Uma certa dose de preocupação me dói à alma no "day after" das mobilizações que marcaram o País nos últimos dias 13 e 15. Em junho de 2013, ainda sob o efeito emocional da multidão que também caminhou por ruas, praças e avenidas, comentei, em texto, sobre o risco do "efeito bolha de sabão". Corremos, agora, o risco, de assoprar o mesmo efeito.
Não se trata, desde já, de desmerecer a presença da população nas ruas, mas de sugerir reflexão sobre a dispersão da agenda de ação conjunta. Se fosse utilizar apenas como referencial o resultado das urnas, na última eleição presidencial, diria que o País não está dividido. Negros, brancos, ricos, pobres, petistas, tucanos, doleiros ou miseráveis, em alguma instância guardam, dentro de si, algum grau de insatisfação. Com exceção da minoria podre que assalta o País em algum canto da República, a maioria é honesta e deseja decência para a vida dos seus e de seus filhos!
Por isso, chamo a atenção para a voz rouca que não foi às ruas no domingo. Lembrando o resultado eleitoral, são mais de 37 milhões de brasileiros que não escolheram nem a candidata da estrela vermelha, nem o mineiro vestido de tucano. E não são poucos!
É muita gente. Brasileiros que não se sentem representados pelo governo de plantão. Mas que também não consideram a vertente tucana alternativa. Pior, são brasileiros que, em parte, também não enxergam sinal de luz à esquerda e, em outra porção, andam preocupados com a voz conservadora de grupos que costumam se aproveitar dos momentos de crise para levantar "bandeiras" de cores nebulosas, mas escondidas sob a oportunidade do protesto.
Escrevi, na página pessoal no facebook, que não fui às ruas domingo! Nem na sexta. Mas, sem contradição, fiquei feliz pelo suspiro de princípio de mobilização. A passeata da rua de minha aldeia não tinha "ismo", de nenhuma natureza. Toda divisão, por si, não soma. E toda forma de intolerância, por núcleo, fere.
Assim, sugiro atenção para, sem "ismo", o risco do efeito bolha de sabão... ela se forma com um sopro, ganha dimensão, mas eclode com muita facilidade... como toda ação coletiva sem agenda. Isso não desmerece em nada a passeata do domingo. É somente uma preocupação.
Então, invoco o filósofo e professor da Unicamp Roberto Romano: "O Estado brasileiro se tornou dono da política. O Brasil tem um governo autoritário, que confia na propaganda; um Congresso que representa não o povo e partidos que se multiplicam sem ligação com a sociedade", formados por líderes que fazem o diabo em troca de favores do governo.
Assim, sem procuração dos 37 milhões de brasileiros que parecem sem alternativa, reflito sobre a observação do historiador da USP, Carlos Guilherme Mota: O País vive uma aparência de República, quando, na verdade, o sistema político se liquefez.
"Quando se chega ao ponto em que o povo não se identifica mais com o sistema político e começa a haver manifestações, a saída histórica é a reformulação". A bolha, para ter força, pragmaticamente, depende de objetivo, como a convocação de uma Assembleia Constituinte específica para começar a releitura da democracia, a começar pelo sistema eleitoral e político?
O autor é jornalista do Jornal da Cidade
e da TV Câmara Bauru e compositor