Regional

Pirajuí faz 100 anos no dia 29 de março e terá vários eventos

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 8 min

O mês de março é muito especial para a cidade de Pirajuí (58 quilômetros de Bauru), que este ano comemora no dia 29 seus 100 anos. Para marcar o centenário inúmeras ações estão sendo desencadeadas, desde 23 de fevereiro. Considerado o maior município cafeeiro do mundo, em meados do século XX, Pirajuí é a cidade natal de Carmem Mayrink Veiga, uma das mais famosas socialites brasileiras. Tito Madi, um  dos grandes nomes da Música Popular Brasileira, Naum Alves de Souza, dramaturgo, que criou o boneco Garibaldo de Vila Sésamo, Zélia Cardoso de Mello, ex-ministra do governo Fernando Collor, dentre outros.


Eventos esportivos, culturais, religiosos, homenagens e inaugurações farão o morador de Pirajuí comemorar o centenário. O lançamento do livro do centenário e inauguração da galeria dos prefeitos está agendada para o dia 24, no hall de entrada da prefeitura.


Como presente, a cidade ganhou um mascote, um peixe dourado que foi instalado na praça em frente a prefeitura. Originalmente Pirajuhy deriva da língua tupi: pirá é peixe, ju é corruptela de juba, amarelo vivo, dourado, e hy é água corrente, rio.  


Pirajuí ganhou um aeroporto na década de 50. Foi na gestão do prefeito Pedro da Rocha Braga. O aeroporto municipal ficava distante seis quilômetros da sede do município. Foi construído com 60 metros de largura e um quilômetro de extensão. Serviu para pousos de pequenas aeronaves da Real Aviação.  As escalas de voos eram comerciais da rota São Paulo-Cuiabá. “A inauguração foi no dia 7 de setembro de 1956.”


Entre as décadas de 50 e 60, a cidade ganhou repercussão nacional ao promover circuitos automobilísticos nas ruas centrais. Não há registros confiáveis sobre o número de circuitos efetivamente promovidos por Joaquim Ribeiro Sampaio, conhecido por Primo Rico. São histórias pouco comentadas na atualidade, uma vez que muitos dos que participaram já morreram, mas vários blogs de automobilismo registram os eventos.

Circuito de rua foi único no Interior


Pilotos e treinos chamaram a atenção dos moradores de Pirajuí, porque na década de 50 havia provas de automobilismo realizadas em cidades


As corridas automobilísticas no final da década de 50 em Pirajuí foram um sucesso de público. Porém, na época a fotografia ainda era de papel e os registros são poucos. Muitas das pessoas que presenciaram o evento, morreram e seus descendentes, guardaram poucas lembranças. O fato é que na época a prática do automobilismo acontecia apenas no Rio de Janeiro, São Paulo e chegaram a Pirajuí pelas mãos de Joaquim Ribeiro Sampaio, conhecido como Primo Rico.


O comerciante aposentado Luiz Fernando Franco, que foi dono da concessionária da Volkswagen na cidade, lembra com dificuldade de uma das corridas. “O Primo Rico veio do Rio de Janeiro para morar aqui. Ele era fanático por carros, naquele tempo em que os carros de corrida não eram fabricados, eram montados. Existiam os mecânicos em São Paulo, na rua Santo Amaro que fabricavam chassis próprio para corrida.  O Chico Landi e outros vieram correr.”


Uma das corridas foi no aniversário da cidade. “O Primo Rico procurou as autoridades e conseguiu o apoio delas e a corrida foi aqui. As ruas de paralelepípedos passaram por alterações. As provas foram nas ruas e travessas centrais. Como tinham depressões, a prefeitura fez as correções nas vias.”


Os veículos de corrida chegaram dias antes na cidade, lembra o morador. “Pouca gente conhecia os carros e isso causou muita curiosidade. Eu tinha a concessionária e os organizadores pediram para deixar os automóveis lá. Depois chegaram os mecânicos e começaram a fazer as regulagens.”


A concessionária era em uma das principais ruas do comércio. “Era na rua 13 de maio. O Primo Rico conseguiu trazer as equipes que movimentaram o comércio. Tantos os mecânicos como os pilotos ficaram na cidade. O hotel lotou e alguns ficaram nas residências dos moradores daqui. A população de Pirajuí teve o privilégio de assistir uma corrida automobilística.”


No dia da prova, a cidade ficou lotada. “Vieram os moradores de toda a região. Era um evento inédito no Interior. Os corredores ficaram por aqui. Eles chegaram com bastante antecedência. Nos treinos, o pessoal se animou fez festa.”


Percurso


A publicação que registra o III Circuito traz o percurso a ser feito pelos pilotos. “A exemplo dos anos anteriores, o circuito terá o percurso de 90 quilômetros, divididos em 60 voltas, com 1.500 metros cada e 480 curvas. Todos os volantes do Rio, São Paulo e Petrópolis foram convidados. Presenças confirmadas: Fritz D’ orey, Celso Lara, Ciro Cayres, Mastromagario, José Gimenez, Henrique Casini, os irmãos Santilli, escuderia Fulgor e os petropolitanos Álvaro Varanda e Victor Levi.”


Na prova, publica o periódico, estarão lutando, como sempre os craques de mecânica nacional e os não menos famosas estrelas dos carros esportes. “Será um vale tudo entre as categorias. O número excessivo de curvas não permitirá a vantagem de uma categoria sobre a outra. Tudo ficará por conta da perícia e do arrojo dos volantes... o resto é pé na tábua e fé em Deus”, constou na publicação.


