Demorou, mas chegou e não me assustou. Fiquei triste porque Bauru deu mais um passo cultural para trás. Não sei se é ainda praga da Marília Pera ou questão política, mas fazia tempo que a Oficina Cultural virou projeto social e não mais formava o artista. Fiz vários cursos lá, ministrei oficinas também e tive o meu momento de glória com a estreia profissional da Maria Feliz naquele espaço cultural, ainda no prédio alugado da Rubens Arruda. Mas depois tudo mudou: o artista tinha até que pintar as salas para ter o direito de ensaiar lá, isso já no prédio da Rua Amazonas. Na época, somente eu e o ator Roberto Malini fomos contra essa regra naquela gestão. Não compramos material de limpeza e nem tinta látex para pintar nada. Preferimos pintar o sete em outro lugar. Aí começamos a ensaiar os nossos espetáculos em casa. Tudo me motivou a criar o primeiro espaço cênico independente de Bauru: o Atucaec. Depois disso eu e ele tivemos o projeto cultural do encontro do Cristo com o Vampiro vetado e o motivo até hoje não sabemos. Talvez, penso eu, por ser algo de vanguarda e muito ousado, pois a proposta era transformar toda a Oficina numa instalação cênica com dois espetáculos acontecendo ao mesmo tempo até o encontro de ambos nos moldes do Teatro de Oficina de São Paulo, uma fusão de linguagens que Bauru nunca viu igual. A Oficina fecha e infelizmente a comunidade bauruense a perde num momento de expectativa com a reforma do prédio definitivo em andamento. Talvez num futuro próximo, um projeto como o citado aqui poderia ser realizado lá, mas ainda tem gente em Bauru que nem sabe que a Oficina existiu, isso sem contar da época em que as pessoas achavam que a Secretaria Municipal de Cultura e a Oficina Cultural fossem a mesma coisa. A Oficina ainda era uma das poucas oportunidades profissionais dos artistas locais tentarem viver da arte em Bauru.
Já perdemos "A escola vai ao teatro" e agora a oficina. E isso acontece justamente com uma cidade que tem representação política atuante no governo estadual. Não dá para entender e nem aceitar. Se o problema é pagar o aluguel temporário da atual sede, o Atucaec também coloca a disposição da Oficina o seu palco Tia Maria já sabia, afinal, uma mão ajuda a outra e eu, sou muito grato à Oficina. E, para quem não sabe, muitas atrações da Mostra Internacional de Bonecos em Bauru só acontece graças à parceria da Oficina.
Parabéns a redação deste jornal, que apoiou intensamente a permanência da Oficina em Bauru e também parabéns ao artista de rua Marcílio (o nosso Chaplin), que mesmo nunca tendo projeto na Oficina, foi o primeiro a subir num caminhão de som para lutar pela oficina de todos, mesmo daqueles que não estão nem aí com a cultura local. Recentemente tive um espetáculo que virou balé em Bauru: "Os quatro sorrisos de Maria Feliz". Esse sonho começou lá na Oficina e ela foi a pioneira em acreditar na minha arte brincante na cidade sem limites. Infelizmente, estamos colhendo o que plantamos com muito adubo na urnas.
Manoel Fernandes, artista brincante e ideali-
zador do Atucaec ? Teatro em Casa