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Secretário fala ao JC e Bauru amplia defesa da Oficina Cultural

Thiago Navarro e Bruna Dias
| Tempo de leitura: 9 min

Roberto Navarro/Divulgação

O secretário estadual de Cultura, Marcelo Mattos Araújo: “Momento delicadíssimo da economia”

Em entrevista ao Jornal da Cidade, nessa quinta-feira (26), o secretário estadual de Cultura, Marcelo Mattos Araújo, tentou explicar motivos que levaram a pasta a mudar a organização das Oficinais Culturais em parte do Estado.


A justificativa principal é o corte de recursos para a secretaria em 2015 por conta da queda de arrecadação devido à crise econômica do País.


O JC noticiou na última terça-feira (24) o fechamento da Oficina Glauco Pinto de Moraes, a mais antiga do Interior Paulista – fundada em 1990 – com a transferência da coordenação para a cidade de Marília, a 100 quilômetros de Bauru, aglutinando-a à unidade mariliense.


As atividades, contudo, seguiriam ocorrendo na cidade, garante o titular estadual da Secretaria de Cultura.


“O que acontece é que estamos em meio a um momento delicadíssimo na economia, com revisão orçamentária em todas as áreas, e na Cultura não foi diferente. Diante dessa situação, começamos a analisar medidas para podermos enfrentar essas dificuldades, junto aos parceiros”, comentou. As parceiras, no caso, são as Organizações Sociais que administram as Oficinas Culturais no Estado de São Paulo.


A Oficina Cultural Glauco Pinto de Moraes, em Bauru, era gerida pela Poiesis. Dos cinco funcionários que trabalhavam na cidade, vinculados à Poiesis, quatro terão se ser desligados, e o coordenador poderá seguir, se aceitar o convite, para trabalhar na Oficina Cultural Tarsila do Amaral, em Marília, confirma Araújo.


“O que fizemos foi centralizar a coordenação em algumas unidades, mas as atividades serão mantidas. Bauru atendia a 24 municípios, quase sempre em parceria com as prefeituras, e isso será mantido, inclusive na cidade de Bauru”, reiterou.


Ao todo, a verba destinada à manutenção das Oficinas Culturais em todo o Estado (Capital e Interior) seria de R$ 25 milhões em 2015, na previsão inicial, mas com a readequação caiu para R$ 19 milhões.


Retorno


O prédio onde estava a Oficina Cultural Glauco Pinto de Moraes, Parque Paulitano (região do Jardim Cruzeiro do Sul) passa por reformas desde o final de 2013, com previsão de conclusão no início de 2016, a um custo total de quase R$ 4 milhões.


Questionado se não seria incoerente transferir para Marília a coordenação, o secretário procurou ponderar. “Onde tínhamos prédios alugados, tomamos a decisão de concentrar em cidades com unidades próprias. No caso de Bauru, o prédio da Oficina Glauco Pinto de Moraes é do próprio Estado, porém está fechado desde 2013, por isso a transferência para Marília”, argumentou.


Sobre sua proximidade com o ex-deputado federal Sério Nechar, que possui base política em Marília, Marcelo Mattos Araújo ponderou.


“A decisão de levar a coordenação para Marília não tem conotação política. Foi tomada com base em uma reestruturação administrativa”, disse. Bauru tem 350 mil habitantes, enquanto Marília possui cerca de 100 mil a menos.


Quanto ao uso do prédio ao final da reforma, o secretário admite que pode rever a decisão. “A reforma termina no começo do ano que vem, quando podemos sim rediscutir a possibilidade de trazer a coordenação de volta. Mas isso só será discutido quando a reforma terminar”, admitiu.


Serão fechadas ainda Oficinais Culturais de Araçatuba, Campinas, Araraquara, São João da Boa Vista e a Oficina Luiz Gonzaga, na Capital.


Elas serão absorvidas pelas Oficinas Culturais de Marília (que vai concentrar a de Bauru), Presidente Prudente (Araçatuba), São Carlos (Araraquara e São João da Boa Vista), Limeira (Campinas) e a Oficina Alfredo Volpi concentrando a coordenação da Oficina Luiz Gonzaga, em São Paulo.


Todas com a promessa da Secretaria Estadual de Cultura de não afetar atividades desenvolvidas nesses municípios, nem em cidades vizinhas.