Premiação


Mais de 150 mil cruzeiros serão distribuídos para os primeiros colocados. “Além de taças, troféus, que gravarão a passagem dos ‘ases’ mais uma vez por Pirajuí. Na preliminar do grande acontecimento, teremos prova para lambretas, em 20 voltas.”


Pai de Fittipaldi narrou as corridas

Divulgação

Barão, pai de Emerson e Wilson Fittipaldi, transmitiu a corrida para a rádio Pan-Americana (atual Jovem Pan)

Os poucos registros feitos sobre a corrida estão em uma revista feita no município. Nela está registrado que nos anos 60, Chico Senna participou da corrida automobilística de Pirajuí. “A cidade também tinha seu astro, o Primo Rico. Naquele tempo somente em três cidades do Brasil era observada a prática do automobilismo: Rio de Janeiro, São Paulo e Pirajuí.”

Na mesma publicação aparece uma foto em que Wilson Fittipaldi (pai de Emerson) conhecido como Barão, transmitia a corrida para a rádio Pan-Americana de São Paulo (a Jovem Pan como é conhecida atualmente).


Outra publicação registra o fato dizendo que a cidade, distante aproximadamente 350 quilômetros da capital bandeirante, possui uma população total de 18 mil almas. O negócio principal da cidade é também o do Brasil: o café.


Nessa publicação há registro do III Circuito Automobilístico de Pirajuí. “... Assim é que, pela terceira vez, que a Comissão Municipal de Esportes de Pirajuí resolve realizar mais outra fabulosa promoção entre os grandes volantes nacionais. As duas primeiras competições, se constituíram em espetacular êxito. Muito comentadas até hoje pelos volantes que dela participaram.”

Famosa Ferrari Testa Rossa

Divulgação

A famosa Ferrari Testa Rossa era uma das 21 unidades construídas

A famosa Ferrari Testa Rossa (Pontoon Fender) esteve em uma das provas em Pirajuí, no final da década de 50. O plioto Jean-Louis de Lacerda Soares ganhou uma corrida nos festejos de inauguração de Brasília em 1960 seguindo as dicas de Juan-Manuel Fangio, com quem jantara casualmente na noite anterior num hotel.

Ele contou depois à revista piauí que tinha no currículo algumas vitórias, como o primeiro lugar no circuito de Pirajuí e na Barra da Tijuca. A Testa Rossa era uma das 21 unidades construídas. Lacerda Soares conta que anos depois de vendê-la por um valor que hoje não chegaria a US$ 15 mil, reencontrou o carro. Foi leiloado por mais de US$ 10 milhões. (Veja a foto abaixo)

Ciro Cayres venceu prova de 1955

Site Nobre do Grid/Reprodução

Ciro Cayres venceu prova no Circuito de Pirajuí em 1955, mas ao lado em foto de 1986

Circuito de Pirajuí é citado em blogs e sites especializados e foi referência na época junto com São Paulo e Rio de Janeiro


De acordo com site www.link.com.br o circuito de rua de Pirajuí foi realizado no dia 29 de março de 55 e o vencedor foi o piloto Ciro Cayres com um Allard J2 Cadillac. O corredor Henrique Casini não teve a mesma sorte e abandonou a prova.


A prova teve 60 voltas de 1.450 quilômetros que totalizaram 87 km no tempo de 1h20m30s2, uma média de 64,8542 km/h. A melhor volta ficou com o vencedor que conseguiu percorrer o circuito em 1m16s3 - média 68,414 km/h.


Um relato do piloto Jean-Louis Lacerda Soares feito no blogdojovino.blogspot.com.br dá conta que ele correu no Circuito de Pirajuí. A história começa contando que ele com sua Ferrari, nos anos 60, participou dos festejos da inauguração de Brasília. “Embora disputado nas avenidas de um Plano Piloto ainda em obras, o Grande Prêmio Presidente Juscelino Kubitschek era seu principal evento. Houve desfiles, convidados e autoridades do mundo todo e intensa cobertura nacional e internacional.”


Na véspera, de casaca, Jean-Louis Lacerda Soares teria participado de jantar oferecido pelo presidente no Hotel Brasília Palace, do qual o argentino Juan Manuel Fangio era o convidado de honra. Correndo de Alfa Romeo, Maserati e Mercedes-Benz, Fangio tinha acumulado a essa altura cinco títulos de campeão mundial.

À época Jean-Louis Lacerda Soares tinha 29 anos com dois de experiência em provas oficiais no Brasil. “Com a Ferrari Testa Rossa que pilotaria no dia seguinte na nova capital. Eu tinha no currículo algumas vitórias, como o primeiro lugar no circuito de Pirajuí e na Barra da Tijuca, um bairro em construção no Rio de Janeiro.”


Precursor da Fórmula I


O morador de Pirajuí Fagner Rossi acredita que as provas realizadas em Pirajuí foram as precursoras da Fórmula I do Brasil. “Foi montado um circuito improvisado na cidade. O grande incentivador e piloto foi o Primo Rico. A prova era de Corvete e Ford. Eram 160 voltas de 1.600 metros cada uma. Uma competição foi em 55 e outra, em 59.  O III circuito foi aqui.”

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