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Entrevista da semana: Gastão Carvalho Debreix

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 5 min

Enquanto cores, tintas e muita inspiração dão luz ao trabalho mais conceitual do artista, no ateliê Lapispau a madeira maciça é matematicamente e artisticamente esculpida e resgata jogos do passado, como bilboquê, quebra-cabeças, entre inúmeras outras peças lúdicas e usuais. Tudo isso nas mãos do entrevistado de hoje, o artista plástico Gastão Carvalho Debreix. 

Éder Azevedo

Gastão teve seus primeiros contatos com a arte na marcenaria do pai

Ele nasceu em Guaiçara, mas foi em Pirajuí que teve seus primeiros contatos com a arte na marcenaria do pai. Além de artista, Gastão também é professor. Atualmente, ele leciona na Uniesp e atua na Divisão de Ensino às Artes da Secretaria de Cultura de Bauru, além de dar aulas em sua oficina particular. 

“Eu gosto de fazer os dois. Teve uma época em que eu fiquei sem ensinar e descobri que somente produzir é muito chato. Você vai ficando cego. E, quando você ensina, você também aprende, renova suas habilidades. Você bebe da alma do outro. Você troca”, acredita. Leia mais a seguir. 

 

Jornal da Cidade - Quando nasceu o artista plástico Gastão Debreix?

Gastão Carvalho Debreix - Eu me descobri, ou melhor, eu me vi um artista plástico ainda na infância. Quando criança, eu já me achava um pouco diferente dos outros meninos. Eu tinha uma visão diferente das coisas. Mas é lógico que eu tive influências do meu pai, que era marceneiro e mestre nisso. Ele dava aulas de marcenaria na Escola Industrial de Pirajuí e, quando a escola foi extinta, ele montou uma oficina em casa. Eu trabalhava com ele e aprendi muita coisa. 

 

JC - Sua infância teve oficinas como cenário... 

Gastão - Ah, sim. Mas antes de dar aulas, meu pai e minha mãe estudaram artes industriais e faziam trabalhos em casa. Então, minha casa sempre foi uma oficina e sala de aula, também porque meus pais sempre deram aulas. Acho que com eles eu também aprendi o ensinar. 

 

JC - Como seu trabalho foi evoluindo?

Gastão - Bom, eu trabalhava com meu pai, isso no início dos anos 80. Eu não tinha dinheiro para estudar, mas sabia que queria fazer artes. Em 1985, eu entrei no sistema penitenciário como agente de segurança, em Pirajuí, e passei a ter um salário fixo. Em 1989, prestei vestibular aqui na Unesp, passei e vim fazer faculdade de artes. Eu viajava todas as noites e, no final do curso, fiquei de vez na cidade.   

 

JC - Você também trabalhou com artes dentro do presídio, certo?

Gastão - Na verdade, eu aprendi a serigrafia, que até então eu não conhecia. Eles tinham um setor de serigrafia no presídio e como eu estava estudando artes, pleiteei junto à direção que eu tomasse conta desse setor. E eu aprendi a serigrafia com os detentos. Foi uma revelação para mim. Eu comecei a fazer alguns poemas visuais e essa arte me possibilitava isso. A serigrafia abriu meu leque e até hoje meu trabalho tem muito disso.   

 

JC - Depois de formado e com residência fixa em Bauru, quais foram os seus próximos passos?

Gastão - Eu dei aulas na Unesp, no final do curso. Depois lecionei área econômica secundária no Sesi, uma disciplina que ensina o aluno a desenvolver  suas habilidades manuais com argila, madeira, serigrafia... Dou aulas no antigo Iesb, agora Uniesp, no curso de design. Ensino marchetaria e serigrafia. Desde 2010, atuo na Divisão de Ensino às Artes, da Secretaria de Cultura de Bauru. Ministro aulas na Pinacoteca e trabalho no projeto Girassol, no bairro Fortunato Rocha Lima, mantido pelo Centro Espírita Amor e Caridade (Ceac). Vou como voluntário, mas cedido pela prefeitura. Além disso, eu leciono particularmente na minha oficina.     

 

JC - Produzir ou ensinar?

Gastão - Eu gosto de fazer os dois. Teve uma época em que eu fiquei sem ensinar e descobri que somente produzir é muito chato. Você vai ficando cego. E, quando você ensina, você também aprende, renova suas habilidades. Esse contato é muito importante. A troca é muito importante para os artistas e para a vida humana, de maneira geral. Você bebe da alma do outro. Você troca. Tenho alunos que fazem o curso comigo e depois pedem para vir me ajudar, passam os sábados aqui comigo.

 

JC - Sobre exposições.

Gastão - Eu já fiz várias. Em Bauru, São Paulo e até no Exterior. Acredito que a mais importante das exposições tenha sido em São Paulo, em 1991, quando foi realizado um estúdio internacional. Já mandei trabalhos para alguns países, como Hungria, Estados Unidos... 

 

JC - Você já reuniu um pouco da sua arte em um livro. 

Gastão - Sim. Lancei um livro há dois anos com o patrocínio da Cart - Concessionária Auto Raposo Tavares. Esse livro veio em um momento muito importante. Eu havia acabado de perder um filho assassinado em Franco da Rocha. Eu estava muito mal, com depressão e afastado da minha arte, cuidando apenas da Lapispau. Foi quando apareceu o Ricardo Schittini Duarte, que era diretor da Cart, e me deu este livro, onde eu pude colocar todo o meu trabalho desde o meu primeiro poema visual, na época da faculdade. É um livro de imagens e textos. Muito bacana mesmo.   

 

JC - A arte o ajudou a superar a depressão?

Gastão - Eu não tenho dúvidas. A arte me salvou várias vezes ao longo da minha vida. Depois do livro, eu voltei a produzir, também entrei na prefeitura e percebi que preciso seguir mais um pouco. Ainda não é minha hora de parar (risos). 

 

JC - Quando nasceu a Lapispau? 

Gastão - Eu fundei a Lapispau há uns 15 anos. Fui juntando máquinas e máquinas. Hoje tenho um espaço bem bacana, que é meu mesmo. Nele, quero montar um centro de cultura, um lugar de encontro de alunos, de gente que convive com arte. É um espaço bacana, que está quase pronto. Meus trabalhos com madeira ficam expostos no site: www.lapispau.com.br. 

 

JC - Quem é o artista Gastão? 

Gastão - Eu me vejo como um artista artesão, um artista operário. Sou filho da escola industrial, tecnicista. Meu trabalho tem matemática, minha marcenaria tem matemática. Dentro da minha bagunça há uma ordem que faz a minha alma feliz. Costumo dizer que a arte é doação.

 

Perfil

 

Nome: Gastão Carvalho Debreix 

Idade: 54 anos

Local de Nascimento: Guaiçara/SP 

Signo: Virgem

Filhos: Paloma e Pedro

Livro de cabeceira: Normalmente, leio obras sobre arte 

Hobby: Meu trabalho é meu hobby 

Filme preferido: “Sociedade dos Poetas Mortos” e outros filmes sobre arte

Estilo musical predileto: MPB

Time: Paulista de Guaiçara 

Para quem dá nota 10: Para o povo brasileiro, que ainda consegue ter bom humor em meio a tanta diversidade 

Para quem dá nota 0: Para nosso sistema político todo corrompido e defasado   

E-mail: gastao@gastaodebreix.com.br, lapispau@lapispau.com.br e o site www.lapispau.com.br 

 

 

 

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