Tribuna do Leitor

Carnaval e o samba-enredo da dengue


| Tempo de leitura: 2 min

Enquanto o ano recomeça, termina o carnaval. É como se o ano só tivesse início pra valer depois das plumas e paetês, tudo tão lindo, e seria mesmo se não fosse um detalhe: o drama da dengue, que ao contrário do carnaval não terminou e ao contrário do ano novo é um problema que começou há muito tempo. Mas nos perguntamos: como é que um mosquito pode ter tanta força sobre a Cidade sem Limites e seus numerosos bairros? A resposta é simples. Quem deveria estar cuidando do povo ao zelar pela limpeza e pelo saneamento, ao impedir novos buracos no asfalto e tapar os que existem (são como panelas de água limpa acumulada a céu aberto, as larvas da dengue amam), ao realizar campanhas de conscientização e considerar o verdadeiro patrimônio da cidade ? os cidadãos ?, parece não perceber a nuvem catastrófica de epidemia pairando sobre o município e aumentando a cada ano.


É como se o terror da população, o choro dos que perdem parentes e a dor dos trabalhadores infectados pelo vírus, tudo isso estivesse abafado pelo som dos tamborins. Sim, porque o carnaval tem investimento maciço de verbas públicas, sem miséria, tudo para alegrar os eleitores, quer dizer, contribuir para a "cultura" da cidade. Fico pensando em até que ponto o coração de dirigentes vai ser substituído por blocos de pedra a ponto de valorizar muito mais um evento efêmero, priorizando investir numa tradição festeira a corrigir uma situação tão crítica onde, cá entre nós, não há o que comemorar.

É claro que os cidadãos precisam mudar de atitude, e muito, mas isso não exime a responsabilidade do poder público sobre a questão da dengue. Todo ano é o mesmo cenário e ainda divulgam números que não batem com o que os nossos olhos veem. A situação é crítica, insustentável. Portanto, me perdoem as autoridades se não estou jogando confetes; pois como cidadã gostaria de comemorar uma cidade cuidada, onde a população é instruída em campanhas de conscientização, onde ruas e terrenos estão sendo limpos e a dengue não está sendo varrida para debaixo do tapete, abrindo alas para a próxima epidemia.

Milene Regina Ezequiel

Comentários

Comentários