Tribuna do Leitor

Onde estou? Quem sou eu?


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?Tenho tanta idade que já nem me lembro a data do meu nascimento. Creio também que pouca gente saiba que eu sou tão velhinha assim, que minha saúde já não é mais suficiente para suportar as comilanças, os banquetes e guloseimas que fazem por minha causa, usando meu nome. A tal da diabetes já não me permite mais que eu abuse tanto assim desses doces que hoje são símbolos que associaram a mim. O que sei que é de conhecimento de todos é o meu nome, que alguns de vocês que estão lendo aqui não precisam sequer ler minha assinatura para saber quem vos escreve.

Mesmo tão famosa, a velhinha que vos escreve não sabe dizer nem mais o que significa. Afinal, já me inventaram tantos significados, já me atribuíram tantos símbolos que, no fim de tudo, virei apenas mais uma oportunidade para lazer no calendário. E como o lazer é importante no mundo de hoje não é mesmo? Eu sei...podem aproveitar! Ainda acho que a família é a base mais importante de todo ser humano, é como se fosse um grande alicerce. Portanto, não me incomodo, podem se aproveitar de mim e me usar como desculpa para reunir seus entes queridos. Apareço só uma vez por ano. Confesso, porém, que no princípio eu não era muito religiosa. Comecei, com o tempo, a ganhar esses ares e, usando de toda sabedoria que a minha idade veio me trazendo, passei a entender que Deus, único criador, é responsável por tudo e, assim, passei a ver beleza em cada uma das religiões. Até mesmo na não religião.

Mas, o que me entristece, não é a ausência de crença. Todos têm o direito de crer naquilo que lhes é mais conveniente, desde que não fira o próximo. O que me entristece é o abuso, o excesso. Me usar como se eu não tivesse significado algum e criar seres consumistas, que não podem saber que está chegando o meu grande dia que já começam a salivar pensando nas delícias que irão à mesa nessa data. Isso sim é triste, saber que um símbolo superou o tamanho de qualquer outro significado, seja ele pagão, judeu ou cristão. Meu primo, de dezembro, também sofre com esses males do tempo, tão parecidos com os que eu sofro até hoje. Parece até que a cada ano a coisa piora. Sim...é duro ser uma simples velhinha que não pode nem falar. Todavia, aproveitarei da oportunidade de ganhar poderes para escrever e dizer o que eu gostaria que as pessoas lembrassem quando ouvissem tocar no meu nome. Nome bonito, com significado bonito, mas que, no momento, é o que menos importa. Quem quiser saber tudo mesmo sobre mim, não tem dificuldade, é bem fácil, basta acessar à internet e buscar pelo meu nome. Olha que velhinha moderna que eu sou! Também estou na grande rede.

Enfim...a minha mensagem, que gostaria de deixar hoje para todos vocês, é a seguinte: gostaria, meus amados, que me tratassem menos como uma oportunidade para degustar pratos diferentes daqueles cotidianos, que eu não soasse apenas como uma chance de se esbaldar numa iguaria que, durante a maioria dos dias do ano, deve ser evitada (pelo menos em grande quantidade), se não se pode adoecer. Gostaria, amigos, que meus símbolos não fossem medidos em Reais, que o dinheiro de vocês não fosse jogado todo fora comigo, mas que, uma vez que eu existo, parassem todos um pouquinho para pensar na mensagem que eu quero deixar nestes escritos. Gostaria que, toda vez que ouvirem falar no meu nome, lembrassem de Cristo. Lembrassem de seus ensinamentos. Gostaria, queridos, que vocês lembrassem que a ressurreição não é apenas restrita ao grande Mestre Nazareno. Ele mesmo disse que ressuscitar seria algo possível a todos nós, que crêssemos nos seus ensinamentos, ou melhor, que vivêssemos segundo eles. Gostaria que todos entendessem que ressuscitar significa colocar-se em pé novamente, ou seja, uma nova chance para erguer-se diante de tudo. Sim, gostaria que todos pudessem pensar na ressurreição de Jesus como a chance para ressuscitar para uma vida nova, para uma nova forma de agir, com mais paz, com mais correção, ou seja, que todos possam começar a viver uma vida com menos coisas e com mais e mais amor.

Sei que meu dia já passou, mas, não importa. Temos agora o intervalo de um ano inteirinho até que ele chegue novamente e, essa velhinha aqui que vos escreve, fique ainda um pouco mais velha. Estou esperando uma chance de ser lembrada como mereço e sei que vocês podem fazer isso. Não precisa deixar de festejar, nem de comer, tampouco precisa esquecer esses tão saborosos símbolos. Mas, basta refletir um pouquinho mais na sua própria vida e na vida de cada ser humano. Basta ensinar às crianças que eu, essa velhinha aqui, sou mais que chocolate em forma de ovo. E aí, que tal? Vocês conseguem? Tenho certeza que sim! Um abraço muito carinhoso, cheio de amor e de luz!

Assinado: A Páscoa!"


Mikhael Costa

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