Éder Azevedo |
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Uma conversa com o pivô do Paschoalotto/Bauru Basket, Murilo Becker, símbolo da inédita conquista da chamada ‘Libertadores do Basquete’ |
Meu hobby hoje em dia é trocar fraldas”, brinca de forma bem descontraída o pivô de 2,08m do Paschoalotto/Bauru Basket, que mal teve tempo de exercer com paixão de pai dedicado esse hobby nos últimos dias. Afinal, ele chegou com o time na noite de segunda-feira e, na quinta-feira, já pegou estrada de novo para jogar na sexta pelo campeonato NBB - Novo Basquete Brasil. No último domingo Bauru ganhou, no Rio de Janeiro, a Liga das Américas de forma invicta, trazendo um troféu inédito para a cidade.
Além disso, Murilo é o atleta que mais acumula títulos por Bauru. Em 2002, na sua primeira passagem pela cidade, foi campeão brasileiro. Nesta segunda temporada bauruense ele foi bicampeão paulista (2013/2014), recentemente campeão Sulamericano e, agora, campeão da Liga das Américas. Além dele, só o assistente técnico do time principal e técnico do sub-2, Hudson Previdelo, supera essa marca, mas não só como atleta, também como técnico e dirigente. Dos grandes títulos do basquete bauruense, Murilo só não tem o paulista de 1999.
Mas, mesmo que não tivesse todos esses títulos, não dá para deixar de reconhecer a identificação desse gaúcho de Farroupilha, criado na capital Porto Alegre, com a cidade. E de forma emocionante. Coube a ele receber da equipe a missão de erguer o troféu de campeão, também no momento em que estava conquistando uma vitória pessoal.
Murilo, pai de cinco filhos, dentre eles dois casais quadrigêmeos, viu a luta do mais novo dos quatro, Gabriel (o último a nascer em junho do ano passado) para sobreviver.
Gabriel tem sido um lutador. Contraiu meningite hospitalar. Ficou mais de 70 dias em UTI, teve ainda que lutar contra a hidrocefalia e um tumor que o levou a três cirurgias. Agora, há menos de um mês está em casa, com a devida alta. Todo mundo que viu a partida se emocionou com a homenagem que o jogador fez ao filho, vestindo uma camisa com o nome do pequeno Gabriel.
Mas guerreiro também é o próprio Murilo, que divide essa força com a esposa Patrícia, “uma mulher excepcional por tudo o que vem lutando e fazendo pelos nossos filhos” e que tem uma identificação muito, muito grande mesmo, com Bauru. Ele já se considera um bauruense e proclama: “Sou feliz aqui”.
Jornal da Cidade - Quando se sentiu bauruense de verdade?
Murilo Becker - Na verdade eu sempre gostei daqui. Quando cheguei aqui em 2001/2002 fui tão bem recebido, já adorei a cidade. Profissionalmente foi Bauru que abriu as portas da minha vida. Através de Bauru aconteceu a minha primeira convocação para a seleção. E mesmo nos anos em que fiquei longe sempre pensava em voltar. Gostava daqui. Deixei amigos aqui.
JC - E hoje? Como está a sua vida em Bauru?
Murilo - Sou muito feliz aqui. Não tenho do que me queixar. Agora tenho quatro filhos bauruenses, os quadrigêmeos Leo, Rafaella, Maya e Gabriel. E a primeira, que nasceu em São José dos Campos, adora Bauru. Eduarda, aos 7 anos de idade, diz que não deixa Bauru por nada, não quer saber de se mudar e, se um dia for embora, será para os Estados Unidos.
JC - Isso por que ela esteve na Disney?
Murilo - Não, nada disso. Agora é que vai conhecer. No meio do ano, nas férias, eu vou levá-la para lá a passeio. É claro que os quadrigêmeos ficam (eles nasceram em junho do ano passado). Mas, enfim, nós gostamos muito daqui.
JC - Como você enxerga a cidade?
Murilo - Nossa, é boa demais. O que tem de melhor? Sua gente. Não só por ser um público apaixonado pelo basquete que todo mundo sabe que é. Mas porque é hospitaleiro. O bauruense é aberto, agradável, educado. Extremamente positivo, alegre e receptivo, preocupado com o outro. Eu sentia isso. Quando meu filho estava mal, encontrava gente na rua dizendo que estava orando por ele. No supermercado, na farmácia, sempre tive uma atenção das pessoas de forma bem bacana. Não posso falar nada de ruim, o bauruense é superpositivo.
JC - O que falta para Bauru estar perfeita?
