A descrição da morte de Cristo no Calvário carrega um dramatismo diante da qual sequer os mais empedernidos ateus ficam indiferentes. Milhares de livros foram escritos sobre essa Paixão e Morte. Os principais museus do mundo estão cheios de telas de pintores famosos com cenas da mortificação. Na música, os grandes compositores clássicos também contemplaram o sacrifício de Jesus com obras magníficas. Impossível não se emocionar com o Concerto de Páscoa, de Joseph Haydn (1786), uma sequência de peças, orquestrações, coros e cantores solistas tendo como inspiração somente as últimas sete palavras do Nosso Senhor na cruz: "Perdoai, eles não sabem o que fazem". O "grand finale", é a passagem (o pessach, em hebraico), indicando que a vida vence a morte com a Ressurreição para a eternidade.
Mesmo quem não acredita numa vida além-túmulo, compreende o domingo de Páscoa como um renascer de esperança. A esperança, deixa de ser "a última que morre" e torna-se a única que sobrevive, pelo menos para quem conhece a injustiça, o sofrimento, a devastação e a intolerância que têm acompanhado a história da condição humana. Crentes ou descrentes, todos nós esperamos soluções, sejam elas terapêuticas ou políticas, sociais ou messiânicas.
É curioso o ressurgimento das velhas teorias conspiratórias, em aproveitamento do "sucesso" da Semana Santa e do seu principal protagonista. O quase esquecido "O Código Da Vinci", do escritor inglês Dan Brown , hoje tachado por alguns críticos como "o Harry Potter dos adultos", na teoria literária ganhou a classificação de "bela trama policial". No livro, para quem ainda não leu ou assistiu ao filme, dois investigadores cruzam segredos de sociedades secretas como a Opus Dei e os Cavaleiros Templários. A dupla faz descobertas surpreendentes: que Jesus foi casado com Maria Madalena. De acordo com a Bíblia e as aulas de catecismo, Maria Madalena foi uma prostituta que, arrependida, resolveu seguir Jesus Cristo e os apóstolos, até ser perdoada pelo filho de Deus. Os conspirólogos afirmam, no entanto, que na verdade, ela foi casada com Jesus Cristo, com quem teria dois filhos ? Sara e Tiago. Os Manuscritos do Mar Morto, descobertos em 1947, numa caverna na Palestina, confirmariam a tese de que Jesus se casou e teve filhos com Madalena, gerando uma linhagem que teria o direito sagrado de reinar sobre a França e Israel.
Os teólogos que seguem defendendo a virgindade de Jesus se apoiam no fato de que nenhum dos quatro evangelhos oficiais da Igreja, fala em matrimônio. Dan Brown sustenta esses quatro evangelhos foram escolhidos entre outros 80 porque consideravam Jesus divino, e os demais foram suprimidos pelo imperador romano Constantino no ano 325. Nada muda para os que creem. O argumento é forte para acabar com o celibato obrigatório na igreja católica. "Se até Jesus foi casado...?", seria a pergunta irrespondível. O Papa Francisco continua defendendo a essa solteirice como instituição. Mesmo dando de rijo na pedofilia. E os que o sucederem continuarão no mesmo caminho, até que um dia ? segundo alguns teólogos ? não tenha mais quem deseje exercer o sacerdócio celibatário. Antigamente, no Brasil, entrar no seminário era talvez o único modo de se aspirar a uma ascensão social e, às vezes, de estudar. Hoje, em Roma, capital do Cristianismo, praticamente não há jovens romanos nos seus seminários. São todos chegados do terceiro mundo. Aqui, em Agudos, aluga-se o magnífico conjunto arquitetônico do Seminário Santo Antonio, fundado pelos franciscanos em 1950 e até hoje sem cumprir a sua finalidade de noviciar jovens para a Ordem.
O escritor Dan Brown, com essa controvérsia toda continua ganhando dinheiro. Na sua cola são editados, pelo menos, vinte outros livros por ano. No fim, a controvérsia e o diálogo acabam sendo saudáveis para a religião, qualquer que seja ela. A religião só tem um inimigo, a apatia. O debate passional é um antídoto soberbo. Os leitores gostam de enigmas porque eles confirmam que a bagunça do nosso mundo esconde um sentido. Nem que seja para entender que a delação premiada começou com Judas, e continua válida. A todos os roubados, injustiçados e crucificados física e moralmente, Feliz Páscoa. A esperança continua...
O autor é jornalista e articulista do JC