Houve um tempo bonito quando cana tinha nome, foi na minha infância e muito antes dela. Era nos fundos dos quintais, era nas glebas de terras e pequenas sitiocas onde pequenos capões de cana empendoavam de flores. Naqueles tempos existiam cana Cipó, com gomos alongados e finos, cana Manteiga, o regalo da molecada que, com seus canivetes, sentavam-se nos barrancos e passavam horas chupando gomos repicados em pedacinhos; cana Caena, originária daquelas bandas quase caribenha e a cana Rosa com sua casca riscada com a cor que lhe emprestava o nome, todas elas adoçaram minha infância com garapas que vertiam das moendas de pequenas engenhocas movidas a muque dos próprios interessados em lamber os beiços adocicados ou em engenhos de ferro movido a bois, burros ou cavalos para encher tachos de cobre onde algumas gotas de suor temperavam a garapa para transformar em melado ou açúcar mascavo com duas subdivisões: açúcar escorrido e açúcar esfregado, o feitio do açúcar gerava um subproduto que chamavam-no de mel de tanque. Esse tempo doce se foi e vieram tempos de amargor.
Como mágicos que manipulam uma cartola de onde tiram coisas inimagináveis, doutores em química em seus laboratórios manipularam e empobreceram nossas canas enriquecendo-as em sacarose, erradicaram as velhas cultivares e criaram novas espécies para atender o mercado, agora a cana não tem nome, são identificadas por números.
Lembro me da primeira cana conhecida pelo numero 419, de casca marrom escura, chamada por nós lá na roça de Cana Preta; depois criaram a cana branca de numero 76, foram números perturbadores. Amorfo como os canaviais, não permaneci estático, sou massa manipulada pela política, mas tento, ainda que com dificuldade, manter um pouco da doçura para não ser apenas número.
Lázaro Carneiro