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Inezita Barroso morreu na noite de domingo (8) |
Inezita Barroso, amável e acolhedora apresentadora da TV Cultura, também sabia ser firme e contestadora. A reta defesa das raízes caipiras é um de seus mais valiosos legados e foi destacado, ontem, durante o Jornal da Cultura 1ª Edição por dois especialistas na observação do cenário musical: Zuza Homem de Mello e Assis Ângelo. Inezita, conforme noticiou o JC de segunda-feira, morreu na noite de domingo, aos 90 anos.
“Ela soube compreender o valor de um gênero que, até então, era desprezado”, disse o musicólogo, produtor e pesquisador Zuza.
Segundo ele, “a verdade não se descola da trajetória de Inezita”. Muito autêntica, “nunca se rendeu” aos oportunismos do mercado.
Jornalista e estudioso da cultura popular, Assis Ângelo é autor do livro “A Menina Inezita” (2011, Editora Cortez). Ele lembrou que seu “canto era voltado ao campo” e que esse interesse “veio aos 7 anos, quando visitava fazendas de parentes”.
“Então, a viola cravou-se no peito dela”. Segundo Assis, Inezita é “mais que rainha da moda caipira”. “E, por ser tão brincalhona e cheia de vida, a morte parece simbólica”.
A insuficiência respiratória aguda que vitimou Inezita logo causou comoção no mundo sertanejo – ainda chocado pela morte de José Rico, enterrado no mesmo dia em que ela completava 90 anos, em 4 de março.
“Fica um coração partido e a esperança de surgirem outras como ela”, declarou o cantor Daniel pela Internet.
‘...Quanta saudade você me traz...’
Intérprete do hino informal da São Paulo antiga, “Lampião de Gás”, Inezita foi apresentadora do programa “Viola, Minha Viola” por quase 35 anos. No domingo, a atração prestou homenagens a ela. É o programa onde, segundo a apresentador e músico Rafael Cortez, “o Brasil encontra o Brasil de verdade”.
Com bandeiras do Corinthians e do Estado, a paulistana da Barra Funda, mas de alma interiorana, foi velada na Assembleia. Autoridades, como o governador Geraldo Alckmin e ex-senador e secretário dos Direitos Humanos da Capital, Eduardo Suplicy, estiveram por lá. Enterro ocorreu no fim da tarde no Cemitério Gethsêmani (Morumbi).
Uma internauta, Amanda Ferreira, resumiu o sentimento reinante. “Gostava dela pacas”. Ou como escreveu a cantora Vanessa da Mata em rede social: “Vai deixar saudade e já tenho”.
'Preocupava-se em preservar’
Continuar [o ‘Viola, Minha Viola”], vai. Aquele programa é de maio de 1980. Só não mudou muito nesse tempo todo por influência da Inezita. Respeitavam muito ela. Estive lá e conversava com ela também em outros lugares depois disso.
Personalidade forte, sempre procurou valorizar também a música e o folclore. Sempre preocupada com a preservação cultural. E dava conselhos também.”
Tião Camargo, 62, é presidente do Clube da Viola de Bauru
'Conheci uma outra Inezita’
Fui gravar o programa ‘Viola, Minha Viola’ para divulgar meu disco de estreia, ‘Maracanãs’, em 1998, com trio formado também por Magrão e José Esmerindo. Inezita foi tão legal que convidou para o programa de rádio dela, ‘Estrela da Manhã’ (Cultura AM). Tive, assim, a sorte de conhecer de perto a Inezita do rádio: uma hora inteira com ela. No rádio, sem a pressão do tempo da TV, ela ficava ainda mais à vontade. Até levou uns drinques para lá... Acabou que ela pegou uma música do álbum (“Balanço Capial”) e botou para virar abertura do programa.
Perdi as contas de quantas vezes voltei ao “Viola...” Certa vez, ela se encantou com viola que faço, de cabaça. Foi em 2005 e fizemos homenagem à violeira Helena Meirelles, que tinha falecido naquele ano. Inezita gostava e valorizava pessoas guerreiras como ela.
No fim de 2014, toquei de novo no programa, mas Inezita não estava apresentando. Fizemos roda de viola que, talvez, seja o formato que o programa passe a ter agora. Seja como for, que mantenha o espírito por ela consagrado: com matriz na música acústica, de raiz, sem se corromper ao lado mais pop e comercial do sertanejo”.
Levi Ramiro, 49 anos, violeiro e artesão, mora em Estiva, distrito de Pirajuí. Tem sete CDs gravados – o mais recente, em fase de divulgação, chama-se “Capiau”. Site: www.leviramiro.com.br
‘Foi nosso esteio’
Inezita quebrou barreiras num país preconceituoso e racista. Avançou e abriu espaços. Na época dela, era muita discriminação contra a mulher. Ela foi quebrando barreiras pra gente também. Fizemos, eu e Douradinho, a gravação do piloto do ‘Viola, Minha Viola’. Nem achava que ia pro ar. Como cantamos no primeiro programa, ainda sem Inezita, [em 25 de maio de 1980], eu me considero um dos fundadores.
A TV Cultura recebia muita carta para a dupla voltar. O povo queria que a gente fosse todo domingo. A produção falou em ir de quinze em quinze dias. Eu achei que ficava carne de vaca. A gente foi, por uma época, de mês em mês. O programa e Inezita deram muito suporte às duplas. Foram nosso esteio.”
João Mulato, que formou dupla com Douradinho, manteve primeira formação até a morte do parceiro, em 1982. João Mulato segue cantando, mora em Bauru e divulga o mais recente disco em dupla, “Aos Pés da Mulher que Amo”
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