Articulistas

Índice de (in)felicidade

Fernando José Martha de Pinho
| Tempo de leitura: 4 min

O já velho conhecido ativismo estatal atabalhoado tem prejudicado muitos países na América Latina, condenando gerações inteiras à miséria e desesperança. O continente "arrasta-se" ao longo de décadas, perpetuando sempre os mesmos problemas: instabilidade política provocada pela disputa de poder entre os partidos, golpes militares, máquinas públicas inchadas de funcionários apadrinhados e despreparados para as funções assumidas, promessas nunca cumpridas, oferta de serviços precários e caros, desrespeito com os eleitores, violência exacerbada, autoridades fiscais perseguindo empresários que não compactuam com os absurdos praticados pelos governos, consumidores desamparados, fuga de capitais, educação capenga, desajustes cambiais, déficits públicos crônicos, desabastecimento, tributação irracional e inflação descontrolada. Milton Friedman, Nobel de Economia, em 1976 já dizia que "a inflação é uma doença capaz de destruir uma sociedade."

Adicione-se a esse diagnóstico um aumento do desemprego, e o termo não-teórico que os economistas atribuem ao efeito debilitante sobre as pessoas, que redunda em infelicidade. Esse grau de infelicidade, neste ano, será mais agudo na Venezuela e Argentina, duas das economias onde será mais penoso viver e trabalhar, segundo dados compilados pela agência de notícias Bloomberg, que compõem o Índice de Infelicidade de 2015. A lista é encabeçada pelos dois países citados. Trata-se de uma equação simples: Taxa de Desemprego + Variação do Índice de Preços ao Consumidor = Grau de Infelicidade. Só para ilustrar, na semana passada, dada a escassez de produtos básicos na Venezuela, o governo de Trinidad e Tobago propôs ao governo de Maduro a troca de papel higiênico por petróleo, voltando-se ao primitivismo do escambo. Receituário bolivariano! O Brasil aparece em décimo terceiro lugar nessa vergonhosa lista.

A baixa produtividade das economias latino-americanas também contribui muito para esse descalabro, pois trabalha-se pouco e mal. Neste aspecto, no caso brasileiro, seria muito oportuno, no momento, que o empresariado e a população em geral começassem a fazer forte pressão sobre os políticos e autoridades visando eliminar o excesso de feriados prolongados que tanto prejudicam a competitividade do país, gerando prejuízos incalculáveis a quase todos os setores de atividade empresarial. Seria uma forma eficaz de demonstrar o senso de patriotismo, tão escasso no Brasil. Não menos importante, seria também questionar, para reflexão de todos: o que justifica a absurda paralisação ou semiparalisação do funcionamento de unidades de saúde pública, prefeituras, fóruns, empresas de água/saneamento e escolas, em datas como Carnaval, Copa do Mundo? Será que não há demanda de serviços públicos nessas ocasiões? Não custa lembrar que há um grande e crescente número de pessoas que não têm a mínima afinidade com esses eventos acima citados. Por que obrigá-las a suportar isso?

A sociedade precisar reagir. Em qualquer país sério, os contribuintes reagem energicamente a esse estado de coisas. Infelizmente, a falta de maturidade de grandes segmentos da sociedade brasileira é assustadora, absolutamente incompatível com o desejo de alcançar o pleno desenvolvimento econômico e social. Sociedade despreparada é sociedade infantilizada. Outra mazela causada pelo subdesenvolvimento do Cone Sul foi a baixa apetência para o desenvolvimento do empreendedorismo, insuflada pela abertura indiscriminada de vagas no setor público, que acabou tornando-se "objeto do desejo" de muitas pessoas, atraídas por insustentáveis atrativos salariais, no longo prazo. Todo esse processo de intervencionismo acaba tornando-se um moto-contínuo, pois as pessoas começam a demandar dos Estados, cada vez mais, um nível de tutela crescente, abdicando da saudável prerrogativa de fazer o que é obrigação de cada cidadão individualmente.

O apelo à volta do bom senso na gestão pública e liberdade aos cidadãos também é advogada pelo aqui já citado Milton Friedman, coautor do livro "Liberdade de Escolher - O Novo Liberalismo Econômico", Ed. Record, 1979, pág. 49, quando afirma que "A sociedade é aquilo que dela fazemos. Podemos modelar nossas instituições. Características físicas e humanas limitam as alternativas disponíveis. Mas nenhuma nos impede de fazê-lo, se quisermos de fato construir uma sociedade que dependa principalmente da cooperação voluntária para organizar a atividade, econômica e de outra natureza, uma sociedade que preserve e amplie a liberdade humana, que mantenha o governo em seu lugar, conservando-o como nosso servo, e não deixando que se transforme em nosso senhor".

Isso posto, cabe à sociedade latino-americana decidir agora, que rumo tomar, pois, definitivamente, já sabemos o que não dá certo!

O autor é economista. E-mail: fm.pinho@uol.com.br

Comentários

Comentários