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Como dizer as coisas

João Pedro Feza
| Tempo de leitura: 2 min

O cantor Ed Motta despertou fúria nas redes sociais após pedir para que brasileiros da "turma mais simplória" não frequentem seus shows no Exterior. "Vai uma turma mais simplória que nunca me acompanhou no Brasil", escreveu no Facebook. "Público de sertanejo, axé, pagode, que vem beber cerveja barata com camiseta apertada tipo jogador de futebol, com aquele relógio branco, e começa a gritar nome de time".

E arrematou: "Não gaste seu dinheiro e nem a paciência alheia atrapalhando um trabalho que é realizado com seriedade cirúrgica. Esse não é um show para matar a saudade do Brasil. É um show internacional."

Após as reações negativas, o cantor reconheceu que se comportou "como se tivesse 15 anos", apesar de não retirar "uma vírgula" do que disse - e abriu show em São Paulo com "Manuel", seu sucesso popular, que não suporta mais cantar lá fora. Um internauta chegou a propor, ontem: "Por que não grava uma chamada Joaquim, vai para Portugal e nunca mais volte ao Brasil?".

Seja como for, Ed Motta voltou a ser alvo das atenções (ponto para ele que é artista e vive disso). Deve, inclusive, aparecer no "Pânico", hoje, aceitando dos humoristas um relógio branco igual ao dos "brasileiros simplórios". Ao seu modo, Ed Motta admitiu, na verdade, que o problema não foi "o que" disse, mas "como disse".

Por vezes, de fato, perde-se a razão quando a ferocidade ofusca o tema em si. Numa sociedade com os nervos à flor da pele, o custo é alto quando se carrega nas tintas, como no caso dele ao expressar suas frustrações de maneira errática.

Se nitidamente faltou humildade, contudo, também é verdade que expôs mazelas de um comportamento inadequado. Você, leitor, já não se incomodou com a falação desenfreada e gritaria quando está num show? Certa vez, Maria Rita ficou tão incomodada em Bauru com a "converseira" que chegou a interromper trecho da apresentação. E gente no caixa que, ao invés de te atender, fica fofocando na sua frente?

Resumo da ópera: educados raramente perdem a razão, seja na hora de escrever, falar, cantar ou até de provocar. Que pague o preço quem diz o que pensa com base em ofensas. E que tenhamos todos sabedoria para aprender sempre, inclusive com elas.

O autor é editor executivo do JC

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