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Cidadania cultural em prol da Oficina

Vinicius Lousada
| Tempo de leitura: 4 min

“Querem fechar a Oficinal Cultural / Jogar no lixo a sua memória / Sem o polo de arte, formação regional / Bauru esquece sua história”. Contra a tristeza e a indignação, música! Contra atos mal pensados de agentes públicos, muita civilidade e cidadania na rua. 

Malavolta Jr.

Artistas e populares foram ao Calçadão protestar contra o fim da Oficina Cultural de Bauru

 

Os versos acima foram entoados por mais de 80 pessoas, dentre artistas, estudantes, produtores e militantes culturais, na manhã de ontem, em protesto com ares de ato cívico realizado no Calçadão da Batista contra o fechamento da Oficina Cultural “Glauco Pinto de Moraes” de Bauru, a mais antiga do Interior Paulista, que chegaria ao Jubileu de Prata neste ano.

 

O músico Emílio dos Santos, recém-chegado à cidade, é um dos autores da canção que empolgou os manifestantes ao longo da caminhada, que saiu da Praça Machado de Melo e só terminou na Rui Barbosa. “Estou em Bauru há um ano e concluí, agora, o meu primeiro curso na oficial, que tinha como objetivo formar produtores culturais. A gente vive de arte e, nesse pouco tempo, pude conhecer a importância desse projeto. O mínimo que poderia fazer é oferecer parte do que sei para sensibilizar algumas pessoas contra esse absurdo”, lamenta o jovem.

 

Ivo Fernandes, coordenador do coletivo Samba de Bauru, também terminou seu primeiro curso na “Glauco Pinto de Moraes” e se decepcionou com a impossibilidade de que a primeira experiência tenha desdobramentos. “Não deu tempo”.

 

O grupo de maracatu Abayomi acompanhou o “protesto-cortejo” e chamou a atenção de quem passava pelo Calçadão. Para o regente Alberto Pereira, a medida anunciada pela Secretaria do Estado de Cultura é inaceitável. “Com educação e cultura, não se faz poupança”.

 

LEGADO

 

Além de músicos, o ato, que se transformou em festa cívica, reuniu artistas circenses, plásticos e cênicos. Regina Ramos e Madê Corrêa acompanham as atividades da Oficina Cultural desde o início da década de 1990.

 

Diretora teatral e produtora, Madê recorda a efervescência provocada logo no início do projeto, quando o já falecido ator Laerte Morrone veio a Bauru dirigir algumas peças teatrais. 

 

“Bauru era um celeiro da arte e toda aquela movimentação proporcionou, inclusive, a abertura do curso de artes cênicas na Universidade do Sagrado Coração (USC). O legado da oficina é indiscutível”, pontua.

 

Madê reforça que a classe a artística não será a única a ganhar com a permanência da oficina na cidade. “É claro que a gente precisa de trabalho, o que é fundamental. Mas muitos estudantes e potenciais talentos sairão perdendo”.

 

PREJUÍZOS

 

Integrante da diretoria da Sociedade Amigos da Cultura (SAC), a arte-educadora Regina Ramos conta que, além dos cursos, a oficina sempre foi e continua sendo um local importante que proporciona reuniões e debates acerca de ações e políticas culturais.

 

“A perda será imensurável. O Paulinho [Paulo Rogério Pereira, coordenador do projeto em Bauru, que participou do ato de ontem] é um elo muito importante para nós. Apesar de todas as dificuldades com recursos, ele nunca nos diz não e sempre busca uma forma de viabilizar as propostas. É inadmissível que seja realocado para Campinas”.

 

CONTROVERSAS

 

A Secretaria do Estado de Cultura alega que o fechamento da oficina de Bauru e a subordinação das atividades locais à unidade de Marília não impactará nos serviços prestados no município e na região. Fontes ligadas ao projeto, no entanto, garantem que não será bem assim. Isso porque, em função da proximidade da coordenação, vários projetos são desenvolvidos junto a entidades sociais e culturais da cidade. Com a transferência da gestão para Marília, só restaria a parceria firmada junto à Secretaria Municipal de Cultura.

 

O titular da pasta em Bauru, Élson Reis, também rebate a informação do secretário de Estado, Marcelo Mattos Araújo, de que o projeto atende a 25 municípios da região. “Ele mostra que está desinformado porque ele contempla 45; muitos deles sem condições de ter projetos culturais por conta própria”.

 

Mobilização segue hoje

 

Élson Reis confia na reversão do fechamento da Oficina Cultural. Ontem, após o protesto, o deputado estadual Pedro Tobias (PSDB) afirmou que o ato comprovou que a cidade merece a continuidade do projeto e endossou o compromisso de lutar veementemente contra a medida. O parlamentar Celso Nascimento (PSC), por sua vez, já acionou a liderança do governo estadual na Assembleia Legislativa para tentar reverter a decisão. O secretário estadual de Agricultura, Arnaldo Jardim, também se colocou à disposição de Bauru para a luta. Já o prefeito Rodrigo Agostinho entregará documento ao governador Geraldo Alckmin. Um novo ato da classe artística em geral está marcado para hoje, às 9h, na Praça da Copaíba, aberto a todos os bauruenses interessados na preservação dos espaços de cultura da cidade. 

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