Quioshi Goto |
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Entre suas composições, Cidimar criou inclusive canção para o Sanduíche Bauru |
Martinho da Vila poderia ter se inspirado no morador de Bauru Aparecido José do Nascimento, 71 anos, para compor o samba ‘Canta Canta, Minha Gente’. Com tratamento adequado e o auxílio da música, Nascimento deixou a tristeza para lá e superou a gota úrica, problema capaz de calá-lo temporariamente. Dono de um vozeirão, o cantor e compositor ‘da terra’ foi protagonista de uma recuperação surpreendente.
Voltou a ficar em pé e a andar com as próprias pernas, após permanecer por três anos acamado, impossibilitado até de sentar-se no leito. No processo de reabilitação na unidade de Jaú da Rede Lucy Montoro, ele soltou a voz para crianças em tratamento assim como ele. Uma espécie de gratidão por meio dos acordes, que sempre fizeram parte de sua vida.
Com o nome artístico de Cidimar Pantanegro, fez dupla com Cardosinho. Ambos lançaram o disco “A dupla diferente do Brasil”, em 1979. No mesmo ano, foram contratados pelo então prefeito Osvaldo Sbeghen para tocar na inauguração do anfiteatro Vitória Régia. Na ocasião, Pedro Bento e Zé da Estrada, assim com um grupo de Mariachis, também participaram da festa.
Trajeto
Como o show de todo artista tem de continuar, suas apresentações com Cardosinho sempre terminavam em luta livre. “Fazíamos isso para aumentar o cachê”, relembra. Cidimar, como prefere ser chamado, cantou mais. Passou pela gravadora Copacabana, pela Bandeirantes, pela Rádio Record. Antes, porém, integrou a dupla Irmãos Terra Branca, com a irmã Pedrina.
Rodaram o Estado e se apresentaram também em circos. Cidimar descobriu a paixão pela música logo cedo. Ainda criança assistiu a sessões consecutivas do filme, marcado pela música ‘Gorrioncillo Pecho Amarillo’, no Cine São Rafael, na Vila Falcão, para aprender uma canção da película, em castelhano.
Encantado pela música mato-grossense e pelo som do violão rasqueado, sabia um pouco de cada estilo. Fez inclusive samba enredo campeão pela Mocidade Independente, em1975. Na época, era conhecido como Presunto da Vila. Seu repertório inclui também uma canção ao Sanduíche Bauru, cujo boneco instalado no Vitória Régia foi furtado. A seguir, os principais trechos da entrevista.
Jornal da Cidade – Quando começou a dupla Cardosinho e Cidimar?
Cidimar Pantanegro - Em 1965. Hoje, o Cardosinho mora no Mato Grosso. Ele tem uma firma de eletricidade. Nós nos conhecemos aqui em Bauru, cidade onde eu cheguei com 4 anos. Nasci em Lins. Mas antes de conhecê-lo, fiz dupla com a minha irmã. Rodei este Estado todinho, com a viola cantando. Depois, ela casou e o marido não a deixou mais cantar.
JC – O senhor gravou o disco com Cardosinho em 1979?
Cidimar – Sim. Esta roupa aí (da capa do disco) é de luta livre. Nós fazíamos em circo luta livre e também cantávamos. Nós brigávamos, saíamos no tapa até terminar. Tínhamos que fazer isso para aumentar o cachê. A gente fazia academia e aprendeu cair da altura de dois metros e meio, três metros, sem machucar. Tudo isso para ganhar um pouquinho a mais. Era a vida da gente. Depois, a Copacabana nos viu e nos contratou.
JC – Com quantos anos o senhor começou a cantar?
Cidimar – Eu tinha uns 6 ou 7 anos. Eu fui uma vez no Cine São Rafael, na Vila Falcão, para assistir a um que tinha a música ‘Gorrioncillo Pecho Amarillo’. Fui em cinco sessões direto para aprender a cantá-la. Levava um caderno e ia marcando. Depois, ia ao cine só para treinar. Quando eu fui ver, estava cantando bem. Depois, grandão, comecei a cantar na Bandeirantes.
JC – O senhor sempre viveu em Bauru?
Cidimar - Quando eu sai da Record eu fui para o Pantanal. Entrei na Chalana Pantaneira e cantei três anos. Aprendi a falar guarani. Falo um pouco do castelhano, canto. Daí eu peguei a gota e voltei para Bauru para me tratar. Foi quando eu conheci a Iracy, minha mulher, meu tudo. Moro com ela há 9 anos.
JC – Entendi. E o senhor tem filhos?
Cidimar – Tenho dois (da primeira união). Minha filha esteve nesta semana aqui e falou “pai, você fez papel de homem, nunca atrasou um dia de pensão para a gente”. Eu respondi: “esta era minha obrigação, minha filha”. A Mirian é a mais velha e depois veio o Adilson. Mas fui e voltei sozinho do Pantanal. Acho que Deus indicou a Iracy para mim.
JC - Como vocês se conheceram?
Cidimar – Também fui locutor, propagandista. No Dia de Finados, fiz um programa na Rádio Megablitz. Só coloquei as duplas sertanejas que faleceram. Ela estava ouvindo na casa dela e ligou. Disse que o marido dela havia falecido, era violeiro e gostava de cantar. Depois, veja como é a vida, passei a ser marido dela. Ela que fez minha internação no Hospital Estadual de Bauru.
JC – O senhor ficou muito tempo internado lá?
Cidimar - Quase um mês. Não falava, ficava com os olhos parados. Eles pensaram que eu ia morrer. Voltei para casa sem sentir nada, nem via as pessoas direito. Fiquei quase 3 anos na cama. Um dia, um rapaz da Câmara Municipal nos orientou sobre como conseguir uma cadeira de rodas. A gente ficou tão sem dinheiro, que não tinha dinheiro para comprar. Fomos para Jaú.
JC – Foram para a rede Lucy Montoro?
Cidimar – Sim. Quem me atendeu foi o doutor Antônio Camargo Filho. Fiquei internado quase dois anos. A Iracy ia para lá. Um dia eu pedi para ela levar um violão. Os médicos do hospital falaram que eu cantava muito bem e que serviria de terapia musical para as crianças e para mim também. Peguei o violão e comecei a cantar na fisioterapia. No começo, eu não ficava de pé. Depois, eu comecei a ficar um pouquinho e depois sentava.
JC – Que músicas o senhor tocava?
Cidimar - Canto muita música fronteiriça, música de raiz. Quando eu estive no Mato Grosso, na Chalana Pantaneira, o povo gostava de mim porque eu sabia uma de cada tipo de música. No Lucy Montoro, eu cantava uma música sentado e outra de pé. Eu toco violão e toco bem. Toco de mão aberta tipo harpa paraguaia. Eu agradeço a música.
