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Páscoa pede mais amor ao próximo

Dulce Kernbeis
| Tempo de leitura: 5 min

Este domingo (5) é um dia marcante na tradição da Igreja Católica. Talvez o mais importante. É quando se comemora a Ressurreição de Cristo após o período de Quaresma e Tríduo Pascal, quando todo o calvário do filho de Deus foi relembrado. Na noite desse sábado (4) para hoje já aconteceram as cerimônias católicas da Vigília Pascal e a do Círio Pascal. “Esta (o Círio) é a cerimônia mais importante do calendário litúrgico cristão por ser a primeira celebração oficial da Ressurreição de Jesus”, destaca Frei Alfredo Francisco de Souza, pároco da Igreja de Santa Luzia.


Nela, o chamado fogo novo acende o Círio Pascal, vela com símbolos da Páscoa e do sacrifício de Jesus, como os cravos, à semelhança dos que foram usados na crucificação. O Círio conduzido pelo padre ou bispo entra na igreja, que está com as luzes apagadas, e representa Cristo Ressuscitado, vitorioso sobre a morte. “Cristo é a Luz que ilumina o mundo e entra na igreja para iluminá-la com a Sua ressurreição”, afirma o religioso. “O Círio é seguido pelos fiéis em procissão, anunciando a vitória da Luz de Cristo sobre as trevas do pecado e da morte”.


Neste dia, todas as missas comemoram a Ressurreição do Senhor. “É a passagem das trevas para a luz, da morte para a vida; é o mistério unificador de toda a nossa fé cristã, a festa principal da Igreja”, diz frei Alfredo. Para os fiéis, a Páscoa representa a passagem para uma vida nova. Ao pé da letra, Páscoa quer dizer “passagem”.


Sem consumismo


Para o padre Gustavo Rubin da Mota, da Paróquia Sagrada Família, em Bauru, diretor espiritual do Seminário Provincial do Sagrado Coração de Jesus, em Marília e mestre em Filosofia e Ética, é preciso desconstruir a religiosidade do consumismo, deixar a cultura de ovos de chocolate de lado e repensar no sentido de amizade que a celebração evoca.

Padre mestre em filosofia pede uma nova postura

Aceituno Jr.

Padre Gustavo: consumismo fere as verdades mais profundas

Jornal da Cidade - Qual é o significado da Páscoa, que muitas vezes passa despercebido?

Padre Gustavo Rubin da Mota - Com certeza é o sentido de atualizar a vida nova, como tempo de promessa pela qual caminhamos sempre para a completude e a plenitude que somente podemos chegar perante a visão de Deus. O Cristo veio nos trazer esperança, como uma nova forma de viver nosso tempo. “Esperançar” nos propõe fazer o caminho em que construímos os valores e virtudes pela integralidade do nosso ser: pela sabedoria dos anos que se passam, pelo processo de nossas escolhas que sempre revisitamos e aprimoramos, mas pelos encontros que celebramos com os outros, em especial pelo Cristo que assina sua Palavra pela prova de seu infinito amor.


JC - Os tempos em que vivemos precisam ser revistos, é isso?

Padre Gustavo - Sim, precisam ser revistos pelo tempo oportuno deste atualizar, como vivenciou e ensinou São Bento: o tempo do laborar - do trabalho que nos edifica e nos dignifica. E há também o tempo de parada, de revisão, de descanso, de pensar e até mesmo de orar.


JC - Como repensar?

Padre Gustavo - A Páscoa é a passagem de um mundo maquinal para uma vivência mais repleta de significado e ressignificações, é o retorno para um sentido maior e mais amplo, com a companhia do Cristo, mas que ativamente deveríamos vivenciá-lo como sentido de vida nova para todos e tudo, para a responsabilidade com a justiça e para viver nosso tempo sempre novo.


A mensagem da Páscoa é sempre atual: como ela pode ser contextualizada para os dias de hoje?

Padre Gustavo - Podemos desconstruir a religiosidade do consumismo pela liturgia que não carrega nenhum dogma, mas apenas aponta padrões que quando não realizados, nos colocam a margem do que seja socialmente aceitável. Por exemplo, poderíamos repensar no ethos cultural dos ovos de chocolate, mas do sentido da amizade e da vida nova que exige conversão, transformação para assumir o novo.


Há um vazio no consumismo?

Padre Gustavo - De fato, o filósofo Walter Benjamin até coloca o capitalismo como religião, por conta deste pragmatismo vazio que coloca a grande máquina em pleno funcionamento, o que não permite espaço para o questionar e para o pensar. Ela precisa estar bem lubrificada pela atuação, sem que esteja conectada a verdade mais profundas.


JC - Explique melhor essa dualidade. O excesso?

Padre Gustavo - Por isso, é importante notar que o chocolate que é bom e nos traz satisfação e prazer, além de selar encontros, amizades e oportunidades de partilha quando fora do contexto pascal de nossa cultura tem um valor, e na forma de ovos custe quatro vezes mais, sendo o mesmo chocolate.


JC - Mas é algo inerente à sociedade moderna...

Padre Gustavo - O que coloco não é a demonização deste rituais, e sim, quando uma criança quando vai a uma igreja com os pais, logo lhe atiça a curiosidade e ela começa a questionar os gestos, os símbolos e tudo que acontece neste ambiente. Também precisamos questionar o que significa a Páscoa como passagem para a vida nova todos os dias.


JC - Fica de fora o conceito mais profundo...

Padre Gustavo - Sim, um ponto fundamental é como a Páscoa,  pela cruz como compaixão de Jesus, a Ressurreição como vida nova devem ser um incômodo para tirar o humano de seu comodismo, de seus medos e recalques, para que se traumatize diante do clamor por justiça, não uma justiça apenas aos meus direitos, mas para um bem comum, com respeito às diferenças.


JC - Um novo significado...

Padre Gustavo - Sim, mas sem perder o ponto de consenso, precisamos reaprender nos passos de Jesus, o que significa um humano comprometido e responsável. Acredito que a Páscoa, mais do que o prazer de rever os amigos, de presentear nossos prazeres, também poderia contemplar um sentido mais abrangente de encontros, no qual permito-me arriscar a sair de mim e me tornar próximo dos outros, tal qual o Cristo se aproximou de nossa humanidade. É a troca da razão idiota (no sentido grego da palavra: o que olha para o próprio umbigo) para uma razão amorosa e sempre revigorante. “É preciso mudar muito para continuar sempre o mesmo.” Este paradoxo de Dom Helder Câmara pode nos ajudar.

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