontou que as agências de turismo terão impacto nas viagens internacionais com o dólar acima de R$ 3,00. “De um lado, esse valor favoreceu o turismo interno, mas o dólar alto é um fator inibidor e as viagens internacionais sofrerão também”, apontou.

Entretanto, Renan Tech, que é proprietário de uma agência de turismo de Bauru, aponta que as vendas diminuíram pouco. “O pessoal tem comprado ainda e não teve uma diminuição expressiva. Como sabemos dessa alta, vamos investir em viagens internacionais em grupos, pois o custo é menor e também poderemos evitar prejuízos. Por exemplo, com um grupo de 45 pessoas indo para Europa, conseguimos tarifas mais em conta”, disse Renan Tech.

 

 

Comerciantes tentam se precaver

Para quem vende produtos importados, o impacto será mais forte no comércio. “Eles poderão se utilizar dos seus estoques para não se reajustar nessa magnitude. Mas, em um determinado momento, terá uma reposição e vão ter que ajustar os preços”, informou Reinaldo Cafeo.

O proprietário de um estabelecimento de importados Carlos Prando disse que se precaveu e o impacto não será sentido tão forte agora. “Meu estoque já está com produtos que comprei antes da alta e não terei que aumentar os preços agora. Depois, acredito que terei que modificar alguns preços se o dólar e o euro continuarem em alta. Por enquanto, não estamos sentindo muito o impacto”, contou.

A revenda de automóvel também terá dificuldades. “A indústria automotiva monta o carro no Brasil, mas está importando uma série de componentes. Certamente os custos ficarão mais altos. Não há venda de carro, mas há aumento no custo”, afirma Cafeo.

Momento delicado

O economista Reinaldo Cafeo ressalta que o consumidor brasileiro precisa ter consciência de que o preço alto do dólar terá reflexo no aumento geral dos produtos. “Vivemos em um mercado globalizado”, disse.

O momento, de acordo com o economista, é delicado. “Essa situação faz com se torne o que chamamos de economia de inflação importada pelos produtos. Com o aumento dos tributos, o controle da inflação fica mais difícil. É um momento muito delicado e esse fato câmbio é preocupante. O comércio já está com muita dificuldade em desovar os seus estoques. Com o aumento de custo, mais difícil ainda. Na minha opinião, o dólar em alta é mais maléfico para a economia em um todo do que benéfico para alguns exportadores”, concluiu.

 

 

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