Alex Mita |
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Maria Veralice fez aniversário no último dia 11, porém, sua situação passa longe de comemorações |
A cuidadora de idosos Maria Veralice de Vito completou 58 anos no último dia 11, mas não teve muito a comemorar. Com o descolamento de uma retina e duas hemorragias intraoculares, somadas à burocracia do sistema público de saúde, ela pode ter perdido, de forma irreversível, a visão do olho esquerdo.
Seu drama começou em 29 de janeiro, após dias de muita tontura. O primeiro atendimento foi na Unidade de Pronto-Atendimento (UPA) do Mary Dota, que, com urgência, encaminhou a mulher a um oftalmologista. Devido à gravidade de seu quadro, foi necessário também o atendimento de uma especialista em retina. “Era uma tontura muito forte e longa. Por um momento, achei que fosse labirintite”, disse Maria Veralice.
Não era labirintite. A especialista receitou Lucentis, um medicamento a base de Ranibizumabe, administrada por meio de injeção intravítrea, ou seja, no “miolo do olho”. Contudo, não indicou dosagem e quantidade de aplicações ou duração do tratamento. Esse seria um tipo de tratamento ocular quimioterápico.
Para garantir o medicamento, Maria Veralice procurou o Poder Judiciário que, em apenas um dia, despachou pelo fornecimento imediato da injeção e solicitou um novo receituário adequado. O impetrado foi o Departamento Regional de Saúde 6 (DRS-6).
A Secretaria de Saúde de Bauru não foi considerada passiva, já que, pelo entendimento da Justiça, apenas um pode ser demandado. No caso foi o Estado, “vez que, no âmbito do SUS, são os órgãos do Governo do Estado de São Paulo os responsáveis pelo gerenciamento de consultas e tratamentos especializados em hospitais da rede pública de saúde”. A decisão não acionou o município para evitar que ambos forneçam o mesmo medicamento.
Com um novo receituário e orçamentos de Lucentis, ainda no final de fevereiro, foram decididos prazos. Todos foram descumpridos, conforme a reportagem apurou junto ao processo disponível no portal do Tribunal de Justiça (TJ) do Estado de São Paulo.
Por conta dessa situação, no início de março, foi determinado bloqueio judicial da quantia de R$ 3.547,32 do Estado de São Paulo para a aquisição de três frascos do medicamento, na dosagem de 10 miligramas por mililitro, com intervalo mensal de aplicação. Em resposta, a DRS-6 teria informado a possibilidade de encontrá-lo na rede pública de saúde, mesmo que similares.
Devido à necessidade de uma nova consulta médica por um especialista, Maria Veralice solicitou à Justiça a quantia R$ 400,00, que foi liberada. Desta avaliação, outros R$ 150,00 foram pedidos para exame de ecografia, mas negados. “Não se pode perder de vista que o pedido formulado na inicial não foi de que a impetrada providenciasse consulta e exame, mas que fornecesse o medicamento de alto custo. E é o que foi determinado na sentença”, diz o processo. Por fim, no dia 24 de março, a injeção chegou.
Aplicação
Fim do drama? Não. Desde a chegada do medicamento, Maria tentava a aplicação.
Desesperada e com receio do vencimento do medicamento armazenado em sua geladeira, a mulher procurou o Jornal da Cidade para narrar sua luta.
O DRS-6 informou, por meio de nota, que o medicamento Ranibizumabe foi entregue a paciente em 24 de março de 2015 e a primeira aplicação está agendada para hoje.
A paciente deverá realizar outras três aplicações, mensais. “Vale esclarecer que não se trata de procedimento cirúrgico e, antes da primeira aplicação, a paciente está sendo submetida aos exames necessários”.
Contudo, o oftalmologia que examinou Maria não concorda que a cirurgia não é necessária (leia mais abaixo).
PREJUÍZOS
A cuidadora está sem trabalhar há dias. “Estou sem enxergar com o olho esquerdo e com a vista direita embaçada. Cuido uma paciente de 76 anos com Parkinson e Alzheimer e tenho receio de não ter mais condições de retornar por conta de riscos de erro em algum momento do meu serviço. Imagine se dou a dose errada de algum remédio?”, lamenta.
“Estou sem atestado médico desde o último dia 26 e meu patrão cobra os documentos e ele não está errado”, complementa Maria.
Médico e pasta divergem em necessidade cirúrgica
Apesar de a pasta dizer que não há necessidade de uma cirurgia, o oftalmologista que atendeu Maria Veralice, que pediu para ter a identidade preservada, afirmou que “a injeção, é apenas um preparador para cirurgia necessária”, pois reduziria chances de complicações durante o procedimento.
Questionado sobre as possibilidades de reverter a cegueira, o profissional disse ter necessidade de examiná-la novamente.
Outros dois processos foram abertos contra a DRS-6 para garantir, além da aplicação do medicamento, uma cirurgia denominada Vitrectomia Posteiror Via Pars Plana, indicada tanto para descolamento de retina quanto para a hemorragia vítrea.
Ao que tudo indica, em um dos processos, após as aplicações, deve ser marcada uma nova cirurgia, mas cabe apelação por parte do Estado.
Deve ser o começo de uma nova batalha para Maria Veralice.