Apelo

O prefeito Rodrigo Agostinho (PMDB) enviou ontem ofício ao governador Geraldo Alckmin (PSDB), para tentar reverter a situação, e manter a Oficina Cultural Glauco Pinto de Moraes. O chefe do Executivo municipal vai se reunir com o governador na próxima terça-feira, no Palácio dos Bandeirantes, em São Paulo, para tratar o assunto.


O anúncio do fechamento da Oficina Cultural mobilizou nos últimos dias diversos segmentos ligados à cultura e artistas em geral, bem como prefeitos da região, o secretários municipal de Cultura de Bauru, Elson Reis, vereadores e o deputado estadual Pedro Tobias (PSDB), com o objetivo de evitar o encerramento.

Repórter do JC é alvo de ameaças e intimidação em obra


O repórter fotográfico Éder Azevedo foi alvo de ameaça e intimidação, nessa quinta-feira (26) à tarde, em obra executada na Oficina Cultural de Bauru (rua Amazonas ao lado da avenida Cruzeiro do Sul, Parque Paulistano).


Ele cumpria pauta da direção de redação para registrar retomada dos serviços no local e, ao chegar, deparou-se com portão aberto e sem vigias ou porteiros, sem campainha ou portaria eletrônica. Desta forma, entrou para fazer contato com o responsável.


Após registrar foto da fachada, entrou em busca de alguém que pudesse atendê-lo enquanto fazia imagens complementares. Foi quando relata ter sido abordado por operários que logo questionaram se tinha autorização para estar ali.


“Foi o momento no qual fecharam o portão e disseram que eu não sairia de lá”, conta. Azevedo acrescenta: “Fui levado a uma sala, que disseram ser o refeitório, e o grupo com pás e enxadas ficou em volta. Cheguei a ouvir de alguém ali no meio que não sairia vivo”.


O engenheiro Alex Teixeira, responsável pela obra executada pela Incorplan, de São Paulo, juntou-se ao grupo e teve acesso ao  cartão de memória da máquina com as imagens.


Segundo Azevedo, o cartão foi levado a outro local e devolvido sem as imagens. “Pedi para ser liberado, ainda sendo ofendido por xingamentos pelo grupo, que me acompanhou até uma quadra após a oficina”. 


Azevedo lembra que foi filmado por uma mulher enquanto esteve na sala.


Responsabilidade


Logo após o tumulto, o engenheiro Teixeira ligou e falou com o JC duas vezes à tarde. À noite, também atendeu a uma ligação do jornal.


Ele questionou a entrada do repórter fotográfico ao local sem autorização prévia do governo estadual. “Foi uma invasão”. E justifica que, na função que exerce, tem responsabilidade civil pelo que acontece na obra – cujo portão fica frequentemente aberto para facilitar a entrada e saída de materiais de construção. Teixeira admite “ânimos exaltados” e concorda que “as coisas se acirraram”.  Nega, contudo, qualquer agressão. Também nega ter apagado imagens do cartão.


Sequência


Teixeira diz que conversou depois com os operários para explicar que “a mídia está cobrindo” o fechamento da Oficina, “não a obra de reforma”.


Ele pondera, ainda, que pode não ter ouvido tudo o que os operários disseram a Azevedo, inclusive ameaças, porque não esteve o tempo todo junto. Inclusive teria se ausentado para ligar ao 190 da Polícia Militar, que teria orientado que as partes se entendessem.


A obra em questão é a execução de calçadas, retomada ontem, após uma semana de trabalho interrompido por questões técnicas e operacionais.


A reforma do prédio é realizada desde o ano passado, após a empresa vencer licitação, e custa R$ 3,7 milhões aos cofres do Estado. O que será do prédio reformado, contudo, é incerto. 


Ainda nessa quinta (26), o secretário estadual de Cultura, Marcelo Mattos Araújo, após ser informado sobre o episódio, reiterou necessidade de autorização prévia para acesso, porém, colocou a pasta à disposição para novas matérias com fotos no local. Afirmou que, em seu entendimento, o episódio deve ser superado.

