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Uma herança para a música erudita

Dulce Kernbeis
| Tempo de leitura: 5 min

Quioshi Goto/Reprodução

Foto de 7/11/58, na A Discoteca de Bauru (da esquerda para direita): Laudze Menezes, Bicudo (da Colúmbia), Fauck Savi, Hamilton Souza Lima (da Copacabana), Silvio (Cassio Muniz), Helcio Pupo Ribeiro, Rubens Armani (Chantecler) e Gonzalez (da Odeon); não foi possível identificar os dois personagens restantes

Duas fotos separadas por 40 anos no tempo ilustram bem quem foi o bauruense Hélcio Pupo Ribeiro. Esse comerciante, professor, erudito, escritor, crítico musical, se estivesse vivo, teria completado 100 anos ontem.


A primeira foto: novembro de 1958, na loja que marcou uma época,  “A Discoteca de Bauru”. Nela, Hélcio confraternizava com divulgadores das melhores gravadoras do País, como a Chantecler, Colúmbia, Copacabana, Odeon.


Já no outro registro, em março de 1999, o professor recebia em sua casa a presença do dramaturgo Mauro Rasi, que lhe deixou  uma linda dedicatória por estar de volta ao clube de encontros Amigos da Boa Música (ABM).


Projeto inédito e quase que exclusivo no Brasil todo, era uma reunião com audição exclusiva das melhores composições musicais clássicas. E cada reunião se traduzia em uma verdadeira aula de história.


Idealizado pelo professor Hélcio Pupo Ribeiro, o ABM teve início no ano de 1943 e teve mais de 2 mil audições em um espaço único em sua residência, onde ele recebia os ouvintes.


Vida marcante


Hélcio, em mais de 70 anos de uma longa e diversificada carreira, foi  homenageado pela Câmara Municipal como “Cidadão Benemérito” – projeto do então vereador Irineu Bastos - e se casou duas vezes. “Deus não me deu filhos, mas deu netos e sou abençoado por isso”, costumava dizer, acerca dos quatro netos de sua segunda esposa, Irma Maria do Rosário Ribeiro, com quem viveu os últimos dez anos, até morrer em 1 de setembro de 2002.


Aos 88 anos, saudável e bastante lúcida, a viúva lembra, acima de tudo, que ele era um “gentleman” e um obstinado defensor da música de alta qualidade. Procurava se cercar do que havia de melhor tanto em equipamentos quanto na discografia. Após a morte dele, Irma doou todo o acervo dele à USC. Fez questão de registrar essa doação em cartório para que o legado não se perdesse.


Emoção em sala

Arquivo pessoal

Mauro Rasi em 15/3/99, em visita ao casal Irma e Hélcio, escreve uma dedicatória: “É um prazer retornar aos Amigos da Boa Música. Música sempre! Um abraço ao professor Hélcio e a todos”

A mesma qualidade de ser um “gentleman” é ressaltada pela professora Dolores Marques Mangerona, que foi aluna de Hélcio na Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação (Faac) da Unesp, curso de artes, turma de 86. Ele, inclusive, foi nome de turma e professor homenageado.


“Como também me tornei professora, sempre que  precisava de materiais para minhas aulas, recorria a ele. Guardo com carinho uma reprodução de ‘O Guarani’, de Carlos Gomes, que ele gentilmente me presenteou”, conta.


Ela conta ainda que quem foi aluno de Hélcio, com certeza, jamais vai se esquecer da “memorável aula sobre Van Gogh” , embalada ao som de Verdi ou Villa Lobos. “Ao final, estávamos todos chorando,  emocionados. Pessoa educada, amável e inteligente, soube ensinar com a paixão de um  educador verdadeiro, um mestre na essência da palavra”.


E era tão bom no que fazia que os alunos optavam pela turma dele no sábado à tarde. Algo impensável até hoje.


Crítico


Esse lado mestre, por sinal, ela usou para discorrer sobre ele na sua tese de pós-graduação. E com felicidade encontrou, nas pesquisas que fez por dois anos, trabalhos dele nas bibliotecas da Ufscar e na USP em São Paulo. Foram centenas de artigos também publicados em jornais, especialmente no Jornal da Cidade em Bauru e no Estado de S. Paulo, na Capital. Ela acha que ele merece ainda melhor reconhecimento e espera que uma sala, uma obra ligada à cultura ganhe o nome do professor, por aqui.


O retorno do AMB


Em 2010, a empresária Claudia Giovanini Noronha Ribeiro Siscar assume o retorno do Amigos da Boa Música. Apesar de ter Ribeiro no nome, ela não é parente do professor. Mas teve a sensibilidade de sentir que esse era um projeto que não poderia ser “engavetado”. 


“Por força de minha profissão [diretora de uma empresa que trabalha com som e imagem], nós mantemos, há muitos anos,  um espaço  para demonstração de equipamentos de home theater”.  


E já que o espaço existia, “foi crescendo no meu íntimo a vontade de dar ao local uma utilização mais social, para contribuir com a vida cultural da cidade”, conta Claudia Siscar.


O desejo, no entanto, “vinha acompanhado do medo de não atingir as expectativas do público, por não me considerar à altura de suceder tão grande mestre. Até que cedi aos apelos e decidi, então, tentar”, relata.


Liame afetivo


Um elo afetivo também colaborou para a volta do AMB. “Meu tio-avô, Geraldo César, grande amigo do professor Hélcio, foi um dos primeiros entusiastas dos 'Amigos da Boa Música', conta Cláudia Noronha. “É dele, inclusive, a arte que compõe o logotipo dos ABM,  por mim restaurada e, até hoje, utilizada em nossas audições”.  


Outra afetividade: a mãe dela era frequentadora assídua das audições na casa do professor Hélcio e eu a acompanhava esporadicamente. “Uma vez, atendendo a pedidos, levei até lá nosso equipamento com projetor e tela, para viabilizar uma audição de conteúdo audiovisual,  uma vez que os DVDs  - hoje tão comuns - eram ainda um material caro e recente”, relata Cláudia


Resultado: o ABM sobrevive até hoje. E, no dia 22, uma quarta-feira, fará da audição do mês o especial de homenagem aos 100 anos do professor.

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