Tribuna do Leitor

Desvalorização dos professores


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O JC (11/04, pág. 21) publicou reportagem com título em destaque: "Professores decidem manter greve".
Segundo a reportagem, a categoria reivindica reajuste salarial de 75,33%. O percentual pedido visa à equiparação salarial com as demais categorias com formação de nível superior ? o piso dos professores é de R$ 2.415,89 - risível.
O assunto, pela sua importância, merece toda atenção. O livro "Princípios e Normas de Administração Escolar", de Ruy de Ayres Bello (Editora Globo/SP/1956), sob o título "Remuneração do Professor", afirma: "A remuneração do professor não é apenas um problema de justiça social, de que não se pode alhear qualquer autoridade administrativa, mas também, em certo sentido, um problema pedagógico". Esclarece: "O trabalho do professor não se limita à sua atividade propriamente docente. Há a considerar, também, a preparação dessa atividade, que é ininterrupta, por assim dizer, a extremamente fatigante, como todo trabalho intelectual, cuja preparação acarreta uma considerável sobrecarga de despesa, com a aquisição de livro de estudo, assinatura de revistas especializadas, etc., para atualização do professor".
O Boletim nº 4 (1976), editado pelo Centro do Professorado Paulista, intitulado "Professor", explica: "Na administração e no cargo técnico, é possível protelar um trabalho para depois, bater um papo, tomar um café, repousar um instante. Mas dentro da sala de aula, isto é impossível. É preciso enfrentar os alunos, mas, nas classes numerosas, heterogêneas e buliçosas, ai do professor que não ocupar seus alunos, porque não manterá a disciplina e será vítima, se parar um instante para descansar. À porta do Departamento Médico Civil do Estado chegam filas de professores com ouvidos moucos, a garganta rouca, e o sistema nervoso, às vezes, afetado".
Ressalte-se, hoje o comportamento disciplinar dos alunos é muito diferente de tempos atrás. A imprensa frequentemente tem noticiado professores sofrerem agressões morais e físicas dos alunos, no interior da sala de aula.
O CPP ressalta: "Não há dinheiro que pague o trabalho do professor, mas o trabalho do professor precisa ser pago também em dinheiro. Porque é um trabalho realizado com a criatura humana em termos de futuro e é singularmente importante para o destino da pessoa, da coletividade, da família, da pátria e da humanidade. Trabalho que não se faz com a madeira, pano, couro ou latão, mas se faz com a matéria imensurável que é a criatura humana. É um trabalho que merece da coletividade o aplauso, acoroçoamento, o reconhecimento, a gratidão".
Evoco meu ingresso no magistério público primário do Estado de SP, em 1955, nomeado professor primário da Escola Masculina do Bairro do Ribeirão Grande, na zona rural, município de Alto Alegre. Residia no sítio, casa de parede de barro, no interior, piso de terra batida, sem porta no quarto, apenas uma cortina, colchão feito com palha de espiga de milho.
Exonerei-me de ferroviário da ex-Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (EFNOB). Na época, o homem que casava com professora primária era conhecido como "chupim", devido ao elevado salário da esposa, possibilitando manter as despesas da residência do casal apenas com o salário da esposa professora.
Concluindo, para o Centro do Professorado Paulista, o professor, mais do que como cidadão, como educador, tem o dever não só de respeitar as autoridades constituídas, mas de encaminhar as novas gerações sob sua responsabilidade educacional para esse mesmo respeito. Isso não deve implicar, no entanto, em aceitação incondicional de todos os planos, e aplausos sistemático a todas decisões. Apoiando sempre que possível para divergir quando necessário. As Associações de classe terão uma autoridade muito maior quando precisar discordar e, se ainda preciso for, manifestar-se publicamente sua discordância.

Rodolpho Pereira Lima

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