Outros projetos


Além das Oficinais Culturais, a Secretaria desenvolve outros projetos no Interior, como o Revelando São Paulo, o Circuito Cultural Paulista e o Projeto Guri. O que mais chama a atenção, certamente, é a Virada Cultural Paulista, que ocorre tanto na Capital como em diversas cidades do Interior, incluindo Bauru. “Em 2014, tínhamos R$ 7 milhões para organizar a Virada, e neste ano são R$ 5 milhões. Por isso, discutimos com as prefeituras a adequação da programação deste ano, dentro desta verba”, lembra o secretário estadual de Cultura, Marcelo Araújo.


Em Bauru, a Virada acontecerá no fim de semana dos dias 23 e 24 de maio, sempre começando às 18h do sábado e terminando no mesmo horário do domingo. Estão previstos para se apresentar na Cidade Coração de São Paulo bandas como Tihuana (rock) e Alpha Blondy (reggae), o cantor Marcelo D2 (hip hop) e Catarina Dee Jah (batida eletrônica).

Aceituno Jr./Arquivo

Show de palhaços no fim de década de 90 na Oficina Cultural de Bauru: atividades constantes

Por amor à cultura


Depois do anúncio de reestruturação do programa das Oficinas Culturais, Bauru e região mantêm vigilância constante e se unem na mesma causa


Chega-se ao quarto dia “pós-anúncio” de reordenamento de seis Oficinas Culturais do Estado de São Paulo, incluindo a Glauco Pinto de Moraes, em Bauru. A população continua se manifestando e programando mobilizações para tentar reverter as desativações/transferências.


Além dos artistas das mais diversas áreas, quem frequentava (e ainda continua a frequentar) a OC lamenta a medida.

Divulgação

 Professora do curso de artes visuais da Unesp, Joedy Marins era aluna do espaço cultural

Professora do curso de artes visuais da Unesp de Bauru, Joedy Luciana Barros Marins Bamonte, 43 anos, tinha participado de um curso recentemente e, inclusive, levado alunos.


“Fizemos oficina com a Marisa Basso, que complementa a formação dos nossos alunos aqui, do curso de bacharelado. No ano passado, também fiz um curso de fotografia. A Oficina acaba sendo um lugar de atuação dos nossos alunos, os futuros profissionais, onde eles podem compartilhar com a população aquilo que eles aprendem”, disse.


Joedy lamenta este reordenamento, levando em consideração que a coordenação de Bauru será agora em Marília, há 100 quilômetros de distância.


“Na verdade, as Oficinas Culturais são parte do cumprimento do papel do Estado, que é levar Cultura à população”, finalizou. 


Protestos


Mais protestos “pipocaram” aos montes nas redes sociais e Tribuna do Leitor do JC novamente. Um deles ocorrerá amanhã, a partir das 9h, na Praça Machado de Melo (veja abaixo arte sobre o evento que circula nas redes sociais).


E intervenções serão feitas também na avenida Getúlio Vargas, só que no domingo, a partir das 9h (Praça da Copaíba).


Ainda: petição pública (abaixo-assinado eletrônico) já somava quase mil assinaturas até o fechamento desta edição. O endereço é https://www.peticaopublica.com.br/pview.aspx?pi=BR80616

Veja abaixo mais alguns manifestos recentes


Henrique Perazzi de Aquino (jornalista e professor de história) - “Também estou clamando em alto em bom som contra o fechamento da Oficina Cultural. Ruim demais isso.”


Madê Corrêa (atriz) - “Por que fechar a Oficina em Bauru quando o prédio está praticamente pronto e totalmente reformado, onde teremos um superequipamento cultural em Bauru, e levar todos das cidades de nossa região para Marília, onde o prédio é pequeno e acanhado? Qual a lógica?”


Cartas - O leitor Luiz Antônio de Oliveira escreveu até uma poesia para relatar o seu sentimento com o fechamento do prédio da Oficina Cultural Glauco Pinto de Moraes em Bauru.


Confira alguns versos de Oliveira:  “...Oficinas culturais... Ultimada com pretensão... O saber já não é mais... Sinônimo de evolução. O mundo caminha assim... Retrógrado à sapiência. A cultura jamais terá fim... Pois também é uma ciência...”.

Malavolta Jr.

Obras no prédio da Oficina Cultural Glauco Pinto de Moraes foram retomadas

 

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