Articulistas

Os dedos que apontam são duros

J. F. da Silva Lopes
| Tempo de leitura: 3 min

Ahistória não reserva bom tratamento para delações, para suas traiçoeiras variáveis e para delatores e assemelhados. Tão somente conserva e repete seus nomes e os liga ao próprio comportamento sem preocupações com contextos, sem poupar-lhes as descendências e sem recuperá-los ou perdoá-los diante de arrependimentos e penitências, mesmo quando sinceras. Dentre outras centenas de delatores - delatar parece ser coisa muito humana - Judas Escariotes, Brutus, nosso Joaquim Silvério dos Reis e também mulheres como Salomé e Dalila, passaram para a história pelo dedo endurecido com que apontaram para Jesus Cristo, para Julio Cesar, para Tiradentes, para João Batista e para Sansão sem preocupação com os contextos pessoais em que agiram e com as marcas com que ferretearam seus próprios descendentes. Nas suas participações históricas, o que contou foi o dedo enrijecido desviado do rumo natural e que fomentou tragédias humanas.

Os delatores tomados por alguma desconhecida razão são pessoas que quebram a ética de seu grupo ou organização para amealhar certas vantagens pessoais ou satisfazer certos interesses e qualquer que possam ser seus valores éticos e sua verdadeira motivação tornam-se párias desprezíveis e desprezados, sem mínima altivez que lhes permita olhar nos olhos de seus próprios parceiros e apenas vegetam pelo resto de suas vidas como subprodutos da raça humana.

Como todos os agrupamentos humanos, as sociedades ou organizações criminosas têm ética própria, coerente, respeitada e bem definida no meio em que vivem e naquilo em que atuam e seus integrantes fazem do silêncio associativo o principal valor da cumplicidade, utilizado para encobrir comportamentos e rastros que não devem ser de conhecimento público para impedir ou dificultar ações repressivas e punitivas indispensáveis para garantir o equilíbrio social.

Sem quebra dessa ética perversa e da sua inerente cumplicidade criminosa não há como articular combate eficiente que rompa tentáculos menores e corte cabeças maiores das estruturas criminosas. A cooptação de delatores facilita a repressão, permite mapear a organização criminosa e seu sistema operacional interno facilitando ações repressivas que levarão à sua destruição. Com lastro em lei, desde certo tempo assim tem sido feito, primeiramente para reprimir organizações políticas clandestinas e, diante do êxito, para reprimir as organizações criminosas.

O delator, no fundo um traidor, porque apanhado e envolvido numa trama criminosa rompe o silêncio que sustenta a cumplicidade associativa e pactua a entrega de seus cúmplices, fornece informações que facilitam investigação probatória e quanto mais valiosas forem as informações que oferecer maiores e mais amplos serão os benefícios que poderá receber como compensação.

A torpeza da delação praticamente deixa à margem a própria torpeza da premiação concedida porque, na verdade, não há outra forma eficaz para obter o resultado que se almeja, qual seja a própria repressão que destruirá a organização criminosa e punirá seus integrantes. Com certa dose de cinismo, o resto é o resto que pouco importa diante do resultado final que se pretende alcançar. Num país em que até o passado às vezes é incerto, o futuro é o reino da incerteza.

Não sabemos qual será o desfecho do "petrolão" e quais os resultados que, efetivamente, serão alcançados. Também constitui incógnita o que se reserva para os delatores, quais as vantagens que obterão e quais as punições atenuadas que receberão. E não temos condições de saber à luz da história as reações e as conseqüências para seus familiares e descendentes. Para nós tudo é novo, diferente e pode até ocorrer, nesta Bauru de tantas surpresas, que qualquer um de nós num futuro próximo conviva com algum delator ou descendente dele, claro que com novo nome e com o passado mais ou menos apagado. Assim são as coisas destes novos e difíceis tempos.

O autor é advogado e articulista do JC

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