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Ferradura Mirim vive clima de tensão

Marcele Tonelli
| Tempo de leitura: 4 min

Aceituno Jr.

Moradores do Ferrradura Mirim atearam fogos em pneus durante protesto

Um dia após decisão da Polícia Militar em iniciar a chamada Operação Saturação no Ferradura Mirim, o clima no bairro é de tensão. A medida, que triplicou o número de policiais para realização de rondas 24 horas por dia no bairro, surgiu como uma reação do comando do 4.º Batalhão de Polícia Militar do Interior (4.º BPM-I) ao clima hostil que a PM estaria enfrentando e aos tumultos recentes.

 

A decisão de instalar a operação, contudo, foi iniciada de fato na noite de anteontem, ocasião em que um grupo, que seria formado por jovens moradores do bairro, interditou o cruzamento das avenidas Cruzeiro do Sul e Jorge Schnyder Filho durante um protesto, conforme o JC divulgou na edição de ontem.

 

A manifestação terminou após a PM lançar granadas de fumaça e gás lacrimogênio contra os manifestantes, que acabaram recuando cerca de cinco horas depois do início do protesto, por volta das 19h.

 

Tanto a PM quanto os moradores que conversaram com a reportagem ontem afirmaram que o protesto teria começado após a prisão de Ericson dos Santos, de 20 anos, conhecido como “Deda”, acusado de tráfico e que já havia sido preso na última terça-feira, feriado, por resistir a uma abordagem policial e danificar uma viatura da PM no bairro. Vale pontuar que neste mesmo dia, ele foi solto após pagar fiança de R$ 3.940,00. Um dia depois, porém, foi detido de novo (leia mais abaixo).

 

A PM diz que manterá o reforço policial no local por tempo indeterminado.

 

Medo

 

Há 15 anos morando no Ferradura Mirim, uma dona de casa de 32 anos (a vítima pediu para não ser identificada por questões de segurança), disse, ontem, estar assustada e com receio de sair de casa.  “Nunca vi isso acontecer aqui desta forma. Hoje (ontem), a situação está um pouco mais tranquila, mas ainda é tenso, crianças e moradores ficaram machucados por causa das balas de borracha, só que tá todo mundo em silêncio com medo de que haja represália”, comenta a moradora. “Aqui prevalece a lei do mais forte, mas nunca tive problemas, nunca nem me roubaram em casa. Aliás, traficante que é traficante mesmo não mora na favela. E nós, que somos de bem, acabamos julgados e pagando as consequências”.

 

Outra moradora, de 36 anos, que reside perto do local onde os protestos ocorreram, afirma que os atos foram motivados por conta da ação de um PM durante a prisão ocorrida na última terça-feira. Ela diz que uma mulher teria entrado na frente do acusado para tentar tumultuar a abordagem. “O PM empurrou ela pra não deixar o ‘cara’ fugir e o pessoal ficou bravo. Começaram a tacar pedras na polícia”.

 

RESPONSÁVEIS

 

Maria afirma, contudo, que tanto o tumulto quanto o protesto foram causados por um grupo específico de pessoas.

 

“Não é o povo trabalhador que mora aqui que fez isso. São jovens em sua maioria, que estão entrando no mundo do crime. Sou a favor de uma ação intensa da polícia para ajudar a coibir, mas confesso que tenho cortado caminho e que tenho medo. Afinal, bala perdida não escolhe vítima”, acrescenta a mulher.

 

Comandante do 4.º BPM-I o tenente-coronel Flávio Jun Kitazume disse que decidiu reforçar o policiamento no bairro após vários episódios de intimidação. “Isso ocorre lá e não é de hoje. Sabemos que a maioria da população é de trabalhadores, mas alguns simpatizantes do tráfico têm usado a intimidação para criar uma cortina, um escudo para tentar o arrebatamento (fuga) dos suspeitos durante abordagens”. 

 

Feridos?

 

Até ontem, não havia informações sobre feridos nos protestos e tumultos, que em um dos episódios contou gás lacrimogêneo para dispersão. A moradora de 32 anos que conversou com o JC, contudo, disse que seu filho, de 13 anos, foi agredido nas costas com um cacetete por um policial militar, enquanto passava pelo comboio na avenida Cruzeiro do Sul, na noite de anteontem. “Ele foi levar uma revista para uma cliente minha e, quando estava voltando, foi abordado e agredido, sem nenhum motivo”, alega a mulher.

 

O caso, contudo, não foi registrado na Polícia Civil. Comandante da PM, Kitazume disse que não houve nenhuma denúncia de excesso por parte da equipe e se colocou à disposição da moradora para o registro e apuração do caso. 

 

 

'NÃO É FAVELA, É BAIRRO!'

 

 Secretaria do Bem Estar Social, Darlene Tendolo, assim como a PM, afirmam que, apesar das ações enérgicas e do clima de tensão, o Ferradura Mirim não é o bairro mais violento de Bauru.

 

“O Ferradura é formado por trabalhadores, jovens e idosos. Essas ações foram isoladas, de um grupo que não concordou com o ocorrido”, ressalta Darlene. “É um bairro que deixou de ser favela há alguns anos e tem participação ativa nas nossas ações sociais”, fecha questão a secretária.

 

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