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Bauru não conta com exame genético gratuito para câncer

Marcele Tonelli
| Tempo de leitura: 7 min

Éder Azevedo/Arquivo

“Atendemos média de uma pessoa por semana, interessada em exame genético de propensão hereditária”, diz Marcelo

O câncer é a segunda doença que mais mata em todo o Brasil. Em Bauru, 2,5 mil pessoas morreram acometidas pela enfermidade nos últimos seis anos, uma média de um óbito por dia, segundo dados da Secretaria Municipal de Saúde (veja mais no quadro abaixo). Fatores externos como o sedentarismo e a má alimentação são apontados por médicos como os grandes vilões, mas a questão do fator hereditário é considerada em aproximadamente 10% dos casos. E quando há essa constatação, a chance de desenvolver a doença pode se multiplicar.


A prevenção com a realização do exame de mapeamento genético, que indica a propensão de desenvolver tipos específicos de câncer, no entanto, ainda é desafio em Bauru, que não possui um hospital ou instituto que realize o procedimento gratuitamente. Para conseguir um exame parecido, o paciente tem que viajar mais de 200 quilômetros ou recorrer à rede particular. O alerta é feito no Dia Mundial de Combate ao Câncer, comemorado nessa quarta-feira (8).


Sem cobertura


O exame de mapeamento gênico - o mesmo realizado pela atriz Angelina Jolie, que passou por cirurgias preventivas retirando os seios e o útero nos últimos meses, após ter confirmado o risco hereditário - ainda não possui cobertura via Sistema Único de Saúde (SUS), conforme admite a Secretaria de Estado da Saúde.


Quem recebe a indicação médica para realizar o exame em Bauru precisa recorrer às unidades pesquisadoras da doença, no caso, o Hospital do Câncer em São Paulo (330 quilômetros de Bauru), Hospital de Câncer de Barretos (256 quilômetros de Bauru), ou ao Hospital de Clínicas de Campinas (257 quilômetros de Bauru), este último especialista no exame de mamas.


Outra saída tem sido pagar entre R$ 3,5 mil e R$ 5 mil para realizar um exame parecido, chamado BRCA 1 e 2 na rede particular do município.  Conforme o JC levantou, uma clínica realizaria o procedimento na cidade, contemplando exames genéticos específicos de mama, ovário e colorretal.


Vale ressaltar que tanto o mapeamento gênico quanto o exame BRCA indicam essa propensão e até mesmo a idade próxima em que a pessoa poderá desenvolver a doença.


Em nota, o Ministério da Saúde recomenda o exame genético para mulheres, a partir dos 35 anos, com histórico de câncer de mama e ovário na família – especialmente se uma ou mais parentes de primeiro grau (mães e irmãs) tiveram a doença antes dos 50 anos.


Ainda segundo o Ministério, “o sequenciamento das regiões codificadoras dos genes BRCA1 e BRCA2 é oferecido, no âmbito do SUS, por estabelecimentos de saúde que desenvolvem pesquisas nesta área”. O valor que teria sido repassado para o Estado e quais as instituições beneficiadas, contudo, não foi informado.


Demanda


A demanda por exames de DNA, no entanto, tem sido cada vez maior na cidade, conforme aponta o oncologista Marcelo Bernardini Antunes, que atua em um centro oncológico particular de Bauru.


“Atendemos média de uma pessoa por semana. É um exame de prevenção importante”, detalha. “O câncer de mama afeta 5,8% das mulheres e, quando a família possui mais de três casos de câncer de mama e ovário, por exemplo, a chance de um descendente ter aumenta até 70%. Ou seja, isso quer dizer que seis em cada 100 mulheres deveriam fazer este exame”, completa o médico sobre o exame BRCA.


À frente do câncer de mama e próstata, que possuem maior incidência, segue o câncer de olho, que seria o primeiro da lista das doenças com mais propensão hereditária, conforme explica Paulo Eduardo Souza, também oncologista.


“Esse mapeamento do perfil genético é mais comum quando a pessoa possui mais de dois casos de câncer na família, principalmente se forem familiares de primeiro grau”, comenta Souza, que possui três décadas de experiência na área médica em questão.


As neoplasias de cólon e intestino também seriam outros tipos de enfermidades que permeiam o fator hereditário. Apesar da existência do exame genético, Souza, faz uma ressalva importante em relação ao mapeamento gênico. “Ele ainda é uma incógnita para a medicina, portanto, a melhor prevenção continua sendo os hábitos saudáveis”, alerta.