Murilo - Penso que na área cultural, no agito, nos eventos, Bauru poderia ter mais e mais. Não que não tenha. Mas sempre que acontece um grande show, uma boa peça, uma atração infantil, você já reparou que lota? É sinal de que a cidade precisa demais. Absorveria muito mais. Vejo que há espaço para isso e uma certa carência ainda.
JC - Já parou para pensar o que vai ser quando parar de jogar?
Murilo - Tenho contrato com Bauru até o final de 2016, mas não procuro pensar nisso, não. Antigamente era muito angustiado com o futuro. Hoje, meu filho Gabriel, com sua doença, com sua luta para vencê-la, me ensinou que tenho que viver o agora, o hoje, que é só o que temos. Deus é quem comanda. Aprendi que o futuro a Deus pertence. Mas claro, gosto da Educação Física e de Administração, são áreas que gosto, acho que lá na frente meu futuro será por aí. Claro que hoje penso em construir um pé de meia, mas quero também estudar mais.
JC - Sobre estudar...
Murilo - Minha história, eu pessoalmente não quero servir de exemplo nesse campo. Não fiz tudo o que deveria e espero fazer mais ainda. Afinal, precisei parar a faculdade de Educação Física quando fui para Israel. E acabou que foram tantas mudanças, oito anos de seleção brasileira, que não deu para continuar estudando. Nesse aspecto falo para a moçada: não deixem de estudar nunca (diz, bem ao estilo façam o que eu falo e não o que eu fiz).
JC - Falando em ser exemplo, o que diria para quem está começando?
Murilo - Falo para qualquer profissão, independente da carreira que seguir, seja jogador, médico, advogado, procure sempre os pontos positivos da profissão, fique com os aspectos positivos. Seja o mais profissional possível e dê seu máximo. De tal forma que, quando deitar, quando terminar o seu dia, tenha consciência de que fez o seu máximo.
JC - Sobre a seleção.
Murilo - Bom, uma Olimpíada no País é algo diferente. Sempre é um sonho de todo atleta, penso eu, ainda mais no Brasil. Eu, nunca joguei uma Olimpíada, e nas últimas convocações não tenho sido chamado, nem sei se serei. Mas se for contemplado, vou dar o meu melhor, lembrando para os que forem que estar em uma Olimpíada é sempre algo muito difícil. Os jogos não serão fáceis, não. É difícil falar alguma coisa agora, é cedo, ainda estamos longe.
JC - E sobre o NBB e o Mundial?
Murilo - O Mundial ainda é lá na frente (em setembro Bauru disputará), não dá para pensar agora. Nem falar nada. Nem é hora de pensar nisso. Estamos no meio do campeonato do NBB e temos que pensar jogo a jogo. Não dá para desfocar. Ainda temos um caminho pela frente nos próximos dias. Primeiro temos que garantir a classificação. Depois passar pelos play-offs. Não dá para relaxar.
JC - Mas depois de ganhar a “Libertadores”...
Murilo - Sim, é quase o auge. Mas ainda não é o auge. Queremos agora chegar à final de outro campeonato, o NBB. Somos um grupo que pensa em chegar à final, e para isso estamos trabalhando forte. Ninguém está relaxando, não. Não é hora de relaxar.
JC - Mas hoje o time é imbatível?
Murilo - Nada disso, longe disso. Claro que somos a equipe a ser batida, todo mundo quer ganhar da gente agora. E claro, somos uma equipe difícil de ser batida, mas existem outras também. Imbatível? Pelo contrário, a responsabilidade aumenta e temos que suar a camisa a cada jogo.
JC - A que você credita o fato de o time estar neste bom momento?
Murilo - Bom, as peças - os companheiros, enfim, quem chegou de novo - foram bem repostas, os valores individuais são excelentes. Mas creio que o momento é bom porque o entrosamento foi muito rápido, isso facilitou. De repente dá a impressão de que é uma equipe que já joga junto há tempos. O sucesso creio que é esse, há o trabalho de todo mundo, mas o entrosamento foi rápido. Com isso a equipe cresceu.
JC - É bom ser o exemplo positivo, não é?
Murilo - Sim, a inspiração vem, a força vem não só da família, dos filhos, da luta que vi do meu filho, mas é motivador quando a gente vê que as pessoas reconhecem nosso trabalho. Recebi no facebook uma mensagem de uma mãe que está grávida de seis meses, dizendo que a filha dela vai se chamar Sofia Gabriela em vez de só Sofia em homenagem ao meu filho Gabriel. Ela viu meu depoimento dizendo que dedicava a vitória a ele e tomou essa decisão. Não é demais? Isso sim inspira a gente. Dá força, manda para frente.
Em tempo: na matéria não há foto da família porque, neste momento, Murilo está empenhado em preservar um pouco a todos, especialmente os quadrigêmeos.
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