Por muito tempo, os chamados “nem-nem”, ou seja, jovens que “nem trabalham nem estudam” ganharam destaque nas análises dessa faixa etária, porém, esse cenário está mudando. No Dia Internacional do Jovem Trabalhador, comemorado ontem, o JC levantou junto ao Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) que, das 61.842 pessoas entre 14 e 24 anos, 3.484 não estão trabalhando, não estão sequer em busca de emprego e também não estão estudando. A quantidade representa 5,6% do total.
Os dados compõem o levantamento mais recente do Censo, que é de 2010. Da parcela restante, 21.963 são estudantes (35,5%) e a maioria, 36.395 dos jovens, são considerados economicamente ativos (sendo que também podem estudar) em Bauru, ou seja, 58,8% do total.
Para o instrutor de aprendizagem do Centro de Integração Empresa Escola (Ciee) Renato Ferreira da Silva, o número de jovens que trabalha ou procuram emprego (definição do termo “economicamente ativo” por parte do IBGE) é ainda maior em 2015.
Interessados na ideia de liberdade financeira e na quantidade de oferta, Silva afirma que os jovens são atraídos para o mercado de trabalho. Contudo, outros especialistas apontam uma realidade diferente (leia mais abaixo). Por outro lado, o fator que teria contribuído para a oferta de emprego aos jovens, segundo o instrutor, é a Lei 10.097, datada do ano de 2000.
Silva explica que a legislação determina que 5% do quadro de funcionários das empresas seja composto por aprendizes. “Diante disso, a maioria dos jovens escolhe ser aprendiz. Em Bauru, os ‘preferidos’ das empresas têm entre 15 e 17 anos. Eles trabalham de quatro a seis horas diárias e a remuneração é calculada com base no salário mínimo. Todavia, quem trabalha nos bancos ganha um pouco mais”, argumenta.
Este é o caso de Marcos William da Silva e Silva, 16 anos. O rapaz começou a trabalhar aos 14 anos como menor aprendiz no estoque de uma loja de peças automotivas. “Minha família me encaminhou até o Ciee. Depois que comecei a trabalhar, aprendi muito e tomei gosto por estar em constante ação”, conta. Aos 15 anos, Marcos passou a trabalhar no setor administrativo de um banco, onde está até hoje.
O rapaz não consegue se ver sem trabalhar e sonha alto. “Pretendo cursar desenho industrial e nunca parar de estudar”, pontua. Marcos aparenta ser muito mais maduro para a idade que tem e atribui este comportamento ao fato de ter “pegado no batente” ainda na adolescência. Ele, inclusive, ajuda a pagar algumas contas da casa e entrega todo o valor do vale alimentação à família. “Eles me sustentaram por tanto tempo e é gratificante retribuir”, afirma.
Ajudar em casa
Além do adolescente Marcos, muitos outros jovens decidem ingressar de forma precoce no mercado de trabalho para ajudar em casa. É o que informa o coordenador do programa de aprendizagem do Consórcio Intermunicipal da Promoção Social (Cips), Marco Antonio Zanardo dos Santos. “A maioria dos jovens que nós atendemos não tem uma boa condição financeira e optam por trabalhar”, defende.
Quanto à geração “nem-nem”, Santos acredita que os jovens enquadrados nesta categoria, na maioria das vezes, têm uma possibilidade mais tranquila para tanto. “É uma questão financeira. Alguns jovens não sentem necessidade de trabalhar e se acomodam. Porém, a parte positiva de ter um emprego ainda na adolescência é o fato de abrir portas para crescer na vida pessoal e profissional”, finaliza o coordenador do Cips.
Contraponto
Embora a estatística do IBGE pareça otimista, ela compõe o Censo 2010 e, por isso, alguns especialistas fazem contraponto ao fato. Tanto que o economista Fernando José Martha de Pinho acredita que o número de jovens trabalhadores neste ano seja bem menor do que no período de elaboração da pesquisa. “Em 2010, a economia brasileira estava aquecida, fato que teria aumentado a oferta de emprego. Neste ano, passamos por uma crise”, justifica.
Outro fator que teria provocado o pouco interesse dos jovens em trabalhar, segundo o economista, é a “ambição zero”. Pinho explica que, quando a sociedade aceita a miséria e o governo intervém demais por meio de programas assistenciais, as pessoas são levadas a crer que o Estado é o grande provedor das necessidades. “Portanto, o espírito de ser autossuficiente acaba sendo esmagado”, conclui.