Em números

Para se ter ideia, somente em 2014, o Serviço de Orientação e Prevenção do Câncer da prefeitura realizou 15,5 mil atendimentos e 24,8 mil procedimentos. O cenário da doença toma contornos ainda maiores ao serem analisados os números de atendimento dos hospitais estaduais da cidade.


De acordo com a Fundação para o Desenvolvimento Médico e Hospitalar (Famesp), existem atualmente 1,5 mil pacientes em tratamento de quimioterapia no Hospital Estadual de Bauru. Já no Hospital Estadual Manoel de Abreu, 50 pacientes estão em tratamento de radioterapia.  A entidade pontua ainda que, dos 7, 6 mil tumores diagnosticados em seus hospitais na cidade, de janeiro de 2003 até dezembro de 2014, um total de 2,4 mil foram a óbito.


Com 100 anos de intensa atuação na região, o Hospital Amaral Carvalho, de Jaú, que também especialista em câncer, constata em média 10 mil novos casos de câncer por ano.

‘De avô para neto’


“A vontade de fazer mapeamento genético é grande, mas o receio é pior ainda. Por isso, prefiro continuar monitorando com exames anuais”. A afirmação é feita pelo funcionário público A.R., 49 anos, que pediu para não ser identificado na reportagem. Ele possui grande incidência de vários tipos de câncer na família. E o pior: a maior parte dos casos foi fatal.


Quando criança, viu seu avô e sua avó paterna morrerem, por volta dos 60 anos. O avô tinha com câncer em vários órgãos e a avó, na coluna. Anos mais tarde, presenciou o sofrimento do pai diagnosticado com câncer de próstata, por volta da mesma idade.


A aflição e o medo ainda maior da enfermidade, contudo, surgiram com a morte de sua irmã mais velha, diagnosticada aos 40 anos com um câncer no fígado e que, em menos de seis meses, se espalhou por outros órgãos e a levou à morte. “Quando isso aconteceu, eu fiquei baqueado. Fiz vários exames pensando que também tinha câncer no fígado. Fiquei muito preocupado na época, mas graças a Deus, não era nada”, comenta.


Mas, não parou por aí. Recentemente, mais um susto na família. Seu sobrinho de 19 anos teve que operar às pressas para retirar um câncer em um dos testículos. “É uma doença muito triste e que me assusta muito. Confesso que tenho bastante receio e vivo com isso”, completa o funcionário público.

Tumor de pele, próstata e mama ‘lideram’ no HE


Na relação de casos atendidos pelo Hospital Estadual (HE) e Manoel de Abreu, o câncer de pele aparece como o tipo de enfermidade mais frequente, com 2,1 mil registros, entre janeiro de 2003 e dezembro de 2014, seguido pelo câncer de próstata, que totalizou 1 mil casos no mesmo período.


O terceiro da lista é o câncer de mama, com 815 registros, seguido pelo de cólon, com 397, e pelo de pulmão e brônquio, que totalizou 268 casos. Os três últimos da lista de maior incidência são o câncer de reto, com 257 casos, o de estômago, com 251, e o de colo do útero, com 236 registros.


No Brasil


Vale ressaltar que no Brasil, a incidência é parecida. O câncer mais comum é o de pele, porém, o que mais mata é o de mama.


Hábitos e alimentação saudáveis na prevenção

Aceituno Jr./Arquivo

Apesar da existência do exame genético, a melhor prevenção continua sendo uma vida saudável, ressalta Paulo Eduardo

Falar em prevenção para o câncer não é algo tão simples. Como combater uma célula que faz parte de nosso próprio organismo? Mas a prevenção primária, conforme explica o oncologista Paulo Eduardo Souza, pode estar fundamentada em adoção de medidas simples.


Não fumar, por exemplo, pode reduzir em até 30% as chances de desenvolver uma neoplasia maligna. O mesmo ocorre com a prática de exercícios físicos e uma dieta saudável. “Consumir menos conservantes, se alimentar bem e fugir do sedentarismo pode reduzir em de 30% a 40% a possibilidade de câncer em pessoas”, ressalta o médico.


Vale lembrar, contudo, que alguns tipos de cânceres até podem ser evitados por meio de exames, como é o caso do de intestino e cólon, diagnosticados com a colonoscopia.

 

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